Ttulo: O Corsrio da =Rainha.
Autora: Barbara Cartland.
Dados da Edio: Nova cultural, So Paulo, 1987.
Ttulo original: Elizabethan Lover.
Gnero: Romance.
Digitalizao: Dores Cunha.
Correco: Edith Suli
Estado da Obra: Corrigida.
numerao de pgina: rodap
Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destinada unicamente =
leitura de pessoas portadoras de deficincia visual. Por fora da =lei de
direitos de autor, este ficheiro no pode ser distribudo para =outros
fins, no todo ou em parte, ainda que gratuitamente.

BARBARA CARTLAND
O Corsrio da Rainha
Leitura - a maneira mais econmica de cultura, lazer e =diverso.
Ttulo original: Elizabethan Lover.
Copyright: (c) Barbara Cartland 1953
Traduo: Flora Sellers
Copyright para a lngua portuguesa: 1987
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA
rua Fara Lma 200? - 3? CEP 01452 - So Paulo - SP - =Brasil
Caixa Postal 2372


CAPITULO I
1588

A estrada ainda mostrava profundos sulcos causados pela neve de meses =
atrs. O cavaleiro manejava com percia as rdeas, mas o animal =seguia
lentamente, com dificuldade, enterrando as patas no solo macio.
Rodney Hawkhurst prendeu a respirao ao chegar na plancie =atapetada de
campnulas azuis, margeada por imensas rvores seculares. Puxando =as
rdeas com delicadeza, mas firmemente, fez com que o cavalo andasse =mais
devagar ainda, e olhou para o assombroso espetculo com um sorriso =
enlevado.
Tinha-se esquecido completamente do milagre que a primavera operava na =
Inglaterra. Depois de tanto tempo passado no mar, aquele panorama era =
quase novo para ele, fazendo-o sentir-se absurdamente sentimental e, ao =
mesmo tempo, to excitado quanto ficara anos atrs, ao resolver =atirar-se
no mundo da aventura.
Agora, com vinte e nove anos, percebia que no era to indiferente =assim
aos caprichos da natureza.
Tirou o elegante chapu de plumas cuidadosamente escolhido na melhor =casa
de Londres, e limpou a testa perlada de suor. Forara o cavalo =durante um
bom tempo naquela estrada esburacada, a fim de deixar para trs os =
criados com a bagagem.
Sentira sbita necessidade de ficar sozinho, para melhor pensar no =que
deveria dizer quando chegasse a Camfield. Ouvira opinies =contraditrias
sobre sir Harry Gillingham, felizmente favorveis, na maioria. Em =
Whitehall disseram-lhe que sir Harry era imensamente rico e generoso; =
bastaria ento um pouco de psicologia para faz-lo aceitar sua =proposta.
Mas se sir Harry a recusasse, onde mais poderia conseguir o que tanto =
queria?
Seus lbios apertaram-se numa linha fina, e seu queixo tornou-se mais =
quadrado ainda.
Sempre tivera sucesso em suas empresas, no seria desta vez que =pensaria
em malogro.
Mergulhado em pensamentos, mal reparou que havia atravessado a bela
plancie de campnulas e achava-se diante de um imponente =porto de
ferro.
Tinha chegado, afinal! Era este seu destino, e aqui comeava sua =busca, a
busca do tesouro!
Os portes foram abertos e o cavalo avanou, firmemente seguro =pela mo
de Rodney, que no se importou em esperar a pequena comitiva que =vinha
logo atrs. Eles achariam o caminho.
A alameda a sua frente era orlada de rvores frondosas e trepadeiras =
floridas. Lilases pendiam em matizes de malva e roxo, entremeando-se com =
jasmins e accias. O aroma suave penetrou-lhe as narinas, e Rodney, =uma
vez mais, esqueceu-se de sua principal preocupao para prestar =ateno
no espetculo inigualvel que a natureza lhe oferecia.
As accias mais pareciam repuxos de ouro; as castanheiras em plena =
florao ostentavam seus botes como estrelas de rvore de =Natal,
pontiagudos e brilhantes.
O canto de um cuco escondido perdeu-se nos ramos
dos cedros e fez com que Rodney parasse instintivamente para ouvir
melhor.
Nesse momento, alguma coisa silvou nos ares e atingiu seu chapu, =
arrancando-o violentamente de sua cabea.
com a agilidade prpria de quem est acostumado ao perigo, Rodney =
desmontou imediatamente e atirou-se contra um arbusto que se movia mais =do
que o vento o permitiria. Como duas possantes garras, suas mos =agarraram
alguma coisa suave e macia. Ouviu um gemido abafado, mas no largou a =
presa; ao contrrio, puxou-a rudemente para fora da moita de =lilases.
Rodney abriu a boca, surpreso. Tinha diante de si uma moa, ou =melhor,
uma adolescente. Ela se debatia e se retorcia, tentando livrar-se das =
duas mos tenazes. Por alguns momentos, Rodney teve de utilizar toda =a
fora para mant-la presa.
- Me largue!
A garota levantou a cabea desafiadoramente, atirando uma nuvem de =
cabelos cor-de-fogo para trs. Seus olhos faiscavam perigosamente e =eram
de intenso verde-esmeralda.
- Foi voc quem atirou aquela flecha em mim?
- Ora, foi de brincadeira. Solte-me!
De repente, como num passe de mgica, o rostinho amuado iluminou-se =num
sorriso brilhante. Rodney no resistiu e sorriu tambm. Aquela =
encantadora traquinas devia ser filha de algum colono, a julgar pelo =
grande avental branco e pelos cabelos soltos.
Mas era bonita, bonita demais! Os seios pequeninos sugeriam uma curva =
sensual sob o avental, e o pescoo alvo lembrava o de um cisne. =Rodney
estivera muito tempo em alto-mar e sabia muito bem reconhecer uma =mulher
bonita, artigo raro em sua profisso.
- Pois essa brincadeira custou-me caro, mocinha. Meu chapu novinho =em
folha est arruinado por sua causa.
- Bem, eu posso costur-lo para voc.
- Por Deus, voc vai  pagar pelo chapu!
- Pagar?
Ela arregalou os olhos de surpresa, porque Rodney, sem mais rodeios, =
puxara-a com fora para si. Braos possantes rodearam-na, e antes =que ela
pudesse fazer qualquer movimento, lbios vidos colaram-se aos =dela. A
boca da jovem era macia e quente sob a dele. Rodney pde sentir as =
batidas descompassadas do corao sob a fina blusa.
Por alguns instantes, apanhada totalmente de surpresa, a jovem ficou =
petrificada, sem iniciativa. Depois, com um gritinho aflito, deu-lhe um =
safano e livrou-se do apertado abrao. Antes que ele pudesse =det-la, a
jovem j ia longe, desaparecendo entre os coloridos lilases.
Sorrindo ainda, Rodney abaixou-se, pegou o chapu e arrancou a flecha =da
amassada copa. O interldio fora to inesperado quanto divertido. =Se a
filha de sir Harry fosse assim atraente como essa ruiva, ele no se =
arrependeria da deciso que tomara antes de deixar Londres.
A ideia do casamento fora plantada em sua cabea pelo padrinho, sir =
Francis Walsingham.
- Conheo Harry Gillingham desde menino - dissera a Rodney. -  um =homem
extremamente generoso quando quer; mas quando faz um favor, espera
retribuio.  desses que no do ponto sem n, se = que entende o que
quero dizer. Se quer que ele financie sua expedio, ento =ter de dar-
lhe algo em troca.
Mas ele vai receber muito mais do que vai me
dar! - retrucara Rodney.
- Mas devagar, rapaz. Est pensando que vamos receber o mesmo que =
recebemos de Drake?
- Bern, as coisas no esto to fceis como antes, admit. Os =espanhis
esto muito mais vivos agora, mas se eu conseguir meu navio, vou =trazer
uma fortuna  quase to grande quanto a que Drake trouxe. No foi =-toa
que viajei com ele nestes dez anos!
- Meu filho, se eu tivesse esse dinheiro, ele seria seu sem que eu
pestanejasse. No momento, no disponho de mais do que duas mil =libras,
que j so suas, e desta carta de apresentao para meu =amigo Harry
Gillingham. com ela, talvez consiga as outras duas mil.
- Mas afinal, que  que ele espera de mim, alm do dinheiro que =vou
trazer depois da expedio?
- Harry tem uma filha na idade certa para casar. Falam que ele no a =traz
para Londres porque sua nova mulher no gosta dela. Tente por esse =lado,
meu rapaz.
- Bem, se a moa for jeitosa... Marinheiros gostam de saber que h =uma
mulher  sua espera na cama, e um belo prato de assado no fogo.
- Marinheiros so egostas tambm. No se importam de deixar =a mulher
esperando anos e anos pelo marido...
- Isso torna as coisas mais gostosas, quando ele volta. Alm do mais, =meu
caro padrinho, quando eu ficar rico pretendo sossegar de vez.
Rodney era arguto o suficiente para saber que a vida de corsrio era =
precria e dificilmente traria fortuna a quem quer que fosse. Mas, =caso a
sorte lhe sorrisse, seu plano era construir um futuro sossegado e =calmo.
Como Francis Drake, pretendia comprar terras e propriedades. E como
Francis Drake, iria se casar com
uma moa muito bem escolhida. As semelhanas parariam por a; =porque, ao
contrrio de seu dolo, depois de rico pretendia assentar a =cabea e
tratar de ser apenas bom chefe de famlia.
Finalmente, Rodney viu-se em frente da casa desir Harry Gillingham. =Era
um castelo de construo macia, de pedras e travejamento =escuro. A
claridade banhava a grandiosa fachada com inmeras guas-furtadas, =cujas
vidraas reverberavam ao sol da tarde. Altos e esguios vitrais em =trelica
saliente emprestavam-lhe um ar de solenidade e quietude.
A casa ficava no meio de belssimo e bem-cuidado jardim, bordejado de =
roseiras carregadas e goivos. Um canteiro chamou-lhe particularmente a =
ateno pelo cheiro que desprendia: compunha-se de tomilho, =manjerona,
lavanda e alecrim. Os canteiros eram separados por sebes artisticamente =
trabalhadas em topiaria.
Sir Harry achava-se na sacada, esperando nos degraus, enquanto um =criado
pressuroso acudiu para ajudar Rodney a desmontar.
De porte grande e majestoso, sir Harry cultivava sua semelhana com o =Rei
Henrique VIII, no s na aparncia gigantesca como na vida =privada.
Depois de cumprimentar efusivamente o recm-chegado, sir Harry =conduziu-o
ao grande hall e apresentou-o  mulher.
- Esta  minha terceira mulher, sir Hawkhurst. E espero que no =seja a
ltima!
E desabou numa gargalhada que reboou pelas paredes imensas, decoradas =com
retratos de antepassados. Devia ser uma piada bastante batida, pois lady =
Gillingham nem se deu ao trabalho de sorrir. Mida, trigueira e =bonita,
no podia ter mais que vinte e poucos anos.
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Ela estendeu a mo e deixou-a ficar nas de Rodney por mais tempo que =o
necessrio.
Esse gesto, velho conhecido de Rodney, tinha significado inequvoco. =com
o canto dos olhos, avaliou sir Harry. J teria passado dos sessenta, =e
seu nariz vermelho denunciava excesso de bebida e mulheres.
- Aceita um clice de conhaque, meu rapaz? perguntou-lhe este, cuja =voz
era de baixo profundo. A viagem de Londres para c foi muito =cansativa?
- Nem um pouco. Meu cavalo estava descansado e acabei chegando mesmo =
antes do que esperava. Na verdade, meus criados ficaram para trs com =a
bagagem.
- Mas devero chegar logo. Minha linda mulher j tem tudo =preparado para
sua chegada. No , Catherine?
- Sim, meu senhor. - A voz dela era igual  de um gato ronronando =depois
de um prato de leite. Esperemos que sir Hawkhurst goste daqui, embora eu =
ache isso difcil.
- Difcil por qu, minha senhora? - perguntou Rodney, aceitando =uma taa
de rico cristal veneziano.
- Depois de suas maravilhosas aventuras com sir Francis Drake, o campo =
vai parecer-lhe montono e sem graa.
- Ao contrrio, senhora.  uma alegria estar em terra firme e, =mais
ainda, respirar o ar puro das montanhas. Na verdade, tinha-me esquecido =
das belezas que podem ser encontradas nos campos da Inglaterra.
Disse a ltima frase acentuando-a de propsito, enquanto encarava =Lady
Gillingham com firmeza. Esta entendeu-o e baixou os olhos escuros. "Ora, =
ora, o que temos aqui?" perguntou-se Rodney, intimamente divertido. "Uma =
mulher jovem, um marido velho e gordo, o viajante recm-vindo - o =eterno
e banal tringulo.
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Mas cuidado, Rodney!  preciso captar a confiana de milady, e ao =mesmo
tempo no levantar a fria do velho. No vai ser fcil, meu =amigo..."
Nesse instante, a porta dos fundos abriu-se e entrou uma moa. Ao =v-la,
Rodney quase derrubou a preciosa taa. Era, sem dvida, a mulher =com quem
sempre sonhara durante suas interminveis viagens em alto-mar. A =mulher
que o esperaria em sua casa, quando a tivesse. Sua mulher! Sir Harry =
adiantou-se de mos estendidas.
- Ah, minha querida Phillida! Aqui est Rodney Hawkhurst, de quem =j lhe
falei.
Qualquer coisa na expresso de sir Harry denunciou-o, enquanto fazia =as
apresentaes de praxe. Rodney teve certeza de que ele j sabia =de suas
intenes quanto  filha; provavelmente, seu padrinho =escreveralhe a
respeito.
Mas agora, olhando Phillida, tudo o mais pareceulhe de pouca =importncia.
Linda como uma fada etrea, tinha a pele sedosa e quase transparente, =
porte altivo e cabelos que caam como cascata de ouro lquido =sobre os
ombros. O corpo, delicadamente moldado pelo vestido de cetim amarelo, =era
gracioso e bem proporcionado.
Os olhos azuis e translcidos fitaram Rodney com curiosidade =indiferente.
Ela estendeu a mo muito alva, que Rodney apertou, buscando uma =resposta
que no veio. Ele sentiu mpetos de declarar-se perdidamente =apaixonado
ali mesmo. Tentou transmitir-lhe com os olhos tudo o que no ousava =falar
em voz alta. Queria toma-la nos braos, sentir sua pele macia, beijar =
aqueles lbios nacarados com violncia, mante-la cativa de =paixo.
O simples pensamento de beijar aquela princesa fez
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com que suas veias se intumescessem, inflamadas de desejo. Ele era agora =
o caador, e ela, a presa.
"Eu te amo" - disse-lhe com os olhos. "Voc  minha. De hoje em =diante,
voc  minha!"
Em voz alta, tartamudeou com voz rouca algumas palavras convencionais, =
sem conseguir tirar os olhos da figura esguia. Phillida falou muito
pouco, respondendo s perguntas do pai com monosslabos, enquanto =lady
Gillingham tentava em vo atrair a ateno de Rodney.
Quanto tempo ficaram conversando na grande sala, no poderia dizer, =mas a
tarde j ia alta quando finalmente sir Harry convidou-o para uma =conversa
particular e levou-o a seu gabinete.
Bem ao contrrio do que havia planejado, Rodney no falou logo nas =duas
mil libras; pediu imediatamente a mo de Phillida.
- Meu rapaz, eu pensei que havia outra razo para ser honrado com sua =
visita!
-  verdade, sir. Meu padrinho deve ter-lhe dado alguma ideia do que =
estou buscando.
- Sim. Parece que quer comprar um navio, no  isso?
- Exato. Sir Francis adiantou-me duas mil libras; eu tenho outras duas. =
Faltam-me ainda mais duas.
- E que pretende com tudo isso?
- Fazer o mesmo que fiz em companhia de sir Francis Drake: trazer
tesouros espanhis, para a glria da Inglaterra e... aborrecimento =dos
inimigos.
- Ento espera encontrar outro San Felipe? Drake teve sorte de =encontrar
esse navio no caminho. Seguramente no pensa que ter sorte =igual?
- Bem, o carregamento do San Felipe foi avaliado em mais de um milho =de
libras, sir.
- E seu objetivo  conseguir o mesmo?
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- No. Se conseguir um quarto disso, sir, os scios de meu navio =no
tero de que se queixar, no acha?
- Por Deus, no! - Sir Harry deu uma gargalhada estrepitosa. - Acha =que
tem experincia de comando?
- No acho, tenho certeza. Servi durante dois anos na marinha inglesa =e
logo depois engajei-me na tripulao. de Drake. Estava com ele no =ano
passado, quando o San Felipe foi capturado. E agora sonho com meu =prprio
navio. Quero fazer fortuna, sir, e rpido.
- H tempo para isso, voc ainda  jovem. Rodney hesitou um =pouco e
depois resolveu dizer
o que pensava.
- Pressinto que as coisas no sero to fceis no futuro, =como so agora.
Se o rei da Espanha enviar a armada contra ns, entraremos em guerra; =e o
senhor sabe que, em guerra, no terei a menor chance de fazer =fortuna.
- Entendo. Quer aproveitar estes momentos de calmaria para ficar rico, =
no ? Diga uma coisa, o que se comenta a respeito da guerra em =
Whitehall?
- Do que pude apurar, no h dvida de que os espanhis =esto planejando
invadir nosso pas.
- Talvez tenha razo. Pessoalmente, confio na diplomacia da =Rainha.
Rodney preferiu no retrucar. Ele, como muitos outros, achava que os =
esforos desesperados de Elizabeth em busca de paz seriam inteis. =A
Espanha queria guerra e, em sua opinio, o melhor a fazer seria =preparar-
se para ela.
- Vejamos, meu jovem. Se eu lhe der esse dinheiro; e preste =ateno,
ainda no me resolvi a isso, se
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eu lhe der o dinheiro, digamos agora, quanto tempo voc levaria para =
zarpar?
- Menos de um ms. O navio que quero comprar j foi escolhido; =seus donos
esperam minha deciso. Falta-me dinheiro para armas, munies e =
carregamentos, mas grande parte j foi providenciada.
- Sei. - Sir Harry coou o queixo. - Falou em casamento. Sua =inteno 
casar antes ou depois dessa viagem rocambolesca?
- Depois,  claro. Pretendo voltar rico, sir. com minha parte, =comprarei
uma bela casa, como esta. E s ento vou precisar de uma mulher, =para
dividi-la comigo.
- Por So Jorge! - a gargalhada reboou novamente, estremecendo os =mveis.
- Voc  realmente decidido, hem? Parece que j resolveu como =ser sua
vida. E se sofrer um ataque, se acontecer alguma coisa inesperada na =
viagem?
- Nesse caso, sir, eu no vou deixar nenhuma viva neste =mundo.
Sir Harry casquinou uma risada gaiata.
-  o que sempre digo para mim mesmo, nada de vivas. Prefiro ser =eu o
vivo, e fui-o duas vezes j. Phillida  de meu primeiro =casamento,
sabia? A me morreu de parto. Era uma criatura adorvel, talvez =jovem
demais. Tinha apenas quinze anos quando a filha nasceu.
- Quinze!
- Casei-me de novo, logo que a decncia o permitiu. No sou homem =de
chorar, nem de viver s e, pelo que vejo, voc  como eu.
- Penso que um homem deve se casar, depois das extravagncias da
juventude.
- Cus, aposto que voc andou aprontando algumas
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por este mundo de Deus! - Sir Harry ria gostosamente, balanando =a
imensa barriga. - Que tal as mulheres aorianas? As indianas? =Bonitas,
hem? Um dia voc precisa me contar tudo.
Locomovendo as banhas com dificuldade, sir Harry levantou-se.
- Bem, meu rapaz, aceito sua proposta. Empresto-lhe as duas mil =libras
para voc comprar seu navio, mas quero um tero do que conseguir =trazer
para a Inglaterra.
- Como posso lhe agradecer, sir Harry?
- Traga-me uma bela e preciosa carga! - gargalhou o gigante.
- E... meu outro pedido...
- Phillida? Tambm digo sim. Pode considerar-se noivo dela. Para =genro,
voc at que  bem apanhado! Seu padrinho  meu amigo h =muitos anos e eu
tenho grande respeito por ele. Isso, combinado com meu faro, dizem-me =que
tambm aqui estou fazendo bom negcio. Phillida ficar  sua =espera,
esteja descansado.
Rodney mal pde responder, tal a sensao de jbilo. =Phillida era dele!
Aquela fada loura pertencia-lhe!
Por Deus, ele a faria feliz. Havia de am-la at a loucura, =cobri-la de
jias. Reviu seu rosto delicado e impassvel. Ah, como queria =v-lo
retorcido de prazer, desvairado de desejo, pedindo-lhe mais beijos!
Ensinaria aquele corpo escultural a dobrar-se, arder em fogo, at =colorir
suas faces plidas... Phillida! Como a desejava, cus!
Sir Harry interrompeu bruscamente seu enlevo.
- Antes do jantar, gostaria de que conhecessem minha cavalaria. =Tenho um
garanho que  o melhor da regio.
- Seria um prazer, sir.
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 Harry apoiou-se em Rodney e os dois saram para o crepsculo. =Ao
atravessar o jardim, Rodney percebeu que algum observava por trs =de uma
sebe de teixos. Firmou a vista e reconheceu os cabelos ruivos da garota =
que beijara no meio de lilases em flor.
Estava com a pergunta preparada na ponta da lngua, mas conteve-se. =
Talvez fosse proibido aos filhos de servos brincarem nos jardins. Nesse =
caso, a garota poderia ver-se em apuros. Ainda podia sentir a maciez dos =
lbios carnudos sob os seus, a juventude trepidante de seus seios =quase
infantis. Tinha sido como manter um pssaro assustado entre as =mos.
Estranho que a memria daquele beijo ainda estivesse to viva em =sua
cabea. Rodney havia beijado muitas e muitas mulheres, mas esta tinha =
sido diferente. A boca macia recendia a virgindade; ele poderia jurar =que
a moa era virgem, ainda mal desperta para o amor. Seus lbios =
experientes haviam tocado a frescura de um boto recm-aberto, =haviam
reconhecido prontamente a encantadora simplicidade de quem nunca havia =
sido tocada. Sentiu novamente sua boca trmula, a respirao =apressada e
o cheiro de lilases.
Sir Harry tagarelava sem parar sobre cavalos, sem dar tempo a Rodney de =
responder, pelo que, alis, ele dava graas aos cus. No =tinha a menor
vontade de discutir garanhes! Antes de entrar na cavalaria, =voltou a
cabea furtivamente, buscando ver a petulante mocinha. Mas no =havia mais
ningum, e Rodney logo se esqueceu dela.
Na verdade, a linda ruivinha achava-se escondida, esperando que os dois =
homens sumissem de vista. Finalmente, sossegada ao v-los entrar na =
cavalaria, ela se virou para o adolescente que estava deitado a seu =lado
na grama.
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- J se foram. Acha que posso entrar agora sem ser vista?
- Pode, mas com cuidado. Se milady vir voc desse jeito, vai haver um =
barulho dos demnios.
O jovem tinha a voz pausada e preguiosa. Mantinha os olhos fechados, =por
causa do sol da tarde que j comeava a pr-se no ocaso.
Eram obviamente irmos, devido  semelhana de traos. Ambos =eram ruivos
e de compleio franzina; contudo, o quanto a irm era =encantadoramente
enrgica, o menino era quieto e contemplativo.
- Voc bem que podia ir na frente e ver se h gente rondando - =sugeriu a
moa, ainda hesitando.
- Podia, mas no vou. Quero ficar aqui deitado e pensar no meu poema. =
Alm do mais, sabe como detesto visitas.
- Afinal, quem  esse homem? - perguntou ela, sabendo que no =teria
resposta.
Sorriu, e seus olhos verdes danaram alegremente. Ainda podia sentir =o
gosto do beijo inesperado. O primeiro beijo de sua vida!
Levou a mo  boca, como se quisesse senti-lo de novo. O sol, =agora tinto
de sangue, filtrava-se por entre a ramagem e brincava em seus cabelos, =
como se quisesse competir com eles ciumentamente. Eram vermelhos e
bastos, possuindo como que uma luz prpria. A moa no era =exatamente
linda, mas, embora ainda no soubesse disso, seu rosto tinha algo de =
atraente e extico, capaz de atormentar a vida de muito homem que a =
conhecesse.
De repente ela sentou-se ao lado do irmo, cutucando-o.
- Francis, no aguento mais. Se ao menos pudssemos fugir daqui, =ir para
Londres!
- Catherine no deixa.
- Catherine, Catherine! Bolas, tudo gira em torno de Catherine!
- Voc tem cimes dela. Afinal, milady no  to =aborrecida assim... s
vezes.
- Diz isso porque  homem. Ela  toda adocicada com homens, quem =quer que
seja. No entendo como  que papai no v o jeito derretido =dela. No que
eu ligue para isso, mas quando me lembro de mame e vejo Catherine =
ocupando seu lugar, fico doente.
- Pobre Lizbeth! Ainda tem tanta saudade assim de mame? J faz =tempo que
ela morreu.
- , e faz outro tanto que Catherine est conosco. Cus, =est cada vez
mais difcil! - E Lizbeth amargamente tratou de limpar as lgrimas =com as
costas da mo. - No adianta chorar, eu sei. O que no tem =remdio,
remediado est. No  assim que Nanna fala? E  bem verdade. =A gente pode
brigar e lutar pelo que pode ter, mas de nada adianta dar murro em ponta =
de faca. Mame est morta e nada pode ser feito para traz-la =de volta...
para mim...
- Lizbeth, por que vive torturada assim? Que diabos, voc  =hipersensvel
a tudo! Deixe que a vida corra,  s. De nada adianta lutar com =Catherine
ou com papai. Pelo menos, no abertamente.  assim que eu consigo =viver
minha vidinha mansa.
- , eu sei, eu sei. Mas de que vale ser assim conformado? Mame =sempre
dizia que eu  que devia ser o homem da casa, no voc. Acho =que  por
isso que ela me pediu para cuidar de meu irmo... Devia  ter =pedido a
voc para cuidar de mim!
- Mame sabia que voc podia se cuidar. Eu sou acomodado e detesto =
rixinhas de famlia. Fao qualquer negcio para evit-las, e =neste
preciso momento no
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quero fazer mais nada alm de lagartear um pouco neste resto de =tarde.
- , meu querido Francis, voc  mesmo acomodado. Vai ver,  =por isso que
sou to enrgica. Talvez seja a tal lei de compensao. De =qualquer modo,
foi por sua causa que acertei no chapu daquele homem. Se voc =estivesse
treinando com o arco, como papai mandou, eu no teria feito isso. =No
teria equipamento...
- Tambm, aquele chapu ridculo, todo emplumado... parecia um =peru
verde!
- Bobo,  a ltima moda, em Londres.
- Pode ser. Mas eu achei ridculo.
- Ser que ele vai contar a papai?
- Da flechada? Se contar, no  cavalheiro. Alis, tenho minhas =srias
dvidas que esse seja um, j que  marinheiro.
- Corsrio, bobo.
- D no mesmo. Voc pensa que sabe tudo sobre navios, ?
- No, eu sei pouco. Mas sei mais que voc. Ah, Francis, por que =no pega
um navio para afundar a esquadra espanhola? Ah, se eu fosse homem!
- Deus me livre. Voc j  um osso duro de roer sendo mulher. =Como , vai
ou no vai entrar?
- , acho que preciso. Bem, vai sair barulho de qualquer jeito, eu =creio.
Catherine disse-me para no lavar meu cabelo de manh e eu lavei. =Disse
para eu ficar na despensa e arrumar os temperos nos vidros e eu no =fiz
nada disso. Ela deve estar uma fera!
- Pelo menos, no deixe que ela a veja de cabelo solto. Voc =est toda
despenteada. Lembre-se da ltima lio que tomou dela sobre =mulheres
desleixadas.
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Ela que v pentear macacos, ora bolas. Eu quero
ser homem, no uma dessas mulheres empoadas...
- Emproadas.
- No, senhor. Empoadas, cheias de p-de-arroz,  o que quis =dizer. Se
bem que emproadas tambm serve como termo. Enfim, no quero ser =uma
dessas imbecilides que s sabem se enfeitar como paves. Quero =ser
homem, viajar com Drake, lutar contra espanhis. Quero...
- Quer  se arrumar bem bonitinha, seno milady vai encher os =ouvidos de
papai. Ande logo, menina!
Lizbeth socou a grama, impaciente. Depois ajoelhou-se ao lado do =irmo,
desarrumando-lhe carinhosamente o cabelo.
- s vezes voc me deixa furiosa, mas bem que gosto desse =irmozinho.  o
melhor irmo do mundo quando quer, mas quando me provoca... tenho =vontade
de socar seu nariz.
- Soque o de nosso visitante, no o meu. Se voc estragou o melhor =chapu
dele, j arranjou um belo inimigo.
- O curioso  que em vez de ficar zangado, ele... "Me beijou", =completou
ela, em silncio, enquanto
se levantava e tratava de esgueirar-se para casa sem ser vista. =Alcanou-
a rapidamente e subiu para o quarto, onde a governanta esperava,
resmungando aflita.
- At que enfim, Lady Furaco! Onde andou, gostaria de saber. =Milady
estava nervosa e chamou voc um milho de vezes. Era de ouvir seus =
gritos! Ficou danada quando no a encontrou, e ainda bem! Imagine =s se a
visse desse jeito! Ah, no quero nem saber... O que andou =fazendo?
- Fugi da despensa, lavei meu cabelo e sa para passear, e da? =Num dia
bonito destes, ento eu tinha
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de ficar arrumando aqueles vidrinhos idiotas de cravo, canela e outras =
baboseiras?
- Milady  uma boa dona-de-casa, no pode negar isso.
- No to boa quanto mame.
- Minha querida, sabe que sua me esteve doente durante bastante =tempo
antes de morrer, que Deus a tenha - e Nanna persignou-se -, e que a casa =
ficou de pernas para o ar nesse tempo. Milady pode ter seus defeitos, =no
nego, mas gosta de cuidar da casa. E isso  uma virtude, pode crer. A =
Csar o que  de Csar.
- Eu a odeio.
- Shh, menina, ela pode ouvir...
- E ela tambm me odeia.
- Por que voc no  como sua meia-irm? A menina Phillida =vive muito bem
com milady. Elas nunca brigam.
- Phillida! - fez Lizbeth, com um muxoxo. Phillida se d bem com todo =o
mundo, voc sabe. Ora esta, aquela insossa vive num mundinho  =parte, s
dela, e pouco se importa que o mundo se desmorone. Se a casa casse, =acho
que ela iria sentar-se calmamente naquele banco do jardim ali, est =
vendo? E ficaria olhando para o infinito, como de costume. Qual! Aquilo =
ali  um verdadeiro pastel de arroz. No gosta de ningum, mas =tambm no
detesta ningum. E voc vem me dizer que  para eu ser como =ela? Nanna,
se eu fosse assim, acho que... me atiraria no lago de =ponta-cabea.
- Bem, pelo menos um pouquinho... Lizbeth riu, marotamente.
- Quando vejo Phillida, lembro-me da aula de cincias e de =gua.
- Pare quieta, pelo amor de Deus. No posso desfazer o n deste =lao... Explique melhor esse negcio de gua e cincias.
22
No entendi.
- Ora, Nanna,  simples. Segundo meu augusto e
sbio professor de cincias, a gua  inspida, incolor e =inodora. 
isso...  ver Phillida!
- Oh, voc  impossvel! - a boa mulher balanou a =cabea, desanimada,
enquanto Lizbeth ria, divertida com o prprio achado. - Sempre foi =assim,
desde pequena, voluntariosa e briguenta como qu. Quantas vezes sua =santa
mezinha no disse: "Nanna, voc vai ter um trabalho com =essa menina!"
E, como sempre, acertou na mosca. Francis  que era bonzinho; vivia =
quietinho na cama, sem reclamar. Ah, meu demoninho!
- Se eu fosse diferente, voc no gostaria tanto assim de mim.
- Sabe que eu gosto de voc, mas no sou to velha a ponto de =no
enxergar suas falhas, que, alis, no so poucas. Agora, trate =de correr,
seno vai se atrasar para o jantar. J  tarde, cus!
- No vou me atrasar - replicou Lizbeth, confiante. - U, por que =esse
vestido? Pensei que fosse especial para certas ocasies.
- Exatamente. O afilhado de sir Francis Walsingham  nosso =hspede,
sabia? Que moo mais bonito, benza Deus! Por isso, quero que fique =bem
bonita. Precisa cuidar mais de sua aparncia, mocinha, em vez de =ficar
reclamando de lady Catherine.
- Que conversa mole  essa? Nanna, s vezes voc me deixa =impaciente!
- Homessa! Ento seu pai hospeda um rapaz bonito como esse e voc =vai
deixar escapar a oportunidade de atrair sua ateno?
- Bonito, ele? Bem, pode ser. Mas tem cara de ser metido a =conquistador.
23
- Ah, ento a senhora j o conhece? - A fisionomia de Nanna mudou =de
repente, e ela deu um grito, tapando a boca. - Meu Deus! Voc =estava...
desse jeito? com esse... esse avental horrvel, despenteada como
camponesa? Deus, que  que ele vai pensar?
- Pouco me importa.
E Lizbeth deu de ombros, virando-se para Nanna no perceber que =mentia.
Importava-se, sim, e muito! Ah, se Nanna soubesse...
Fechou os olhos, lembrando-se do frmito gostoso que sentira,
inexplicavelmente delicioso... A princpio ficara indignada, =debatera-se
at, mas antes que gritasse os lbios dele j tinham se =apossado dos
dela, autoritrios, exigentes. Nunca antes chegara to perto de um =homem,
nunca fora sequer tocada por um. Gostaria de ter sido dura como ao, =mas
no pudera resistir. Ele agira como um conquistador e derrubara sua =
pequena cidadela, no s fisicamente, mas espiritualmente, porque =tomar-
lhe algo que antes nunca dera a ningum.
Lizbeth estremeceu ao pensar que a menina inocente e pura que acordara =
hoje j no era a mesma. Viu-se mulher de uma hora para a outra - =uma
mulher com emoes profundas, to profundas que ela mesma se =surpreendia.
Quietamente, deixou que Nanna terminasse de arrum-la. Seu cabelo =
cacheado foi puxado para trs, de forma a cair em cascatas de fogo =sobre
a pequena capa de veludo verde, cuja cor realava lindamente seus =olhos.
Quando entrou no salo, seu pai, Catherine, Phillida e o visitante =j
estavam reunidos. Rodney estava olhando para Phillida e no a viu =
imediatamente; quando, porm, sir Harry comeou a fazer as =apresentaes,
24
ele levantou os olhos e deu com a pequena gata ruiva que conhecera =poucas
horas antes.
Entre espantado e embaraado, ouviu de sir Harry:
- Esta  minha filha Lizbeth.
Um par de olhos verdes e profundos fitou-o diretamente. Sem saber por =
qu, Rodney teve a estranha sensao de que este seria um =momento
importante em sua vida.
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CAPTULO II

Gotas de orvalho tremeluziam nas folhagens quando Rodney atravessou =o
jardim rumo ao lago. Mais adiante, vacas pastavam tranquilas; um =veado
estacou, olhando-o com ar desconfiado. Mas Rodney nem o notou, imerso em =
pensamentos.
Nem bem os raios da aurora comearam a infiltrarse pelas pesadas =cortinas
do quarto, ele j havia acordado. Embora no gostasse de admitir, =a
verdade  que estava extremamente excitado e mal conseguira conciliar =o
sono.
Depois de um lauto jantar e vrias taas de vinho, qualquer pessoa =teria
dormido bem, menos ele. A ideia de ter conseguido com tamanha facilidade =
o que tanto ansiava, deixava-o no mnimo surpreendido.
Um navio s dele! Mal podia acreditar ainda. Amanh mesmo iria ao =banco e
enviaria o dinheiro a Plymouth, onde os donos do Gavio do Mar, =objeto de
seus sonhos, aguardavam. Rodney vibrava tanto que chegou a ter um pouco =
de medo.
E se os agentes no mantivessem a palavra e vendessem o Gavio do =Mar a
outro comprador mais rico e influente? E se o navio no fosse to =bom
como diziam os relatrios? Se no fosse to rpido como =julgava?
Todos esses temores foram o suficiente para sacudilo fora da cama logo =
cedinho. Ao abrir a janela, fixou
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os olhos na linha indefinida, onde o mar se funde com o cu, sem dar =
maior ateno s rvores explodindo em botes coloridos e =aos pssaros
que trinavam alegremente entre os galhos.
Quantas vezes ficara desse modo, observando ansiosamente o horizonte, =
espera do emocionante sinal de um navio inimigo! Deixou-se ficar parado, =
imaginando como seria sua expedio, at que o som pungente de =um sino a
distncia despertou-o para a realidade.
Vestira-se e deixara silenciosamente a casa, onde ningum ainda dera =
sinal de vida.
Afinal, no seria empresa fcil achar a tripulao certa. Os =melhores
homens j haviam sido contratados por Drake e por uma dzia de =outros
experientes comandantes.
J fora um milagre ter conseguido a parte mais difcil: levantar o =
dinheiro necessrio para a compra do navio. Seu padrinho tinha sido =
realmente muito mais generoso do que ele esperara. Sofrendo dos rins, =sir
Francis tinha apetite insacivel e, como muitas vezes acontece,
impossibilitado de comer como gostaria, transferiu esse apetite para a =
guerra e a violncia.
A prudncia do Primeiro Ministro e as incessantes manobras da Rainha =para
manter a paz com a Espanha incomodavam-o terrivelmente.
Acreditando que o nico modo de lidar com a Espanha era =conquistando-a,
ajudara Drake como pudera, utilizando sua poderosa influncia na =corte,
alm de dar-lhe dinheiro. Da mesma forma resolvera ajudar Rodney, =s que
em menor escala. Drake voltara coberto de glria e gozava agora dos =
favores da Rainha. Sir Francis, prudentemente, resolveu que este no =
seria um bom momento para apadrinhar um concorrente dele. O
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afilhado teria de esperar mais um pouco para tambm ter seu lugar ao =sol.
Embora publicamente a Rainha ainda demonstrasse as melhores =intenes em
relao  Espanha, sub-repticiamente dava apoio a Drake para =que este
preparasse uma frota e desafiasse a poderosa armada espanhola, chamada =de
Invencvel.
Assim, sir Francis limitara-se a dar a seu afilhado dinheiro e =bno,
alm de uma carta de apresentao para seu amigo, sir Harry =Gillingham.
Seis mil libras! Rodney comeou a indagar-se se isso seria o =suficiente.
E se tivesse calculado muito por baixo?
Sacudiu a cabea, pisando a grama macia sem ver. Ora esta, de que =
adiantava ficar se torturando? O que importava estava ali, ao alcance da =
mo: um navio s dele. E um belo navio, pois...
- Est sonhando acordado? com mulher ou navio?
Rodney estacou, surpreso com a voz argentina e clara. Diante dele =estava
Lizbeth, encarapitada na sela de um belo garanho castanho.
- com meu navio! - respondeu, retribuindo o sorriso travesso.
- Foi o que pensei. Pobre Phillida!
Havia uma nota zombeteira na observao que o deixou =aborrecido.
- Os dois so indivisveis, porque do sucesso de meu navio depende =o
futuro dela.
Mal disse a frase, arrependeu-se. Por que diabos tinha de dar =explicaes
a essa garotinha?
Mas ela, como se adivinhasse sua irritao, caiu na risada e =desmontou
agilmente. Suas faces estavam coradas e os olhos verdes danavam
brilhantes. Cachos rebeldes
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teimavam em cair-lhe na testa, como halo de
fogo.
Quer ver um ninho de patos selvagens? Os filhotes acabam de nascer - =
convidou ela, animada. Estranho como este ano tudo est acontecendo =antes
da hora, no? No estamos em poca de cria, mas muitos =animaizinhos esto
nascendo. Se bem que j estava previsto que este ano tudo ia ser
diferente.
-  Previsto, como?
- Ora, estamos em 1588! Todos os astrlogos predisseram que este ano =vai
ser cheio de surpresas. O velho Amos diz que ouve falar em 1588 desde =que
era menino, e olhe que ele j tem noventa anos! E a viva Belew, =que mora
numa cabana ali na floresta, diz que grandes maravilhas vo acontecer =e
que a Inglaterra ficar mais poderosa ainda. Ela  uma feiticeira, =sabia?
- Vamos torcer para ela ter razo - respondeu Rodney sem rir, pois =era
to supersticioso quanto seus companheiros de mar.
- Dizem que o astrlogo real tambm previu muitas coisas.
J estavam  beira do lago, cujas guas douradas refletiam o =corpo
esbelto de Lizbeth. Apanhando um graveto, ela puxou habilmente para a =
margem um ninho que boiava a pouca distncia. As aves piavam
incessantemente, de bico aberto.
- No  uma graa? - perguntou, abaixando-se para ver =melhor.
- Sim,  - respondeu ele distraidamente. Rodney perguntava-se se as =
profecias poderiam atingi-lo pessoalmente. Em suas viagens com Drake, =
aprendera a duras custas como os homens do mar acreditavam em sorte e =
como isso podia afetar uma tripulao inteira.
29
Qualquer predio fazia com que a rota fosse alterada; e mesmo o =mais
valente tremia ante previses estranhas,
Estava a ponto de perguntar a Lizbeth onde a tal feiticeira morava,
quando ela se endireitou e encarou-o direto nos olhos, observando-o com =
seriedade.
Sendo muito mais baixa, tinha de olhar para cima; ainda assim, Rodney =
teve a impresso de que era ele o menor dos dois. Quem o fitava
serenamente agora no era uma simples garotinha, mas uma mulher =dotada de
intensa fora interior.
- Voc vai voltar como quer e espera. Por que est to =preocupado?
- No estou! eu... - Ia continuar a protestar, mas sua mentira morreu =na
garganta quando ele deparou com o olhar decidido e firme de Lizbeth.
- Vai dar certo - insistiu ela, suavemente. Tenho certeza disso. Muitos =
homens j vieram aqui pedir dinheiro para papai e, de uma forma ou de =
outra, eu sempre soube quem iria voltar de mos abanando ou coberto =de
glrias. Ainda no ano passado um moo esteve aqui, e eu sabia que =ele no
voltaria nunca mais. infelizmente, eu estava certa.
- Como  que sabe essas coisas?
-  uma pergunta que no sei responder, mas acontece comigo desde =
menininha. Eu contava minhas vises e os adultos castigavam-me por =falar
bobagens, ou mesmo contar mentiras. Aprendi ento a ficar calada, mas =sei
que o que vejo sempre acontece. De qualquer modo, isso no ocorre com =
muita frequncia.
- Ento, tem certeza que vou voltar?
- com seu navio, tenho. com outras coisas... no.
- Como assim?
A despeito de si mesmo, Rodney estava muito impressionado com a =tranquila
simplicidade com que ela falava.
30
Mas Lizbeth j lhe voltara as costas e dirigia-se para o cavalo =que
pastava a distncia. Andava depressa, e ele foi forado a correr =para
alcan-la. Quando conseguiu, pegou-a pelo ombro e f-la =virar-se para
encar-lo. Abriu a boca para perguntar mais sobre seu futuro, mas =
novamente a voz morreu-lhe na garganta.
Era apenas uma criana, e ele estava fazendo papel ridculo, =levando-a a
srio. Sorriu desajeitado, admirando secretamente a massa de cabelos =
vermelhos que fulgia ao sol. O chapu de Lizbeth havia cado e =ficara
suspenso em seus ombros pela fita de cetim. Rodney ajeitou-o no lugar e =
afastou-se um pouco, ainda sem graa.
Sim, era uma criana despenteada e voluntariosa, que devia estar em =casa
estudando, em vez de vagar por a! Colocou um dedo sob seu queixo, =
obrigando-a a olhar para cima.
- Moa, voc quase me leva nessa histria de ler futuros! =Venha, est na
hora de voltar para casa.
O queixo era macio e morno, bom de pegar. Por um momento os olhos =verde-
esmeralda fixaram-se nele e depois, bruscamente, ela correu para o
cavalo.
- O caf est esperando. E Phillida tambm! Voc vai? - =perguntou ela, j
montada.
- Claro que sim, pequena. Estou faminto! - respondeu, forando =uma
animao que no sentia. Aproximou-se do animal, fazendo-lhe =festa.
- Voc monta bem para sua idade. Quantos anos tem?
- Fao dezoito no Natal.
Ele ficou surpreendido. Antes que dissesse qualquer coisa mais, o cavalo =
j ia longe.
Muito devagar, Rodney ps-se a caminho de casa. Ento Lizbeth era =mais
velha do que imaginara, o que
31
queria dizer que Phillida j estaria na casa dos vinte e cinco. Esse =
pensamento perturbou-o de maneira inexplicvel. Ficou imaginando como =
que uma moa linda assim ainda no tinha se casado.
Era o tipo de pergunta que no poderia ser feita a ningum, mas =que o
incomodava como mosquito impertinente. Uma jovem bonita, rica, morando =
perto da capital Realmente, era estranho no ter tido sequer um
pretendente. Lembrou-se dos olhares oblquos que lady Gillingham =lanava
 enteada de vez em quando e achou que tinha encontrado a resposta. =Sim,
 claro que s podia ser isso!
Desfranziu a testa aliviado. Catherine Gillingham mantinha as duas
enteadas em casa e nada fazia para arranjar-lhes casamento.
Durante o jantar da vspera, Rodney havia perguntado a Lizbeth, que =
estava muito quieta do outro lado da mesa:
- Seu nome  Lizbeth mesmo ou  apelido?
- Fui batizada Elizabeth, mas no conseguia dizer meu nome direito =quando
era pequena. Mame tambm era Elizabeth e decidiu que seria melhor =adotar
um apelido para mim, para no dar confuso. Agora
- completou, com uma sombra de tristeza na voz isso no importa mais, =
porque s sobrou uma Elizabeth.
- E pode crer, minha querida, uma  o bastante
- ajuntara lady Gillingham, rindo.
Apesar do tom brincalho, Rodney sentira farpas no ar e olhara para =
Lizbeth. Esta sorrira para o prato de forma estranha.
Absorto, Rodney chutou uma pedrinha. Num gesto infantil, agachou-se, =
apanhou-a e atirou-a com fora na gua, observando os crculos =que se
formavam na superfcie de espelho.
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Logo que Lizbeth entrara na sala e ele a reconhecera, julgara ver =esse
mesmo sorriso nos olhos verdes. Era como se ela soubesse que Rodney
ficara embaraado ao perceber que a moa dos lilases no era =nenhuma
filha de colono e sim do dono da casa. Ao mesmo tempo, uma espcie de =
pacto silencioso fez com que ambos fingissem no se conhecer =ainda.
A beleza de Phillida deixava-o entontecido,  verdade; contudo, =durante o
jantar, Rodney pilhou-se muitas vezes olhando para Lizbeth. Aquele rosto =
era marcantemente personalizado; bonito, sem dvida, mas havia mais =que
isso nele. Sua voz tambm era rica e cheia. Rodney tentara em vo =ouvir
fiapos da conversa dela com o irmo, um jovem de olhar lnguido e =
indolente, cuja aparncia no o agradou. No gostara do rapaz =desde o
primeiro minuto e, ao que parecia, no estava sozinho, pois sir Harry =
fizera referncias pouco elogiosas ao filho.
- Gosta de escrever versos, o cretino. Versos! Por So Jorge, nessa =idade
eu andava  caa de pernas bonitas! No sei o que a juventude =de hoje
pensa, mas escrever poemas e outras borboletices... puh! Essa nunca foi =
minha ideia de divertimento, garanto!
- Nem minha, sir - anura Rodney, rindo.
Mas por trs da ironia ruidosa e brincalhona do anfitrio, Rodney =
detectara uma ponta de despeito. Devia ser frustrante ver o prprio =filho
to diferente dele, um homem que vivera intensamente, sempre s =voltas
com bebidas, mulheres, guerras e espadas. Havia uma vitalidade nica =
naquele homem de personalidade forte; Rodney agora entendia porque tanta =
gente o comparava com Henrique VIII.
Possua enorme senso de humor, e quando lhe dava na veneta desabava =numa
gargalhada tonitroante que
33
costumava assustar mesmo os criados mais chegados. Costumava postar-se =de
pernas abertas, a cabea quase encostando no lustre, as mos =pousadas
onde outrora fora a cintura; ento, frequentemente, jogava a =cabea para
trs e ria com gosto, contagiando quem estivesse perto.
A estava um homem que sabia aproveitar a vida. No  de =admirar que
achasse difcil engolir um filho preguioso e molenga, cujo =nico
interesse parecia resumir-se em fazer garranchos melosos no papel.
Mas havia o outro lado de sir Harry, o lado frio e calculista, que
procurava sempre obter vantagem de tudo o que fazia. Quando Rodney
finalmente pedira licena para se recolher, o velho olhara-o com um =
brilho estranho entre as plpebras empapuadas. Anunciara =ento, erguendo
a taa, que havia aceitado o pedido de Rodney e que Phillida, sua =filha,
estava noiva dele.
Nesse instante, Rodney ficara ligeiramente preocupado com sua
precipitao. Afinal de contas, sir Harry havia confiado quase que =
instantaneamente a filha mais velha a um homem de quem nada sabia, =exceto
que era afilhado de um velho amigo. Na verdade, Rodney esperara que a =
coisa fosse mais difcil, e experimentara um estranho =desapontamento.
Gostaria de ter de lutar por ela, como sempre lutara para conseguir =o
que desejava; embora repetisse a si mesmo que, ainda assim, teria de
lutar pelo amor de Phillida, no fundo sentia-se algo frustrado. Ao mesmo =
tempo, suspeitava dos verdadeiros motivos de sir Harry ter-se mostrado =
to generoso.
"O caf est esperando, e Phillida tambm" dissera Lizbeth. Que =diabos
ela queria dizer com "e Phillida
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tambm"? Notara uma ponta irnica na frase, mas no
compreendera esses pensamentos indo e vindo, Rodney chegou  =varanda,
onde, surpreendido, deu com Phillida, que o esperava sozinha.
- Acordou cedo, sir Hawkhurst. Tive sorte, porque assim vou poder
falar-lhe antes que os outros cheguem.
- Queria falar comigo... a ss? - perguntou ele,
em tom acariciante.
- Sim, queria pedir-lhe uma coisa.
- Pea o que quiser. Desde j, prometo atend-la.
Phillida volveu os olhos plidos para ele.
- Meu pai anunciou nosso casamento ontem. O que quero pedir  que... =no
tenha pressa, por favor.
- Mas eu no tenho, Phillida. Pensei que tivesse entendido. =Primeiro,
terei de fazer uma viagem, alis bastante longa. Seu pai  =scio de meu
navio e eu pretendo devolver em dobro o que ele me deu para =compr-lo.
Mas isso ser quando eu voltar. S ento  que nos =casaremos, minha bela.
O rosto de fada no se alterou, mas Rodney pde sentir o alvio =da noiva.
- Realmente, no tinha entendido assim. Obrigada por sua =compreenso.
- Phillida, no tenha medo de mim. vou ensin-la a me amar e vou =faz-la
feliz, juro!
- Obrigada.
Rodney aproximou-se com cuidado. Phillida no recuou, mas algo o =deteve.
- Como voc  linda! Nunca vi ningum bonita assim, Phillida. =Sentir
saudades de mim?
Rodney sentiu-se vazio e arrependeu-se da pergunta, que lhe pareceu mais =
vazia ainda.
35
- vou pensar em voc, Rodney - respondeu ela, com um sorriso. Era =como
uma criana repetindo uma lio bem decorada.
Ele deixou cair os braos, sentindo-se impotente. Queria =arrebat-la nos
braos, beij-la, despertar nela desejo igual ao seu, sentir o =corpo
maravilhoso despertar, subjugado. Mas a beleza daquela semideusa
intimidava-o. Havia uma aura de pureza em volta de Phillida que o =impedia
de seguir em frente.
- Eu te amo, Phillida! - insistiu ele, achando-se cada vez mais oco.
- Quando pretende partir?
- Amanh. Escute, querida, preciso falar com voc sozinho. Podemos =nos
encontrar no jardim, na biblioteca, onde quiser. Preciso falar sobre meu =
amor, ainda que seja um instante apenas, sobre minha vontade de =torn-la
a mulher mais feliz do mundo. Por favor?
Ao dizer isso, tocou-lhe o brao de leve. Ela se afastou um pouco, =sem
qualquer trao de brusquido no gesto, de modo gracioso e =natural.
- Precisamos entrar. O caf j deve estar pronto e papai no =gosta de
esperar.
- Voc no me respondeu - retrucou ele, com voz rouca. - Onde =podemos nos
encontrar? A que horas?
- No sei, acho que  impossvel - respondeu ela suavemente, =sem
demonstrar irritao, medo ou nervosismo. - Venha, precisamos =entrar.
E antes que Rodney pudesse insistir, Phillida j havia desaparecido =pela
porta. Contrariado, ele franziu a testa e apertou fortemente os
maxilares, como sempre fazia quando no era obedecido prontamente. =No
estava acostumado a ser tratado desse jeito por mulher nenhuma. Tentou =
persuadir-se de que este caso era diferente, pois Phillida era moa =de
famlia, mas foi em
36
vo. Seu orgulho dizia-lhe que havia outra razo para o =procedimento
estranho da noiva.
Relutantemente, entrou tambm, depois de descarregar sua raiva no =capacho
da entrada.
O dia inteiro Rodney passou tentando ficar sozinho com Phillida; =parecia-
lhe que a famlia toda conspirava contra ele.
Quando os outros estavam presentes, Phillida tambm estava,
encantadoramente distante do burburinho familiar. Mas quando eles =saam,
ela os seguia sem que Rodney percebesse a tempo de ret-la. At =Francis,
que pouco ligava ao que se passava em famlia, percebeu alguma coisa =e
comentou com Lizbeth, em voz baixa:
- Que demnios deu em Phillida? Nem quis mostrar a nosso pirata a =galeria
de retratos l de cima.
- Phillida no gosta de namoro, Francis.
- U, por qu? Ela j est velha, devia tomar cuidado. Ou =vai morrer
solteirona como Nanna.
- Eu mesma no a compreendo. Falar a verdade, nunca compreendi. =Pensei
que ela fosse achar sir Hawkhurst um pedao de mau caminho...
- Puh! Por mim,  um canastro bobo. Detesto esse tipo de =bucaneiro
aventureiro, mas mulheres gostam disso. Phillida no devia ser =exceo.
Lizbeth deu de ombros, encerrando o assunto. Estava, naquele dia,
especialmente bem-arrumada e penteada. Nanna passara-lhe um sabo =logo de
manh, por gla ter sado a cavalo sem avis-la, e depois =forara-a a
tomar banho e vestir-se com apuro. Penteara-se com tanto capricho que =at
os cachinhos mais rebeldes estavam esticados, presos no alto da =cabea.
Enquanto conversavam, ela e Francis desceram para
o jardim. A certa altura, o irmo virou-se e apontou Para o =terrao, com
jeito zombeteiro:
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- Que quadro tocante! A famlia reunida em congraamento... uma =borda,
outra tagarela, outro l, aqueloutro beberica... E nossa amada milady =
tudo faz para chamar a ateno do romntico pirata de meia =tigela
enquanto papai no v, ou finge no ver. Ah, mas eu vou me =mandar daqui
agora mesmo. Venha comigo at o porto.
- Fazer o qu?
- Decidi que quero passear um pouco fora da propriedade.
- No, voc no me engana, mano. Quer mais  visitar o dr. =Keen e a filha
dele, no ? Francis, Francis! Pensei que tivesse se =corrigido!
- Por qu? Ningum tem nada que ver com meus amigos.
- Mas papai proibiu-o de visitar o dr. Keen. Diz que ele  suspeito =de
simpatizar com os espanhis.
- Mentira. S porque ele viveu na Espanha quando menino?
- E porque era amigo daquele embaixador que a Rainha expulsou.
- No  motivo para suspeitar do dr. Keen. Ele no  traidor =nenhum,
Lizbeth! Nasceu aqui!
- Para mim ele no parece ingls. E a filha, ento, morena =daquele jeito,
essa  mesmo espanhola.
- Ela no, a av  que era.
- Como sabe disso? Os Keen sempre negaram que tm sangue =espanhol.
- No, senhora. No so to estpidos a ponto de negarem =a evidncia,
mana. A av de Elita era espanhola, por isso  que o dr. Keen foi =para
l, logo depois de se casar. Voltaram h dezesseis anos, quando =Elita
nasceu, e moram aqui desde ento.  pura ignorncia
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julgar gente decente e patritica s por causa de terem cabelos =pretos.
- Mesmo assim, papai proibiu voc de ir visit-los.
- E da? Estou interessado nas experincias do velho Keen. Ele me =deixa
lidar com as provetas e eu gosto disso, embora no entenda quase nada =de
qumica.
- Elita tambm faz experincias junto?
- E se fizesse, que  que tem? Ora esta, Lizbeth, pensei que voc =fosse
mais compreensiva!
- Eu sou, Francis. Sei que o amor no escolhe hora nem lugar, mas =tenha
cuidado com papai. Ele  assim exigente, porque voc no gosta =das mesmas
coisas que ele gosta. Alm disso, suspeita dos Keen. Tem medo de que =voc
se apaixone por Elita, e eu tambm tenho.
- Que  que tem eu me apaixonar por ela?
- Nada, nada. Por favor, pelo menos faa a coisa com =discrio!
- Quer saber? vou agora mesmo visitar os Keen e ningum vai me =impedir,
pronto!
Francis quase gritava, o que fez Lizbeth tapar-lhe a boca.
- Shh! Papai pode perceber que estamos discutindo!
- Para o inferno com ele! Por favor, maninha, ajude-me, sim? Logo terei =
de voltar para Oxford e no vou poder ver Elita o vero =inteirinho. Por
favor, mana, no confio em mais ningum!
Como Francis esperava, Lizbeth sentiu-se derreter por dentro diante do =
apelo fraternal. Astucioso e matreiro, de carter fraco, Francis =sempre
conseguia que os outros entrassem nas batalhas por ele. Sua =afeio pelos
Keen crescera muito. Pela primeira vez na vida, tomava decises, =ousando
at desafiar a ira do temvel
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pai. Ainda assim, sentia necessidade de descarregar algum peso nos =ombros
da irm.
- Volte logo, Francis. Prometa que no ficar l muito =tempo.
- Prometo. Papai nem vai perceber que sa, est bem?
com um sorriso, o rapaz abriu o pesado porto e ganhou a estrada, =
assobiando.
Lizbeth voltou devagarinho, de corao opresso. Francis nada tinha =que
ver com o fato de ela no gostar dos Keen, e no seria ela que o =
convenceria a cortar relaes com essa famlia. No fundo, =achava que o
pai tinha alguma razo; no confiava no dr. Keen, mesmo que fosse =um
brilhante qumico. Afinal, ele era amigo pessoal de Don Bernardino de =
Mendoza, o mesmo embaixador espanhol que havia sido banido da Inglaterra =
por conspirar contra a Coroa.
Lizbeth tambm no confiava em Elita, a quem conhecia desde que a =famlia
veio morar em Camfield. Era uma morena tipicamente espanhola, sensual e =
namoradeira; no era -toa que Francis, fraco e inexperiente, =ficasse
lisonjeado com o aparente interesse da espanholinha.
Lizbeth tratou de disfarar seu ar preocupado ao juntar-se  =famlia, que
ainda estava na varanda.
- Est ficando frio - comentou Catherine, levantando-se. vou entrar, =para
no apanhar gripe.
- vou com voc - apressou-se a dizer Phillida, levantando-se
automaticamente.
- Mas... voc no ia me mostrar o pombal? - perguntou Rodney, sem =
disfarar o desapontamento.
- Seu pai disse que vocs tm mais de mil pombos. Eu gostaria de =v-los!
40
Papai pode mostr-los muito melhor que eu, no
, papai?
Sir Hctrry pareceu no perceber a manobra da filha, logo concordou, =
entusiasmado.
Claro, filhinha! Esse pombal  a menina de meus
olhos. Venha, Hawkhurst - chamou, sem notar o desespero impotente de =
Rodney. - No sei como faramos no inverno sem pombos. Nossa =cozinheira
faz a melhor torta da regio com eles, especial para noites frias. =No ,
Catherine?
Mas a mulher no estava ouvindo. Como quem no quer nada, =perguntou a
Lizbeth:
- Onde est Francis?
- Foi at a cavalaria - mentiu Lizbeth, sabendo o que lady =Gillingham
pensava. Afinal, tinha sido ela que insuflara o pai a proibir Francis de =
visitar os Keen.
- Quer experimentar o potro que papai comprou.
- Por minhas barbas, dessa eu gostei! - o rosto de sir Harry =iluminou-se.
- Ainda fao de meu filho um cavaleiro, vocs vo ver. Se =conseguir domar
o potro, juro que dou a ele de presente de aniversrio. Que acham da =
ideia?
- tima, papai. Francis vai adorar - fez Lizbeth, sentindo-se =infeliz.
Francis simplesmente detestava montar.
- Ento, ser uma surpresa. Por ora, vamos ver como ele se d =com o
bichinho, que por sinal  bem bravnho... Acho at que vou dar =uma
espiadinha na doma.
- No, papai,  melhor no ir. Francis pode ficar nervoso, sabe =como ele
. Alm do mais, no ia mostrar o pombal a sir Hawkhurst?
Dizendo isso, voltou os olhos para Rodney, em splica muda. Este =atendeu
instintivamente, sem contudo
41
compreender. Mulheres necessitadas de proteo era coisa a que =Rodney
jamais pudera resistir e, neste caso especial, f-lo sentir-se
envaidecido. Teve vontade de passar um brao protetor nos ombros de =
Lizbeth, dizendo-lhe que a defenderia de tudo. Limitou-se, porm, a =
anuir.
- Pois , sir Harry, estou esperando. Vamos?
- Bem, se est mesmo interessado... Vem conosco, Phillida?
- No, papai, vou com Catherine para dentro. Estou um pouco cansada e =no
gosto de pombais. Do-me ideia de priso!
42

CAPITULO III

Lizbeth preparava-se para deitar, quando ouviu um barulho abafado de
passos no corredor. Algum descia as escadas furtivamente, com =cuidado,
era bvio, para no ser ouvido. Silenciosamente, vestiu o chambre =e abriu
a porta, espiando pela fresta.
Pde vislumbra um vulto j nos ltimos degraus, segurando uma =vela e
desaparecendo de vista logo em seguida. Foi o suficiente para =certificar-
se de que era Francis, de capa e chapu.
Ficou indecisa, sem saber o que fazer. Preferiu resistir ao impulso de =
correr e perguntar-lhe aonde iria a essa hora, porque sabia muito bem =
qual seria a resposta. Fechou novamente a porta de mansinho e voltou =para
a cama, preocupada. O risco que Francis corria petrificava-a de medo; =era
cedo ainda, e o pai poderia muito bem t-lo ouvido sair. Mas sabia =que de
nada adiantava deter o irmo; alm do mais, o perigo de serem =escutados
aumentaria consideravelmente.
Fechou os olhos, sabendo que no conseguiria dormir. Acompanhou o =irmo
em mente, vendo-o atravessar o jardim em busca dos portes de ferro. =
Dentro de meia hora ele estaria com os Keen.
Comeou a procurar justificativa para a inusitada atitude de Francis. =
Ser que os Keen estavam dando uma festa? Ou seria... Lizbeth =estremeceu,
lembrando-se dos comentrios do pai sobre o vizinho. Dr. Keen
43
era brilhante e suas experincias vinham sendo publicadas com alarde; =
granjeara fama e era respeitado pela sociedade inglesa, mas tambm =havia
algo de suspeito naquele homem de compleio fechada. Nunca falava =de sua
vida antes de ter-se estabelecido na Inglaterra, mas os mexeriqueiros =
contavam que ele tinha estranhos amigos, que o visitavam encapuzados, =
alta madrugada. Dizia-se que, quando eles chegavam, os criados eram
enviados para a pequena vila e quem os atendia ento eram os donos da =
casa, ajudados por Elita.
Havia ainda os que juravam que os tais encapuzados eram jesutas, =membros
da misso cuja chegada em
1580 alarmara todo o pas. Os jesutas diziam que queriam apenas =salvar
almas, e que sua misso nada tinha que ver com poltica. A =cmara, porm,
acabou por denunci-los como traidores e declarar que os padres
conspiravam contra a Coroa.
Apesar de sofrerem perseguies, os jesutas prosseguiram em =sua misso
com relativo sucesso. Percorriam o pas disfarados, escondidos em =casas
de nobres, pregando com fervor fantico as virtudes do catolicismo. =Pelo
fato de serem espionados, caados e perseguidos, muita gente acabou =por
vener-los e considerlos mrtires da f.
Lizbeth sabia que o maior perigo residia na possibilidade de o irmo =
envolver-se com os jesutas. Nesse caso, si Harry Gillingham agiria =como
membro leal da Cmara dos Lordes e no hesitaria em mandar prender =o
prprio filho. Ele suspeitava profundamente do dr. Keen. e no =fazia
segredo disso; contudo, nada ainda havia sido provado a respeito do
vizinho. Alm disso, a Rainha gostava do trabalho do qumico, e =por essa
razo todos fingiam respeit-lo.
O lado feminino de Lizbeth tambm se revoltava
44
contra as visitas de Francis  casa dos Keen. Tinha certeza de que =Elita
no estava nada interessada no irmo; havia alguma razo =recndita para
ela dar tanta trela ao rapaz. Elita era de natureza sensual e vibrante; =a
palidez quase feminina de Francis no devia despertarlhe qualquer =outro
sentimento que no indiferena.
Era a primeira vez que o irmo se interessava por uma mulher. Quando =
amiguinhas de Lizbeth vinham visit-la, Francis sempre achava um modo =de
escapar para o jardim, ou para o quarto, onde passava horas =escrevendo
poesias insossas e sem inspirao.
De repente, Lizbeth sentou-se na cama, alerta. Um leve rangido de =madeira
despertara seus sentidos. Seria Francis de volta? Apurou os ouvidos, =
olhando para a escurido do quarto. Mas tudo silenciou de novo. =Aflita e
inquieta, levantou-se mais uma vez e foi para a janela. Devia estar =muito
frio l fora; chovera um pouco  noite e as nuvens adensavam-se, =
escondendo a lua de vez em quando. Podia, contudo, enxergar a silhueta =
das grandes rvores e o prateado do lago l embaixo. No havia =sinal de
ningum movendo-se no jardim ou na beira da estrada que o =margeava.
Lizbeth estremeceu de frio e suspirou. De nada adiantava ficar de p =
esperando o irmo, mas no queria voltar ansiosa e frustrada para =a cama.
Por que no tinha seguido seu instinto? Devia ter corrido para =Francis,
devia t-lo detido! Mas aquele teimoso no a teria ouvido. Na =verdade,
Lizbeth estava admirada com a lenta transformao que se operava =em
Francis, que se tornara desafiador e voluntarioso como nunca.
Novo barulho chamou-lhe a ateno. "Talvez no tenha visto =Francis
entrar", pensou, esperanosa. Correu para a porta, abrindo-a =devagarinho.
Esperava ver a luz trmula de uma vela, mas a escurido na =escada
45
era total e a casa toda dormia. Lizbeth ouviu novamente o estranho
barulho, que no pde identificar, mas localizou-o muito bem. =Vinha do
quarto de Phillida. Hesitou, com a mo no trinco. Perscrutou as
sombras, inquieta. Ah, se ao menos avistasse Francis! Mas a escada
continuava vazia. Lanou um olhar temeroso para o fundo do corredor, =onde
ficava a pesada porta de carvalho do quarto de sir Harry.
Novamente escutou barulho no quarto de Phillida e acabou por =resolver-se.
Fechou a porta e saiu descala no corredor, sentindo a fria =madeira
estalar levemente sob os ps. Bateu timidamente na porta de Phillida, =mas
no obteve resposta. Impaciente, abriu-a com cautela, e viu a irm =
ajoelhada no genuflexrio. Uma pequena lamparina iluminava o =oratrio, e
a cabea dourada de Phillida, escondida entre os braos, =sacudia-se em
soluos convulsos.
Rapidamente Lizbeth fechou a porta e acorreu.
- Phillida, querida, que foi que houve?
Imediatamente Phillida cortou o choro e ficou rgida, sem levantar a =
cabea. Sua voz saiu abafada pelas dobras da camisola:
- V embora, Lizbeth.
- No, no vou. S depois de me dizer o que est =acontecendo.
Phillida levantou a cabea lentamente. Seu rosto estava plido e =
desfeito, molhado de lgrimas. Parecia estar chorando h muito =tempo,
- Quero ficar sozinha. Por que est me perseguindo?
- No estou perseguindo, maninha. Sente-se infeliz? Est chorando =por
causa de Rodney?
- Rodney... - repetiu Phillida, amarga. - J o chama assim?
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Por que no? Em breve, ele ser meu cunhado.
Vamos, no chore, mana! Ele h de voltar coberto de riquezas, =to certo
quanto o sol vai nascer amanh. Voc sabe como eu sempre acerto =nessas
coisas, no ? Ele tem uma aura boa, Phillida. Vocs vo =poder se casar
logo.
- Casar! - sussurrou Phillida, quase com horror.
Lizbeth ficou atnita com a veemente entonao. Reparou que =Phillida
tremia de frio e ainda estava ajoelhada.
- Voc vai se resfriar, querida. Venha comigo, vamos para a cama, =para
podermos conversar em paz.
Ajudou-a a levantar-se, conduziu-a para a cama e cobriu-a com os =lenis
adamascados. Depois, enrolouse numa manta e sentou-se ao lado, tomando =
carinhosamente a mo de Phillida.
- Conte para mim o que se passa.
- No posso - fez Phillida, cansadamente.
- Pode, sim. No h mais ningum com quem pode conversar. =Catherine nem
vai ouvi-la. Alm do qu, acho que voc no tem muita =vontade de confiar
seus segredos a ela... Conte para mim, Phillida.  mais fcil =suportar
uma carga quando ela  dividida.
- No h nada para contar.
- Ento, por que estava chorando?
- Voc... no pode compreender.
- Tente.  Rodney, no ? Voc no quer se casar com =ele?
Phillida no respondeu, mas seus olhos comearam a encher-se de =lgrimas
novamente.
- Voc no gosta dele,  isso! Gosta de outro?
- No!
- Ento... no compreendo. Se no h outro, no vejo por =que no quer se
casar com Rodney. Sabe que
47
eu gosto dele?  um homem bom, garanto. Ele a far feliz, maninha. =Bem
que vi o modo como ele a olha: est apaixonado de verdade! Ontem, =
enquanto voc bordava, os olhos dele no saam de cima de =voc. Parecia
que estava olhando para uma... uma deusa, eu acho.
- No quero saber de casamento! No quero!
- Mas, por qu? Ora, um dia voc ter de se casar!
- No! no! no! - repetiu Phillida, desesperada, desabando de =novo em
choro sentido.
- Pobre Phillida!
Lizbeh puxou a irm e f-la encostar a cabea em seu ombro, =afagando
seus cabelos suavemente.
- No  preciso casar, se no quiser. Vamos conversar com =papai, est
bem? Ele explicar a Rodney. Papai gosta muito de voc e no =vai for-
la, Phillida. No se aflija tanto!
Mas Phillida continuava chorando perdidamente.
- Se bem que eu ache difcil entend-la, maninha
- prosseguiu Lizbeth, embalando-a. - Rodney  simptico, bonito, =acho que
ele faria qualquer pessoa feliz-. Mas voc h de encontrar outro =noivo,
vai ver. H Richard Suton, aquele que corria atrs de voc =com olho de
cachorro... No, esse tinha cara de bobo. E Thomas Hunter? Ah, esse =
timo! Ele me confessou que estava apaixonado por voc. Estranho =como 
que ele sumiu de repente. Nem ele, nem Richard, tiveram coragem de pedir =
sua mo a papai... Estranho!
Diante do silncio obstinado da irm, Lizbeth teve uma suspeita =
repentina.
- Phillida, por acaso voc mandou embora os dois?
- Eu... sim, mandei.
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Ora, esta  muito boa! - Lizbeth estava genuinamente admirada. - Por =qu,
em nome dos cus?
Eu disse aos dois que jamais poderia viver com
eles como... mulher.
- Phillida!
- Eles acreditaram! Viram que eu falava srio e foram embora. No =sei
como no consigo falar com Rodney Hawkhurst da mesma maneira. Tenho a =
impresso de que ele no me daria ouvidos, diria qualquer bobagem =como:
"Ah, no importa, Phillida, um dia voc vai querer ser minha, eu =
esperarei at o fim de minha vida". Rodney parece intoxicado quando =est
perto de mim, eu... Ele quis me beijar... at tentou de verdade... =mas
consegui escapar...
Os braos de Lizbeth estreitaram-se em volta da irm.
- Continuo sem entender nada. Tem medo do beijo de Rodney? U, at =que
no  to ruim assim... acho - emendou, rapidamente.
- Homem nenhum jamais me tocar - cortou Phillida, =desvencilhando-se.
 luz das velas, seu rosto estava mais plido que de costume, mas =
demonstrava uma firmeza de vontade at ento desconhecida para a =irm
mais nova.
- Compreendeu, Lizbeth? Homem nenhum!
- Voc detesta todos os homens do mundo? At papai? - Lizbeth =piscou
repetidamente. - Xi, acho que sou burra. Continuo nadando no seco...
- Detesto, sim, todos! No, pensando bem, no detesto. No se =deve
detestar ningum. Mas nenhum homem me tocar para sexo. Meu corpo =no
ser de ningum, nunca... ele j foi dedicado...
- Phillida! No me diga que voc ... ... Meu Deus! Voc = catlica!
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fez Phillida, num sussurro quase.
como aconteceu isso? Aqui em casa?
- Sim... - fez Phillida, num sussurro quase inaudvel.
- Mas como... como aconteceu isso? Aqui em casa?
Pesado silncio caiu sobre as duas.
- Como conseguiu enganar todo o mundo? Quem a ajudou?
- Lembra-se de Mr. Andrews?
- O preceptor de Francis, aquele velhinho? Claro que me lembro! Ento =foi
ele que...
- Sim, ele me ensinou tudo o que eu ansiava por saber. Sabia que eram =
coisas proibidas que ele me falava, mas eram belas e, pelo menos para =
mim, verdadeiras. Muitas e muitas vezes ns fingamos que amos =cavalgar,
mas na verdade amos  casa de amigos, onde se davam aulas de =religio
catlica e rezava-se a Santa Missa. Sim, Lizbeth - e aqui Phillida =ergueu
dois olhos fulgurantes e determinados -, sou catlica, e quero, mais =que
tudo na vida, tornar-me freira.
Lizbeh parou de afag-la por um momento, assustadssima. =Depois sorriu e
beijou o rosto molhado da irm.
- Voc  mais corajosa do que eu pensava...
- Ento... ento voc me entende, mana! Nunca sonhei que =algum nesta
casa fosse me compreender!
- No digo que compreendo seus sentimentos, isso no. Mas admiro-a =por
fazer o que deseja. Sabe, sempre a achei desinteressada de tudo. Na
verdade, at a achava muito insossa... Isso prova que a gente pode =
enganar-se bastante e nunca deve julgar ningum! Mesmo quando se =conhece
muito bem essa pessoa...
- No confio em ningum. Estou achando que no devia =sobrecarreg-la com
meu segredo, Lizbeh.
50
Ento, aquele velhinho simptico era catlico...
Nunca desconfiei de nada!
Ele tinha tanto medo de ser descoberto! Agora
sou eu que tenho esse medo... Imagine se papai souber!
- Acho difcil, a menos que voc conte. De qualquer forma, ele vai =
estranhar sua recusa em casar-se com Rodney.
- , eu sei. com os outros foi mais fcil, porque afugentei-os =antes de
falarem com papai. Sir Hawkhurst pediu minha mo logo na primeira =noite
em que chegou!
- Eu sei, percebi tudo direitinho. Rodney veio para pedir dinheiro para =o
navio e tambm para se casar com voc, mesmo antes de =conhec-la, sou
capaz de jurar. Mas quando ele viu minha linda irm, apaixonou-se =
perdidamente e pediu sua mo antes de mais nada. Foi isso que =aconteceu,
aposto com quem quiser.
- Para mim, tanto faz se foi assim ou no. S sei que no vou =me casar
com ele, isso nunca! Escrevi hoje mesmo uma carta a Mr. Andrews,
contando-lhe minha aflio e pedindo ajuda.
- Quando mandou essa carta?
- Hoje. Dei a um dos empregados e pedi para levar a Hartfield. Papai =no
viu a manobra, sossegue.
- Nem Catherine, espero! Ela  muito mais perigosa que ele, quando se =
trata de ns.
- Sei disso. Ela me despreza, acha que sou uma boba que no consegue =
arranjar marido. E tem cimes de voc, mana.
- Sem razo nenhuma.
Pela primeira vez o rosto de Phillida iluminou-se com um sorriso
encantador.
- No, voc  muito atraente e bonita, pequena
51
Lizbeth. Tomara que encontre algum que a ame muito. to e que a =faa
muito,
muito feliz.
Lizbeth silenciou. Phillida continuou, limpando as lgrimas com a =ponta
do lenol:
- Deus me fez bonita, eu sei, para me testar. Se eu tivesse nascido =feia,
nenhum homem me quereria. Seria fcil, ento, ficar solteira para =o resto
da vida. Mas assim como sou...
- Papai tem muito orgulho de voc, Phillida. Gosta de ver como  =admirada
e quer v-la casada.
- Sei bem. Ele tem at vergonha de eu ainda estar solteira. De certo =
modo, ele acha que isso o atinge. Tem grande orgulho de ser namorador e =
charmoso, e no acredita que sua prpria filha no atraia o =sexo oposto
to depressa quanto ele mesmo.
- Um dia, ouvi-o queixando-se de Richard e Thomas para Catherine. =Dizia
que no compreendia por que os dois haviam sumido de casa sem pedir =voc
em casamento. Alis, eu mesma tambm achei muito estranho o modo =como
fugiram. Ah, maninha, tem certeza mesmo que quer acabar sua vida metida =
dentro daqueles estranhos vus, encerrada num convento? Ouo =contar cada
coisa desses mosteiros...
-  tudo imaginao do povo, Liz. Quero ser freira mais que =tudo na vida!
Havia um toque de xtase espiritual na expresso serena e doce de =
Phillida. Lizbeth estremeceu por dentro, sabendo que a irm queria =algo
praticamente impossvel. J no existiam mais conventos na =Inglaterra.
Destrudos por Henrique VIII, restaurados por Mary, e abolidos =novamente
por Elizabeth, no passavam agora de lembrana de uns poucos. As =freiras
haviam fugido para a Frana ou para a Irlanda; se havia =comunicao delas
com suas famlias, ningum sabia.
52
Contudo, Lizbeth foi delicada o bastante para no tirar o entusiasmo =da
irm. - Se papai souber disso,  capaz de mat-la.
-  verdade.
Lizbeth nunoa vira Phillida com tamanha fora interior.
De repente, uma das velas tremulou, estalando, e em seguida apagou-se. =
Lizbeth lembrou-se imediatamente de Francis.
- Preciso ir agora, maninha. Voc trate de dormir, est bem? Nada =de
choro, hem!
- No, agora estou mais confortada. Fico feliz porque minha irm =me
compreende.
- Somos meio-irms, apenas, mas temos agora laos mais fortes que =nunca.
- Obrigada, pequena Lizbeth...
- Voc sempre me chamou assim e eu implicava. Agora estou =gostando!
- Sabe, acho que as coisas no esto to ruins como pensava. =Deus h de
me ajudar.
- Vamos rezar para isso.
Lizbeth inclinou-se e depositou um beijo na testa de Phillida, enquanto =
ajeitava as cobertas. Apagou a outra vela e abriu a porta, =sussurrando:
- Boa-noite, Phillida!
- Deus a abenoe, pequena Lizbeth. Enquanto deslizava para baixo dos =
lenis, Lizbeth
pensava nervosamente. Que trapalhada, meu Deus! Talvez estivesse
sonhando! Aquela irm sem graa e sem sal transformara-se como =crislida
prestes a sair do casulo. Era uma mulher cheia de vida e emoo, =lutando
solitria batalha em nome de sua f.
Para Lizbeth, assuntos de religio sempre foram aborrecidos. No =fazia mais
que ir aos servios dominicais
53
na grande capela de madeira, perto da casa. O pai roncava
descaradamente durante o interminvel sermo, enquanto Catherine =no
despregava os olhos da bblia, disfarando um bocejo aqui e =ali.
Se aquele velhote, Mr. Andrews, tivesse falado com ela tambm, =ser que
acabaria catlica como Phillida? As oraes protestantes que =aprendera em
criana pareceram-lhe adequadas, pelo menos na poca. Agora, vendo =o
fervor de Phillida, comeava a ach-las insignificantes como as =poesias
que Francis teimava em escrever.
E o amor de Francis por Elita, seria verdadeiro? Ou intriga religiosa, =
talvez? Elita, sem dvida nenhuma, era catlica tambm. Lizbeth =pensou na
ira do pai, se soubesse que dois de seus filhos tinham cado nas =malhas
do Papado. Talvez ele no suportasse a desonra e...
Nesse instante, ouviu passos l fora. Francis!
Pulou da cama e puxou as cortinas; l estava ele, tentando abrir a =porta.
As nuvens haviam clareado um pouco e a lua, plida e aguada, mal
iluminava sua silhueta encapuzada. Francis parecia no conseguir =abrir a
pesada porta de carvalho, apesar de forar os grandes puxadores de =ferro.
Tomada de medo, Lizbeth adivinhou. Depois de Francis ter sado, =algum
viera atrs e trancara a porta, de forma a impedi-lo de entrar sem =bater,
Sentiu a garganta entalada e o corao batendo muito depressa. =Algum
descobrira que Francis havia sado!
Olhou para baixo, de corao confrangido. Francis dera dois passos =para
trs e jogara o chapu nas costas. Sua expresso estava confusa =e
alarmada. Lizbeth assobiou baixinho, como costumava fazer, torcendo para =
que o irmo a enxergasse  luz fraca do luar. Francis
54
olhou para cima vivamente e sorriu, apontando para a porta. Lizbeth fez =
sinal para ele esperar e, enrolandose rapidamente num xale, ganhou o =
corredor novamente.
Na pontinha dos ps desceu as imensas escadarias de madeira, =apoiando-se
o mais que podia no corrimo, a fim de no fazer barulho nenhum. =Em dois
minutos, seus receios estavam confirmados. A porta havia sido trancada =
por dentro. Era um ferrolho pesado e antigo, que lhe tomou bom tempo =para
abrir. Finalmente, Francis entrou, sacudindo a lama da capa.
- Obrigado, maninha.
Apesar de mal ter sussurrado, Lizbeth levou um dedo aos lbios, =aflita.
com um gesto, pediu-lhe que trancasse a porta novamente, enquanto =Francis
sorria estranhamente. Era como se no tivesse medo de nada, o que era =
surpreendente. Aproximou-se mais do irmo e sentiu um leve cheiro de =
lcool. Francis estivera bebendo, talvez no demais, mas o =suficiente
para deix-lo descuidado e no to medroso como de costume.
Bem, a parte mais difcil fora completada. Agora era ganhar os =quartos.
Enquanto atravessavam o grande hall rumo  escada, Lizbeth olhou para =as
botas do irmo, preocupada. Talvez fosse melhor lev-las na =mo. J ia
fazer um sinal para Francis, quando viu este estacar, os olhos muito =
redondos fitando o alto da escada.
Lizbeth tambm arquejou, assustada com a figura escura e tenebrosa do =
pai, parado com as mos na balaustrada. Os olhos de Lizbeth =fitaram-no
fascinados, como o pssaro olha para a cobra que vai dar o bote. Para =
eles, o pai assumira a imagem de implacvel Anjo Vingador. Mal =repararam
que lady Gillingham estava atrs, segurando um castial, com um =sorriso
maldoso.
55
Sir Harry, apesar de estar de barrete e camisola, inspirava medo, tal =a
fria sombria de sua expresso.
- Subam imediatamente, vocs dois! - trovejou fazendo-os estremecer =at
a medula.
 medida que avanava lentamente, seguida do irmo, que se =escondia por
trs dela, Lizbeth sentia a coragem e o descuido de h pouco de =Francis
irem-se dissolvendo como gelo no fogo. O rapaz nunca conseguira =enfrentar
o pai; Lizbeth quase podia v-lo tremendo, boca seca, olhos =baixos.
- Agora, sir - rosnou sir Harry -, talvez possa explicar por onde =andou.
Postou-se em frente de Francis, com as mos na cintura, e =vociferou:
- Sem mentiras, sir!
Mido e mais plido do que j era, Francis abriu a boca, =fechando-a em
seguida, tal o tremor que dele se apoderara.
Por um momento, Lizbeth entendeu o profundo olhar de desprezo com que =sir
Harry o mirava de alto a baixo. Fosse como fosse, o pai era mil vezes =
mais homem que Francis!
Ora, se o irmo tivesse, sado de casa por causa de uma mulher - =at
mesmo por causa de uma das criadas -, sir Harry no faria mais que =rir e
passar-lhe um belo sabo. Mas a situao era bem outra; Francis =havia
escapado por algo que at ela no se atrevia a concretizar na =cabea.
- Vamos, homem de Deus, estou esperando! gritou sir Harry, =impaciente.
- Fui... ver os Keen.
- Ah, eu sabia! Eu sabia! Ento o senhor me desobedeceu, apesar de =minha
expressa proibio!
56
Sim... sim, senhor.
Saiu  furtiva, como um... um simples ladro
f galinheiro! O senhor, herdeiro deste castelo! Pois ento, vou =ensinar-
lhe uma bela lio, j que no posso confiar em meu =prprio filho. Fique
ciente de que no voltar a Oxford, e sim, viajar com sir =Hawkhurst.
Veremos se alguns meses de vida dura no o ensinaro a portar-se =como
homem.
- Eu... no vou! No vou! - falou Francis, apaixonadamente.
Mas seu protesto era fraco, to inconsistente como sua voz =esganiada,
lembrando mais a de um garotinho assustado.
- Voc vai obedecer - gritou o pai, escumando, enquanto sacudia um =dedo
ameaador no nariz do rapaz. -  uma pena que Rodney j tenha =ido embora,
mas vou mandar-lhe uma carta amanh mesmo. Trate de comear a =arrumar as
malas, porque logo mais estar em Plymouth. Por enquanto, proibo-o =de
sair desta casa, compreendeu? Se puser um fio de cabelo fora daquela
porta, juro que hei de tranc-lo em seu quarto a po e =gua!
E virou-lhe as costas, dirigindo-se majestosamente para o quarto, =seguido
de Catherine. Esta, antes de entrar, voltou-se com um sorriso
hipocritamente sentido para os dois.
- Boa-noite, meus filhos. Tenham juzo.
Francis no se moveu. Ficou olhando para o cho, de braos =cados e
punhos cerrados; contudo, no teve fora para gritar nem =protestar,
A porta bateu com estrondo.
- . No vou, no vou, no vou! - sussurrou ele por fim, entre =os dentes.
Lizbeth puxou-o pela manga.
57
- Para o quarto, mano.
Francis obedeceu, arrastando-se. Assim que Lizbety fechou a porta, ele =se
atirou na cama, batendo com os punhos no travesseiro como uma =criancinha.
- No vou! No vou!
Lizbeth acendeu as velas, procurando palavras de conforto. Lembrou-se do =
que a me lhe dissera, j no leito de morte:
- Cuide de Francis, minha Liz.
- Fique descansada, mame.
- Ele... no sabe se cuidar sozinho. Lembre-se sempre disso, =querida.
- Est bem, mame.
Era verdade. Francis parecia mais um beb crescido. Suspirando, =Lizbeh
sentou-se na beirada e afagou-lhe o cabelo.
- No quero ser pirata! No quero!
Francis soluava perdidamente, mas falava sem convico, como =se soubesse
que j tinha perdido a batalha. No era forte o suficiente para =desafiar
o pai; ele e Lizbeth sabiam muito bem disso. Talvez sir Harry e =Catherine
tambm o soubessem.
Lgrimas subiram aos olhos de Lizbeth. Ela tambm sofria, porque =amava o
irmo.
- Detesto esta casa! Detesto todo o mundo aqui! Esto todos contra =mim!
Nunca me deixaram fazer o que eu queria. No  justo, no  =justo!
"O que no  justo" pensou Lizbeth, misturando suas lgrimas =com as dele,
" existir tanta infelicidade numa casa s."
58
CAPTULO IV

Rodney Hawkhurst ia e vinha no convs, ultimando os preparativos, =dando
ordens e observando o bulioso carregamento do Gavio do Mar. =Homens
apressavam-se atabalhoadamente ao som do agudo apito e das ordens =berradas
a plenos pulmes, enquanto o contramestre dirigia nervosamente as
manobras do carlequim.
No cais agrupava-se a costumeira legio de curiosos: mendigos, =jovens,
ricaos, velhos, prostitutas. Esposas chorosas, tendo espantadas =crianas
agarradas s saias, que seguiam com olhos muito redondos e inocentes =o
lufa-lufa da partida. Rodney bem sabia que muitas delas nunca mais =veriam
o pai.
Sua impacincia chegara ao ponto de ebulio, tantos os =tropeos de
ltima hora. No bastando a zoeira infernal dos tripulantes e da =
maquinaria, ainda tinha de suportar a gritaria incessante dos animais, =
principalmente o balido das ovelhas, que haviam sido embarcadas em meio =a
piadas e chistes dos marinheiros, pouco acostumados a essa espcie de =
carga. Alm de ovelhas, Rodney encomendara porcos e galinhas, que =
berravam assustados.
Pela milsima vez, perguntou-se se as provises seriam suficientes =para
os primeiros trinta dias, e pela milsima vez convenceu-se de que =eram.
Comprara arroz, ervilha, azeite, velas, lamparinas, lanternas, couro
 curtido, estopa e chapas de chumbo de calafetar.
59
No economizara na hora de comprar carne salgada, tanto de porco =quanto
de vaca; alm disso, adquirira seis toneladas de biscoitos especiais, =que
deveriam durar muito tempo.
Rodney estava determinado a no dar a seus homens o mesmo tratamento =
dispensado por outros comandantes  j sofrida tripulao. =Exceto Drake,
 claro. Sabia por experincia prpria o quanto um marujo =poderia ficar
revoltado e deprimido depois de dias e dias de mar, sem encontrar um =s
navio amigo, ou mesmo inimigo; por outro lado, sabia o quanto se
alegravam diante de um belo prato de comida e de uma generosa caneca de =
vinho.
O Gavio do Mar no era exatamente uma beleza de navio, sendo, =contudo,
forte e bem construdo. Mestre Barlow, o imediato, examinara-o
cuidadosamente antes de recomendar definitivamente sua compra. A nau =
comportava vinte e dois canhes leves, quatorze pesados, seis
falconetes de tiro longo e dois de grande calibre, que ficavam na =popa,
perto do leme.
Alm das armas pesadas, Rodney estocara boa quantidade de arcabuzes, =
escopetas e garruchas, completadas por granadas e azagaias providas de =
alcatro na ponta. Estas haviam sido usadas com particular xito =por
Drake e Rodney pretendia seguir seu exemplo.
A tripulao era composta de oitenta pessoas, cinquenta das quais =velhos
e calejados lobos-do-mar. Rodney e Barlow conheciam pelo menos metade, e =
estavam satisfeitos com sua contratao, embora tivessem sido =obrigados a
oferecer uma quantia bem maior que de costume. Na verdade, fora uma
batalha difcil conseguir bons homens. Os melhores j mantinham =contrato
indefinido com Drake, Raleigh, ou outros lendrios
60
Corsrios, de muita fama, coisa que Rodney ainda no
tinha.
por sorte, Mestre Barlow prontificara-se a ajud-lo a recrutar gente =mais
experiente. Barlow conhecera Rodney durante a ltima misso de =Drake e
gostara do jovem impetuoso e sonhador; assim, no pusera dvida em =
trabalhar com ele. Essa ajuda foi decisiva para Rodney, pois ambos
acabaram por reunir uma tripulao de dar inveja, mesmo ao famoso =Drake.
De quebra, Barlow conseguira ainda grumetes e artesos, como =carpinteiros
e ferreiros, alm dos costumeiros voluntrios, que trabalhariam a =troco
de aventura e comida.
Rodney puxou do bolso uma agenda e folheou-a, procurando a lista de seus =
novos oficiais. Precisava decorar os nomes, para granjear amizade e
respeito. Sabia como essas pequenas gentilezas contavam pontos
favorveis. Leu em voz alta:
- Barlow. Bem, esse eu j conheo. Vejamos agora... Baxter, =Gadstone e
Walters... Sim, esses so oficiais-mores. Hales  contramestre, =Simson,
comissrio... Dobson, barbeiro-cirurgio...
Finalmente, os ferros foram levantados, e os ltimos caixotes, =levados
para baixo. Rodney foi inspecionar as imensas tinas cheias de gua =
potvel, certificando-se de que estavam firmemente presas na amurada. =
Quando o precioso lquido acabasse, as tinas recolheriam gua de =chuva;
por essa razo, eram colocadas em lugares muito bem estudados. Esses =
grandes barris constituam problema  parte. A gua estagnada, =se no
fosse continuamente tratada, acabaria sendo foco certo de =infeces e
mosquitos. Rodney fizera questo de comprar os melhores que havia no =
mercado e supervisionara a calafetagem pessoalmente.
61
Finalmente satisfeito, ordenou:
- Vamos largar, Mestre Barlow. Daqui a pouco o calor vai aumentar =muito.
Um marinheiro retardatrio, totalmente bbado, estava sendo =iado a bordo
pelos companheiros. Uma prostituta empurrava-o por baixo, enquanto =os
outros gritavam a cada tentativa de guind-lo a bordo:
- Hop! Hop! Hop!
E a cada "hop" o marinheiro caa pesadamente sobre a mulher, que
praguejava descabelada. Por fim, entre ruidosas gargalhadas, o bbado =
viu-se no convs, sem entender direito o que se passava.
- Todos a bordo? - perguntou Rodney.
- Sim, senhor. Sir Gillingham tambm. Foi direto para a cabine, como =o
senhor ordenou.
A expresso de Rodney ficou sombria. Pela manh, quando Barlow =viera
avis-lo que Francis Gillingham havia chegado, Rodney dera ordens =secas.
Que sir Gillingham deveria recolher-se imediatamente a sua cabine e
esperar que fosse chamado para apresentar-se. No queria saber de =
filhinhos de papai atrapalhando a j complicada tarefa de pr o =navio ao
largo.
Ao ler a carta de sir Harry, Rodney amassara-a impacientemente.
- Era s o que me faltava agora, um aventureirozinho desses a bordo =de
meu navio... Por minha f, prefiro desistir da viagem!
- Acho que  exatamente isso que acontecer, caso no queira =levar o
garoto - interveio Barlow, calmamente. - Sir Harry pedir o dinheiro =de
volta, to certo quanto dois e dois so quatro.
- Ento sir Harry Gillingham que v para o diabo!
- explodiu Rodney.
Mas sabia que estava falando da boca para fora.
62
fanto ele como Barlow sabiam muito bem que o Gavio do Mar levantaria =
ferros com Francis Gillingham a bordo. Na carta, sir Harry no =explicara
a razo de sua deciso, mas Rodney suspeitava que o mocinho =tivesse
aprontado alguma. Vendo que Barlow tinha razo, Rodney irritou-se =ainda
mais.
- Para o inferno com sir Harry e seu efeminado filhote! No nasci =para
bab e no pretendo comear agora! Pelo menos, no quero ver =a cara do
guri at que estejamos em alto-mar. Barlow, faa-me o favor de =
providenciar alojamento para ele. Sou obrigado a receb-lo como =hspede
de honra... Ah, mas ele h de trabalhar um bocado! Vai lavar e =esfregar o
cho, h de criar bolhas e calos nas delicadas mozinhas!
- Calma, senhor. Sempre  melhor que seja um fedelho mimado que um =
facnora... O nico problema srio ser quando enfrentarmos =os espanhis.
Ele pode ser presa fcil daqueles bastardos.
- Bem, de nada adianta reclamar. V receber nosso janota e arranje =uma
desculpa qualquer por eu no poder v-lo agora.
O Gavio do Mar zarparia dentro em pouco e Francis estava no =camarote,
provavelmente dormindo. Bem ou mal, Rodney seria obrigado a =receb-lo.
Resolveu que ficaria neutro com o garoto. Nada de mimos nem de =severidade
exagerada.
- Segunda de boroeste, ia! - gritou Rodney.
A resposta veio pronta, esperta entre os fios do vento:
- Ia. De boroeste.
- Grumete da buja: tesa!
- buja... tesa...
E Mestre Barlow cantava, entusiasmado, fazendo coro com seu =capito:
63
- Retesa! Bujarrona! Ateno! Retesa e cambai Capa depressa essa =poja,
seu molenga! A meia crara!
Apitos silvavam por toda a nau, desde o pau e gib Os cordames rangeram =e
comearam a correr, enquanto os homens corriam das adrias para =as
roldanas, efervescncia da partida.
- Soltar amarras!
Rodney molhou o polegar com saliva e ergueu-o p consultar o vento. =No
seria fcil contornar a Ponta do Diabo, se o tempo no acalmasse =um
pouco.
Finalmente, com as vergas bem braceadas, o Gavio do Mar =virou-se,
carrenando suavemente a estibordo, vagarosamente comeou a afastar-se =do
cais apinhado. As crianas agitavam lenos; as mulheres levavam os =seus aos
olhos. Para algumas, seria o ltimo adeus ao marido.
- Ateno! - berravam os oficiais, fiscalizando para que os =homens
posicionassem as velas da maneira mais favorvel. - Velas do alote =para
cima! Mais cambada!
Rodney sentiu o cho oscilando levemente e ouviu o rangido familiar =das
roldanas correndo cleres; a madeiras chiavam, as velas comearam =a
enfunar-se galhardamente. Entusiasmo e excitamento tomaran conta de =todo
o seu corpo e ele teve de apertar os lbios para no gritar de =alegria, e
unir-se ao coro selvagem da tripulao que agora cantava a =plenos
pulmes, enquanto o Gavio do Mar fazia-se ao largo =mansamente.
Finalmente! Adeus, terra! Aventura  vista!
De repente, Rodney visualizou Phillida. Ela estava a seu lado, plida =e
etrea, bela como um cisne real. Desejou ardentemente estar a seu =lado
agora, dizer-lhe adeus, toma-la nos braos, beij-la loucamente na =boca,
64
como tantas vezes sonhara. Em Camfield, despedira-se jgla de maneira
chocha e antiquada, tocando levemente sua mo. No, ele queria =uma
despedida igual s que vira h pouco no cais, com beijos sensuais =e
ardentes. Por que no o fizera em Camfield, no sabia =explicar.
Apesar de ter feito tudo o que podia para despertar o interesse de
Phillida, esta esquivara-se com graa e elegncia a seu insistente =
assdio. Rodney censurou-se duramente por ter sido to gentil. =Devia ter
forado mais, talvez at devesse ter ido ao quarto de Phillida. =Por que
no? No seria a primeira vez...
- Phillida! Phillida! - murmurou ele para o vento. E de repente, sem ser =
convidada, a imagem de Lizbeth sobreps-se  da irm. Os olhos =verdes
brilhavam de malcia e os lbios desdenhosos sorriam, =irnicos...
- Sai, tinhosa! - disse ele em voz alta, achando graa na prpria =frase.
Os marinheiros costumavam gritar assim quando algum contava =histrias de
assombrao. Mas repetiu, desta vez srio:
- Sai, tinhosa!
Forou-se a pensar novamente em Phillida, chamando-a inutilmente de =
volta. O momento de encantamento dissolvera-se.
O cu ficara nublado o dia todo, mas agora parecia saudar a partida =do
corso, trazendo uma mensagem de esperana atravs dos raios =luminosos do
sol. As ondas erguiam o dorso prateado, ofuscando a vista.
- Puxar o estai da joanete, Barlow - ordenou Rodney, dirigindo-se para a =
popa.
- Sim, senhor!
O vento brincava com os cabelos escuros de Rodney,
que se quedou a observar o branco rastro de espuma
que deixavam para trs. De vez em quando virava-se
65
para dar uma ordem, para logo em seguida voltar
sua contemplao. O Gavio ia agora a todo pano,
o cais no era mais que um ponto preto no horizonte.
Os marujos comearam a enjoar e deitavam-se,
tremendo. Rodney sentiu-se satisfeito por dar uma demonstrao
de superioridade nesse instante, pois h
muito tempo no sabia mais o que era a vergonha de
debruar-se nas grades para vomitar. Quando navegara
pela primeira vez, contudo, sofrera tanto que rezara
para morrer. com o tempo, aprendeu que muitos
homens experientes e calejados continuavam a enjoar
nas primeiras horas de viagem, at ganhar "pernas d"
mar", como diziam. At l, sentiam-se miserveis e
doentes, como qualquer principiante. Era preciso lembrar
Barlow para no for-los a trabalhar, como outros
comandantes faziam. No toleraria esse tipo de crueldade
em seu navio.
Rodney conhecia muito bem a fama de Francis Drake. Era um homem de =ndole
bravia, mas dispensava extrema ateno  tripulao e =tratava-a de igual
para igual. Rodney jurara seguir esse modelo, mas agora sentia-se meio =
perdido no meio daquela gente suada, que olhava para ele como a um
semideus. O comandante era uma espcie de porto seguro; para eles, =sua
autoridade era suprema e incontestvel.
Naquele momento, porm, Rodney queria usufruir as delcias de ter =obtido
o que queria. Estava em altomar! Nunca antes sentira a sensao de =poder
que agora experimentava. O Gavio do Mar fora, por muito tempo, seu =mais
caro anseio. Encarava esse navio como uma mulher que finalmente =sucumbira
a seu charme. Todo ele vibrava com a alegria triunfante de um homem que =
lutou para conquistar a amada, e conquistara!
66
Nem em Phillida pensava naquele breve momento vitorioso; s tinha =olhos
para sua nova amante, muito mais excitante, temperamental e imprevista =que
qualquer mulher: o Gavio do Mar.
Depois de longo tempo, o vento fez-se mais frio.
- Iar o traquete, Barlow! - comandou, enquanto descia para sua =cabine.
Passou pela porta de Francis e fez uma careta de desgosto. Essa =cabine
era destinada a eventuais prisioneiros importantes, mas ele se vira
forado a ced-la ao filho de sir Harry. Quisesse ou no, =Francis era seu
hspede de honra. Que o diabo o levasse!
Chegando, sentou-se e serviu-se de vinho. Francis Drake tinha uma cabine =
muito mais luxuosa; costumava dizer que o aparato e o luxo faziam parte =
do poder e inspiravam respeito. Quando ia almoar ou jantar, =trombetas
soavam; costumava manter msicos a bordo para distra-lo e sua =baixela
era de fina prata portuguesa. Rodney, naturalmente, no podia nem =sonhar
em igual-lo; mesmo assim, estava satisfeito. A cabine era pequena, =mas a
moblia de mogno torneada impunha respeito.
Bebeu o vinho de um s trago e estalou a lngua.
- Hapley! Venha c!
Seu intendente era um alegre gals de rosto rubicundo, que tambm =
trabalhara com Drake no Gola Hind. Ao saber que Rodney preparava-se para =
uma viagem, veio oferecer-se para ser intendente, no hesitando em =trocar
o luxo do Golden Hind pelo acanhamento do Gavio do Mar. Rodney =aceitou,
envaidecido, essa prova de amizade, e no se arrependeu. Musculoso, =
medindo quase dois metros de altura, Hapley era capaz tanto de amassar =um
balde como de costurar remendos com perfeio. Ao chamado de =Rodney,
67
atendeu prontamente, com um sorriso que ia at as orelhas. Estava
to entusiasmado quanto o comandante, e tinha tanto orgulho do navio =
quanto ele.
- Chame os oficiais para a primeira reunio di bordo. E chame sir =Francis
Gillingham tambm.
Decidira impulsivamente que devia incluir Franc nessa reunio, por =ser
ele um hspede de honra. Ademais, queria que o rapazola comeasse =a ver
como era a vida de bordo, e quem mandava ali. Afinal, se sir Harry =queria
que o filho se fizesse um homem, a primeira coisa a ensinar-lhe era
obedecer.
-  para j, capito - respondeu Hapley, j comeando a =empurrar as
pesadas cadeiras em volta da mesa. Rodney repassou na mente o belo
discurso que preparara, concitando os companheiros a manterem a f e =a
acreditarem no sucesso da excurso. Uma onda maior bateu com fora =e o
Gavio adernou levemente. Mais uma vez, Rodney sorriu, lembrando-se =de
seu primeiro enjoo. Francis, naturalmente, estaria deitado, incapaz de =
comparecer  reunio. Mas teria de obedecer e vir, mesmo =sentindo-se mal.
Aquele fracote estava recebendo um merecido castigo, sem dvida.
Pouco depois, ouviu-se o som de passos. Rodney recostou-se, procurando =
aparentar um -vontade que estava longe de sentir. Como capito, =deveria
demonstrar solicitude e ateno para ganhar a confiana de seus =
auxiliares, mas no poderia ser cordial demais. Por um momento, =sentiu-se
presa de apreenso. Seus auxiliares pareceram-se quase inimigos, em =vez
de companheiros. Mas forou-se a rir de si mesmo. Ora esta, se ele =tinha
o dobro da experincia de cada um deles! Exceto,  claro, Barlow. =Mas com
esse no haveria problema.
Depois de uma batida discreta, entraram. Rodney
68
cumprimentou um por um, chamando-os pelo primeiro nome, conforme =havia
decorado. Satisfeito com o ar de surpresa agradecida dos homens, =pediu-
lhes que se sentassem.
- Onde est Master Gillingham? - perguntou, visivelmente irritado. - =J
est ficando tarde, Hapley. No podemos esperar.
- Ele vem vindo, senhor.
"Maldito filhinho do papai!" praguejou, silenciosamente. A cabine dele =
era ali ao lado; os outros tiveram de atravessar todo o convs. Bem, =no
esperaria por ele.
- Senhores, estamos todos reunidos, exceto Baxter, que est ao leme, =e
esse... sr. Gillingham, que parece no estar acostumado com chamados =
desta natureza. Quero aproveitar a oportunidade para, neste comeo de =
viagem, falar sobre certos assuntos que nos interessam muito de perto. =
Primeiro, o tratamento que dever ser dispensado aos marinheiros. =Fao
questo de frisar que...
Algum bateu e Rodney levantou a cabea, irritado. "Ento sir =Francis
condescende em dar o ar de sua graa!" pensou, de mau humor. Hesitou =um
pouco e por fim levantou-se para cumpriment-lo. Afinal, a verdade = que
o rapazola era filho de sz" Harry, dono de um tero do navio.
- Boa-tarde, sir Gillingham.  Seja bem-vindo a bordo.
A cabine j estava escura, e Hapley ainda no acendera as velas. O =sol
que brilhara fugazmente na hora da partida escondera-se novamente, =de
modo que Rodney mal pde enxergar Francis. Teve a impresso de que =o
menino era menor que imaginara.
Foi s quando estendeu a mo para ele e sentiu a pele macia e =morna, que
sentiu uma suspeita terrvel.
69
Quase arquejou quando viu o pequeno rosto oval e um par de olhos =verde-
esmeralda que o fitavam serenamente.
No podia ser verdade, era impossvel! Mas no restava =dvida, no era
Francis que acabava de entrar. Era Lizbeth!
Seu cabelo tinha sido cortado e alisado para trs. Vestia-se =exatamente
como seu irmo deveria estar trajado para aquela ocasio; at a =espada
devia ser dele. Disfarada de garoto, todavia, Lizbeth continuava a =
mesma. Petrificado diante dela, Rodney buscava em vo palavras =adequadas
para o momento, tentando recobrar-se da desagradvel e inesperada =
surpresa.
Foi Lizbeth quem primeiro falou, com toda a naturalidade:
- Obrigado, capito Hawkhurst. Estou muito contente de estar aqui. =Meu
pai envia-lhe cumprimentos, e votos de que esta viagem seja um =sucesso.
Assim dizendo, atravessou a cabine e sentou-se no nico lugar vazio, =na
ponta da mesa. Deixara bastante claro a Rodney o que esperava que ele =
fizesse; este, sem nada melhor para fazer, deixou-se cair pesadamente na =
grande cadeira de braos. Lizbeth no se perturbou com seu =silncio e
retomou a palavra:
- Se me permitem, vou apresentar-me aos senhores. Sou Francis =Gillingham,
como o capito j deve ter informado.
Todos inclinaram levemente a cabea e, uma vez cumpridas as =formalidades
de praxe, voltaram-se para Rodney, em expectativa. Este retomou o fio do =
discurso, sem saber o que dizia. Sua voz saiu automtica, e o =discurso
que tanto burilara pareceu-lhe inspido e vazio de repente. Os =efeitos
disso no se fizeram esperar; com o canto dos olhos, Rodney percebeu =um
bocejo
70
aqui" uma tosse discreta ali, um tamborilar de dedos acol. =Terminou
antes do que planejara e despachou-os em seguida, praguejando
intimamente.
-  s por hoje, senhores. H muito que fazer ainda.
Todos se levantaram, inclusive Lizbeth. Rodney deteve-a.
- O senhor fica, por favor.
Ela nada disse e esperou, obedientemente, que os outros deixassem a
cabine. Quando a porta se fechou atrs do ltimo, Rodney mal =divisava o
rosto branco de Lizbeth na escurido crescente. No pde mais =se
controlar e deixou escapar um som que parecia mais um rugido =indignado.
- Que diabos significa isto?
Lizbeth adiantou-se, para no ser ouvida pelos outros, e deixou as =mos
descansando sobre o espaldar da cadeira.
- Sinto muito no ter podido avis-lo antes, quando voc estava =sozinho.
Mas eu tinha ordens de esperar em minha cabine, e realmente fiquei sem =
saber se devia obedecer ou vir de qualquer maneira. Acabei optando pela =
primeira hiptese. Espero no ter errado.
Rodney bateu com o punho cerrado na mesa, fazendo saltar a taa =vazia.
- Em nome de Deus, isto  simplesmente intolervel! A senhorita =vai ser
devolvida imediatamente para a Inglaterra! I-me-dia-ta-mente!
Frisou a palavra cuspindo as slabas, sabendo perfeitamente que sua =
ameaa era inconsistente. No havia jeito de envi-la de volta. =Alm de
j estarem longe da costa, havia  eterna superstio de que =devolver
gente logo no comeo da viagem poderia trazer m sorte.
- Acho que isso no ser possvel, Rodney.
71
- Como... como foi... Como se atreveu? Onde est seu irmo?
- Devo-lhe uma explicao, sei disso. Posso sentar-me?
Os bons modos de Lizbeth, longe de acalm-lo, exasperavam-no cada vez =
mais.
- Sente-se de uma vez!
Lizbeth olhou-o por trs dos longos clios e sentou-se, cruzando =as mos
sobre a mesa.
- Papai estava aborrecido com Francis, porque ele
foi visitar um vizinho nosso, Dr. Keen. Esse homem,
aparentemente, tem simpatia pelos espanhis. Apanhou
Francis em flagrante, quando voltava da visita, tarde
da noite, e ficou uma fera. Disse que Francis teria
de viajar com voc e no dia seguinte enviou uma carta
para c. Francis ficou desesperado, pois odeia navios
e piratas...
- Corsrios, mocinha! - trovejou ele.
- navios e corsrios. Disse que detestava o mar e que preferia =matar-se.
Fizemos o que podamos para tentar convencer papai, mas nada =adiantou.
Planejamos ento que Francis forjaria uma doena; at fizemo-lo =beber
umas ervas que do fortes clicas... Em vo. Papai comeou a =contar a
todo o mundo que Francis ia combater espanhis, ia ser lobo-do-mar, =
essas coisas. Papai sempre teve vergonha do jeito de Francis, muito
quieto e estudioso, sempre s voltas com seus poemas, que ele =qualifica
de imbecis. No entender de papai, Francis devia ser grande, robusto, =
mulherengo. Agora, ele achava uma oportunidade de provar a todo o mundo =
que o filho no era diferente dos outros. As visitas chegavam e
cumprimentavam o pobre Francis, dando-lhe tapinhas nas costas, =desejando
boa viagem e feliz regresso... Enfim, a coisa enrolou-se
72
de tal maneira, que meu irmo no teve jeito de escapar. Se ele =voltasse
atrs, seria quase que uma desonra para a famlia, entende? Mas =jurou que
no embarcaria vivo. Jurou que se mataria antes! Foi ento que =tive uma
ideia.
- Vir em lugar dele! - cortou Rodney, com desdm.
- Exatamente. Papai havia concordado em deixarme acompanhar Francis a =
Plymouth. Acho que ele tinha medo que Francis fugisse na ltima hora, =por
isso enviou quatro empregados conosco, dando-lhes severas =instrues. Os
quatro teriam de cuidar que Francis embarcasse, e depois deveriam =levar-
me de volta para casa. Como v, as coisas estavam complicadas. Depois =de
um banquete de despedida que meu pai ofereceu, ele estava alegre e
comunicativo, bebeu at um pouco demais da conta, seguimos para =Plymouth.
Durante toda a viagem tentei convencer Francis a embarcar, mas ele =
cabeudo. Sacudia a cabea teimosamente e dizia a todo instante =que se
mataria, assim que pusesse os ps no navio. Passamos a noite de ontem =
numa estalagem, Francis e eu. Ele estava irredutvel. Acabei =concordando
em elaborar um plano para ele escapar dessa viagem que tanto odiava. =
Quando a manh chegou, comeamos a conversar alegremente com os =
empregados, para despistar. No ltimo minuto, pedimos que eles fossem =
comprar uma poro de coisas que havamos esquecido. Logo que =viraram as
costas, cortei meu cabelo, troquei de roupa e vim sozinha para as docas. =
Francis deixou a estalagem e escondeu-se na cidade. Dei ao estalajadeiro =
um bilhete para ser entregue aos criados. Nele, eu dizia que ns =tnhamos
recebido uma carta do capito...
- Minha?
73
- Exato. Sua carta avisava que o navio sairia uma hora antes do
combinado.
- Muito engenhoso...
- Assim, infelizmente, no pudemos esperar os criados voltarem com as =
compras e tivemos de ir logo, para no perder o embarque. No meu =bilhete
eu pedia ainda para os empregados virem entregar no navio a bagagem de =
Francis e tambm a minha, porque o capito do navio tinha me =convidado
para ir junto na viagem.
- O qu! Disse que eu... convidei voc! Sabia que minha =reputao de
comandante pode ficar arruinada?
- Que mais eu podia dizer? Ora, eu tinha de explicar meu =desaparecimento!
- E o que vai dizer seu pai?
- Agora, nada. O navio j zarpou. Ele vai praguejar e reclamar,  =claro,
mas Catherine vai acalm-lo num instante. Ela deve estar esperando, a =
estas horas, que eu seja comida por um tubaro.
Lizbeth riu, mas Rodney olhou-a sombriamente. Sua fria era tanta que =as
mos lhe tremiam sobre a mesa.
- Por Deus, voc ainda se atreve a rir? J imaginou o mal que me =causou
com essa histria... ridcula? A estas horas o cais inteiro j =est rindo
de mim! Uma zinha... uma mulher a bordo!  demais!
- No! Eu pensei nisso, descanse. Em meu bilhete, eu avisava os =criados
que mantivessem segredo absoluto e ordenei que no contassem a =ningum
que eu tambm seguiria viagem, a no ser papai,  claro. =Escrevi uma
carta a ele tambm, dizendo que Francis no queria embarcar sem =mim. Pedi
a papai que por favor no contasse a ningum onde eu estava, ele =que
arrumasse uma desculpa qualquer. Alis, poucas
74
pessoas em Camfield notaro minha ausncia, essa  que  a =verdade.
- E Francis?
- Bem, ele jurou que pode cuidar bem de si mesmo, o que eu duvido, mas =
enfim... que podia fazer? De qualquer modo, no voltar para casa =at que
eu volte tambm. Assim, fica tudo bem-arrumado.
- Tudo bem coisssima nenhuma! - Rodney estava quase roxo e sua voz, =
tonitruante. - Pensa que eu vou enganar seu pai e contar mentiras sobre =
seu precioso filhotinho? Engana-se redondamente! Quando eu voltar, vai =
saber da verdade tim-tim por tim-tim, juro por todos os deuses!
- Quando voltarmos isso j no ter muita importncia.
- O que vou fazer com voc? Cus, que situao infernal!
- Sugiro-lhe que pare de praguejar e reclamar, para comear.
- Ora esta!
- Em segundo lugar, no creio que ter muito problema comigo. =No sei se
voc contou a idade de Francis aos outros.
- Nem toquei no assunto. Pensa que no tenho outras coisas mais
importantes que tratar?
- Ento  fcil dizer que ele tem seus quatorze, quinze anos. =No  isso
que eu aparento, vestida assim? Alis, acho que no fiquei nada =mal.
- Ficou uma garota vestida de homem, isso  que .
- Pensa assim porque sabe a verdade, mas outros no. Como deve ter =
reparado, ningum me olhou duas vezes; passei totalmente =despercebida.
Apresentei-me como Francis Gillingham e eles me aceitaram sem =duvidar.
75
Alis, quem pensaria que voc poria uma mulher a bordo?
- , quem? - repetiu Rodney, imitando-a com impacincia. - J =ouvi falar
de capites que levam mulheres consigo, mas eu no pretendo descer =tanto,
- Talvez prefira atirar-me na gua.
- Que dvida!
- Mas no far isso. Portanto,  melhor conformar-se.
Rodney bateu com o punho na mesa novamente, erguendo-se indignado.
Levantou a cabea solenemente, pronto para gritar com Lizbeth, mas =
esqueceu-se do teto muito baixo e bateu com a testa numa viga. Lizbeth =
escondeu o sorriso por trs das mos, o que o fez praguejar
violentamente. No sabia como brigar com ela daquele jeito, todo
encurvado. No teve outro remdio seno sentar-se de novo, =esfregando a
testa impacientemente.
- A senhorita sabe que pode at morrer nesta viagem? Mesmo os homens =mais
robustos contraem doenas, as mais variadas; sem falar no perigo de o =
navio afundar ou de levar-se um tiro pelas costas.
- No sou medrosa. E para falar com sinceridade, acho que tenho muito =
mais sade que Francis.
-  uma situao intolervel, esta... Meus homens confiam em =mim. com mil
tempestades! E se eles descobrirem que h uma mulher a bordo?
- Da ento voc jura que no sabia de nada. Olhe, sinto =muito t-lo
metido nesta confuso. Sei que sua situao no  nada =fcil, mas a vida
e a honra de meu irmo estavam em jogo.
- Ah, se aquele... se Francis estivesse aqui, que
boa surra eu lhe daria agora! E fique sabendo que 
isso que eu devia fazer com voc tambm!
76
Desta vez Lizbeth riu abertamente, um riso claro e argentino, que =feriu
os brios de Rodney. A escurido era agora quase total e ele no =pde
escrutar seu rosto, para saber se ela estava zombando ou realmente se =
divertindo. Rodney estava derrotado e sabia disso.
Lizbeth estava ali; isso era uma realidade a que no podia fugir. =Nada
mais havia para fazer a no ser aceit-la e rezar para que ela =no fosse
descoberta. Arrependeu-se de no ter ido receber o filho de sir Harry =
quando lhe avisaram de sua chegada a bordo, mas era tarde demais. =Acabara
caindo numa armadilha que ele prprio se preparara, com sua m =vontade.
- E os quatro... capangas, trouxeram sua bagagem?
- Tudo correu muito bem. Eles perguntaram a um marinheiro se Francis =
estava a bordo; logicamente, a resposta foi sim. Nem se lembraram de =
perguntar se eu estava junto, como eu esperava.
- Como eu esperava, como eu esperava... - imitou-a, numa caricatura
grotesca. - Ento saiu tudo como voc queria, hem?
Ela no respondeu. Nas trevas da cabine, podia perceber fascas de =
irritao nos olhos de Rodney. Detestava essa famlia =Gillingham,
resolveu ele nesse instante. Sir Harry, que lhe enviara o indolente =filho
de presente; Lizbeth, to esperta que conseguira met-lo numa =enrascada
que no tinha mais tamanho; Catherine Gillingham, com aquele olhar =
esfomeado e sorriso promscuo; Phillida... no, ela era diferente. =Mas s
ela!
Rodney procurava digerir uma incmoda e frustrante sensao de =
impotncia. A pequena ruiva atrevida havia estragado todo o seu =prazer,
toda a imensa alegria que experimentara e a sensao de liberdade =que
77
tivera assim que o Gavio zarpara. Tudo dissolvera-se em cinzas e =cedera
lugar a um sentimento de raiva e apreenso.
- D o fora daqui, menina, antes que eu perca a pacincia. Fora! - =
rosnou.
Ouviu-a respirar mais apressado, como se ela fosse dizer alguma coisa. =
Depois escutou o barulho da cadeira, os passos leves da moa e o =rudo da
porta que se abria.
Por um segundo vislumbrou a esguia silhueta recortada contra o luar, e =em
seguida a cabine mergulhou de novo nas trevas, envolvendo-o em =solido.
78

CAPITULO V

- Terra  vista! Terra  vistaaa!
O brado cortou os ares, agitando a tripulao. O vigia gritou =novamente,
as mos em concha:
- Trs pontos da proa a bombordo! Terraa! Lizbeth perscrutou o =horizonte,
mas s via o azul do
cu fundindo-se com o da gua. Sabia, porm, que as montanhas =que logo
mais surgiriam deviam ser de Dominica ou de Guadalupe. O canal entre =
essas ilhas era o porto de entrada para piratas que queriam atingir =o
mar do Caribe.
J estavam navegando h quase quarenta dias. L pelo dcimo, =haviam
aportado nas ilhas Canrias para abastecer o navio, mas por pouco =tempo,
uma vez que o lugar podia estar infestado de espanhis. Desse modo, =duas
horas depois j estavam ao largo novamente; e at agora a nica =
ocorrncia digna de nota fora a vista de uma grande baleia, nadando =
placidamente a distncia.
Gradualmente, Lizbeth fora-se ajustando  vida de bordo. A =princpio,
fora uma verdadeira caixa de surpresas. Ela imaginava que, tendo lido =
inmeros livros sobre o assunto, incluindo as aventuras de Hawkins e =
Drake, j conhecia um pouco da vida em alto-mar. Mas, a bordo do =Gavio
do Mar, depressa aprendera que a realidade nada tinha que ver com seus =
sonhos romnticos. A vida ali era bastante dura, a comear
79
pelos alimentos, que logo escassearam, apesar da grande quantidade
inicial. Lizbeth viu-se s voltas com biscoitos craquentos e secos, =gua
morna e carne salgada, alm de ser obrigada a tomar uma horrorosa =
limonada todos os dias, a fim de evitar o temvel escorbuto.
Descobriu ela, com grande surpresa, como agiam homens rudes e ignorantes =
longe das vistas femininas.  evidente que diziam palavres e =contavam
piadas obscenas, mas eram gentis entre si e tinham grande noo de =
camaradagem. Quando se reuniam  noite, contavam anedotas, bebiam =
bastante e desatavam a lngua alegremente, sem se preocupar em manter =a
mesma compostura que manteriam caso houvesse mulheres entre eles. Nessas =
horas, Lizbeth divertia-se ao ver o embarao de Rodney. Ela =prpria,
porm, tomava parte nas brincadeiras com bastante naturalidade.
No, Lizbeth no estava nem um pouco chocada com o que ocorria no =navio;
estava apenas surpresa, e at impressionada com a disciplina, com o =
exaustvel e infindvel trabalho que havia, e tambm com a =rgida
segregao do capito, que estava sempre a grande distncia =dos demais.
Dava a impresso que Rodney sentava-se nas alturas do Olimpo; =marujos,
grumetes e oficiais olhavam-no com reverncia e um certo medo. =Lizbeth
tinha de raciocinar para no se deixar envolver pelos mesmos =sentimentos,
pois de fato Rodney mantinha uma aura de respeito  sua volta, =difcil de
ignorar. E no entanto, ele nada mais era que um ser humano comum, =sujeito
a falhas e defeitos como qualquer outro. Estava ali como capito por =obra
e graa de seu pai, sir Harry Gillingham, de cuja filha, Phillida, =estava
noivo. Apesar de repetir-se mil vezes tudo isso para si mesma,
80
sempre obedecia prontamente s ordens de Rodney, impelida por uma
deferncia que nunca sentira antes.
No comeo, Rodney mal lhe dirigira a palavra, tudo fazendo para
demonstrar seu desgosto por t-la a bordo. Mas,  medida que a =viagem
seguia seu curso, a atitude dele foi mudando. Lizbeth era a nica =pessoa
que se sentava  mesa do capito, na qualidade de hspede de =honra; raras
vezes Rodney convidava um ou outro oficial para juntar-se a eles.
Ela sabia que Rodney temia que sua verdadeira identidade fosse
descoberta, e por isso mesmo evitava o mais possvel misturar-se com =os
homens, ou mesmo sair da cabine mais do que o necessrio. Costumava =
passear no tombadilho e, nos dias de sol, sentava-se perto da proa, onde =
no havia muito movimento. Essa atitude fez com que os outros =pensassem
que Lizbeth preferia ficar s e respeitassem sua vontade. Eram, =contudo,
muito atenciosos, e at onde ela podia ter certeza, de nada =suspeitavam.
Durante as refeies, manteve-se calada no comeo, para no =irritar o
capito. Mas  medida que ele se ia tornando mais falante, Lizbeth =tambm
conversava e ria. com seu inato senso de humor, fazia frequentes
observaes espirituosas e provocava o riso involuntrio de =Rodney.
Vrias vezes Lizbeth pensou que era uma pena ele estar to =aborrecido,
pois os dois poderiam tornar-se timos amigos.
Certa vez, ela at arriscou-se a brincar de forma mais diretamente =
feminina. Haviam acabado de jantar e a lamparina iluminava fracamente o =
rosto cansado de Rodney.
- O que voc gostaria mais de domar: um navio ou uma mulher?
- Ambos so excitantes. Depende,  claro, da dificuldade
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que teria de enfrentar, tanto com a mulher como com o navio.
- Mas acha que poderia conquistar os dois?
- Acho.
-  muito autoconfiante, Rodney Hawkhurst.
- Bastante. Duvida que eu consiga?
- E se eu duvidar?
- Nesse caso, talvez eu me sinta na obrigao de provar-lhe que =consigo
um dia.
Entrefitaram-se por um momento, como que medindo foras; foi um =olhar
intenso e cheio de significado. Depois ele sacudiu a cabea, deixou =
escapar uma de suas pragas habituais e tocou violentamente a campainha =
para pedir mais vinho.
com o passar do tempo, Lizbeth foi-se apercebendo da tremenda presso =em
que Rodney se achava e do bem que faziam a ele suas pilhrias. Como =
capito, parecia que Rodney estava sempre desempenhando um papel que =o
desagradava, o de um comandante onipotente, seguro, forte, que traria =
fama e fortuna a sua tripulao.
Pouco a pouco, foi compreendendo que o capito fazia questo =fechada de
aparentar calma e sangue-frio, mesmo quando seus homens demonstravam =
excitao. No se surpreendeu, pois, quando Rodney manteve-se =impassvel
ao ouvir o grito do vigia, encarapitado no calcs. Nem quando o =novato
Gadstone veio correndo, agitado:
- L est ela, senhor! L est!
-  Dominica o que voc est vendo - respondeu Rodney, com =frieza. - Mas
h muito que fazer antes de chegarmos l. Por favor, cuide para =encher os
barris de gua assim que aportarmos. Baxter, pare de olhar para essa =ilha
vagabunda e trate do leme.
82
Foi o suficiente para os homens retomarem febrilmente as atividades. =Mas,
com o canto dos olhos, Lizbeth percebeu um fulgor singular nos de =Rodney.
Suas tmporas pulsavam e nada disso condizia com a calma deliberada =de
suas palavras. Concluiu que ele estava to agitado com a proximidade =de
Dominica quanto os outros. Tambm, no era para menos, aquele era =o
porto para a grande aventura. Que poderia trazer-lhe sucesso ou
aniquilar sua carreira. Teve sbita vontade de correr para ele, =de
confort-lo, dizer-lhe que compreendia seu esforo para aparentar =calma.
Em vez disso, afastou-se, lembrando-se de como sua presena o =irritava.
Alm do mais, Rodney impacientara-se com ela naquela manh, =novamente.
Lizbeth levantara-se mais cedo que de costume e, em vez de esperar a =
bandeja de caf que Hapley levava todo o dia para sua cabine, saiu =para o
convs ainda deserto. Sentou-se no canto de costume e abriu um livro, =
quando a voz de Barlow chamou sua ateno.
- Hora do castigo, siri Posso chamar todos?
- Sim, vamos logo com isso - respondeu Rodney, que vinha subindo do =outro
lado.
O imediato tirou o apito do bolso e um silvo agudo cortou a quietude da =
manh.
- Todos no convs! Hora do castigo! - gritou ele.
Os homens comearam a subir, formando uma ferradura em torno de =Rodney,
que mantinha uma atitude impenetravelmente rgida. Seu rosto severo =fez
com que Lizbeth sentisse que devia ter ficado na cabine. Mas no =podia
mais sair dali sem atravessar a ferradura, que se adensava.
Um homem de dorso nu foi trazido acorrentado para
o meio da ferradura, e tambores comearam a rufar.
Lizbeth nunca mais se esqueceria daquela sensao
83
de impotncia e aflio que sentira ao ouvir o chicote =estalando e
zunindo no ar. Boquiaberta, viu fascinada o couro enterrando-se na carne =
branca e macia, produzindo imediatamente um rio rubro de sangue que
comeou a empoar-se na madeira do convs.
O homem no deixou escapar um s gemido, mas depois de uma =dzia de
chibatadas, estremeceu e perdeu os sentidos. Atiraram-lhe um balde =de
gua e em seguida soltaram-lhe os pulsos.
- Todos para o caf, agora - comandou Rodney, com a mesma =expresso
impassvel.
To rpido quanto tinham chegado, os homens debandaram. S =ento Rodney
viu o rosto plido de Lizbeth, meio escondido entre grandes rolos de =
corda.
- Acordou cedo, hoje.
O comentrio, seco e indiferente, fez o sangue de Lizbeth ferver =at o
ponto de ebulio. Cheia de raiva e indignao, saltou como =pequena leoa,
cerrando os punhos com fora:
- Mas quem voc pensa que , Deus! Como pode tratar um ser humano =desse
modo?
- Esse homem desobedeceu a minhas ordens. Sem castigo, isto seria um =
cortio sem controle.
- Mas ... abominvel, cruel, ... ...
- Todos conhecem qual  o castigo para desobedincia. Uma pena seu =
irmozinho janota no estar aqui para aprender.
E girou nos calcanhares, sem olhar para Lizbeth. Ela deixou-se ficar =
agarrada ao parapeito, ofegante, maldizendo-se por estar chorando e dar =
prova de fraqueza. O choque fez com que seu corpo todo doesse, como se =
tivesse levado, ela, as chicotadas. Sabia que a imagem do pobre homem, =
rasgado e ensanguentado, iria atorment-la para o resto da vida.
84
O que Lizbeth no podia saber  que Rodney, sentado  mesa do =caf, tinha
tambm engulhos s de pensar no que se passara. Odiava o =aoite; por ele,
j teria abolida essa prtica aviltante h muito tempo. Mas era =uma
tradio que no podia ser quebrada, sob pena de o comandante =passar por
fraco e incapaz. A prtica do aoite foi, pois, mantida no =Gavio do Mar,
mas a sua revelia. Contudo, Rodney preferia morrer a admitir esse ponto =
fraco; jamais demonstraria seu asco a ningum, muito menos a =Lizbeth.
A lembrana do rostinho plido transformando-se em fria quase =palpvel
f-lo empurrar para longe o prato de salsichas com biscoito.
Que tinha ela de levantar-se mais cedo, justamente naquele dia? =Alis,
que tinha ela de vir fazer aqui no seu navio? Ao diabo com essa ruiva =
infernal!
No ntimo, contudo, sabia que jamais se acostumaria a ver com =indiferena
o sofrimento dos outros. Uma sesso de aoite como aquela era o =
suficiente para deix-lo enjoado; da mesma maneira, o visvel =sofrimento
de Lizbeth tivera igual poder de machuc-lo.
Depois sorriu, lembrando-se do modo desafiador como ela se plantara
diante dele. Seus olhos estavam cheios de gua, ele bem que vira; =mais um
pouco, e a menina desabaria no choro. E os lbios tremiam, apesar de =ela
os morder com fora. Aqueles lbios que Rodney mesmo beijara e =no
conseguia esquecer.
Seus dedos impacientes comearam a tamborilar na mesa. Ser que o =
fantasma de Lizbeth iria persegui-lo durante toda a viagem? "Toda a =minha
alegria desapareceu por causa dessa... Tinhosa de saias... No, de =calas
agora... Ora esta, quanta besteira!" E quanto mais pensava, mais se
insultava a si mesmo.
Nem ao menos o prazer de v-la doente, Lizbeth lhe
85
dera. Que diabos, a menina parecia de ferro! Nem na hora da partida =dera
sinal de enjoo. Quando atravessaram a baa de Biscay, o tempo estava =
bravo e o navio jogou bastante. Mesmo assim, Lizbeth no se juntara =ao
punhado de homens que, abatidos, recolhiam-se ao leito gemendo.
- Esse menino  de boa cepa, capito - comentara Barlow. - Rapazes =dessa
idade geralmente ficam inutilizados quando passam por estas guas. =Sir
Harry deve ter orgulho do filho!
Isso tudo pouco contribuiu para que Rodney gostasse mais de Lizbeth. Ao =
contrrio, naquele momento ele comeou a conceber um plano para =devolv-
la  Inglaterra assim que topasse com um navio ingls. Mas ela =nada sabia
dessas intenes, e agora esperava ansiosamente, como os outros, a =
aproximao de Dominica.
Rodney pretendia abastecer o Gavio e depois aproveitar os ventos =para
seguir rumo ao mar do Caribe. Uma vez l, aportariam em Nombre de =Dis,
uma cidadezinha pequena, mas importante, por ser terminal de rota de =ouro
vindo do Panam. Drake descobrira essas manobras dezesseis anos =atrs.
Atacara de surpresa as caravanas de mula em terra firme, seguindo depois =
com o tesouro para Nombre de Dis. L, fizera amizade com os =nativos, que
muito o ajudaram. Drake deixou na cidadezinha um rastro de justia e =
bondade, que fizeram sua fama.
Tendo perdido cargas de grande valor para Drake, os espanhis =tornaram-se
mais cautelosos, naturalmente. Agora, Nombre de Dis era quase uma =
fortaleza armada, e os tesouros eram vigiados noite e dia. Por causa =
disso, os piratas deixaram o mar do Caribe e Nombre de Dis =descansarem
nos ltimos anos. Considerava-se perigoso desafiar as foras =espanholas,
ali,
86
mas Rodney achou que valia a pena tentar, pois tinha certeza de que
encontraria grandes riquezas por aqueles lados. Se no desse certo =ali,
tentaria cruzar a costa de Darien, onde havia boas possibilidades =tambm.
Talvez os nativos lhe dessem alguma informao, mas Rodney no =ousava
sonhar mais que isso. Era preciso aguardar com pacincia e avaliar a =
oportunidade que aparecesse.
Ao cair da tarde, o Gavio do Mar chegou em Dominica. Ancoraram numa =
angra bem abrigada por altas montanhas. Havia gua em abundncia, =
encontrada em pequenos regatos que serpenteavam por toda floresta. A =
tripulao estava ansiosa para explorar o lugar, mas Rodney =insistiu em
abastecer primeiro o Gavio. Bem sabia que era perigoso demorar-se =muito
nessas guas, sempre infestadas de espanhis. Assim, deu ordem =para que o
navio estivesse pronto para zarpar a qualquer momento.
Outro motivo para no se demorarem,  que os habitantes daquelas =
paragens, dizia-se, eram canibais. Ferozes, briguentos e cruis, =tinham
fama de resistir bravamente ao assdio de qualquer povo dito =civilizado.
A acolhedora angra, contudo, estava deserta. Apenas as gaivotas
perturbavam o silncio com seus guinchos estridentes. A noite =passou-se
sem incidentes e, pela manh, levantaram ferros e adentraram o mar do =
Caribe. Os doze dias seguintes sucederam-se monotonamente; no houve =
sinal de navio ou terra. Fazia um calor morno e abafado, e Lizbeth tinha =
pena dos marinheiros que trabalhavam incessantemente, os dorsos luzidios =
de suor. Puxavam as cordas, lavavam o tombadilho, baixavam e erguiam =
velas, numa lufa-lufa interminvel.
Contudo, aquele mesmo calor deixava-a estranha
87
mente langorosa e sensual. Tinha sonhos esquisitos e atormentados, =cuja
figura central era sempre Rodney. s vezes chegava a corar, quando o =via
pela manh.
Certa vez, conversando sob o enorme diadema de estrelas que pontilhava a =
noite abafada, os dois viram-se mais perto que de costume. Lizbeth =sentiu
uma vontade insana e inexplicvel de toc-lo.
- Em que est pensando, Francis? - fez ele, chamando-a como sempre =fazia,
quando havia perigo de serem ouvidos.
- Em voc - foi a pronta resposta.
- E eu, em voc - retrucou ele, zangado.
- Por qu?
- Porque nada posso fazer a respeito. No consigo livrar-me de sua =
presena.
Rodney parecia acus-la de alguma coisa feia. Lizbeth nada respondeu =e
virou-se para o mar. A fosforescncia da gua formou um halo em =volta de
seus cabelos ruivos, o que pareceu irrit-lo mais.
- Sai, Tinhosa! - praguejou, baixinho. Mas no havia raiva nenhuma em =seu
tom rouco.
Lizbeth ficou surpresa, pois no conhecia esse termo.
- Que foi que disse?
- Nada,  uma coisa que falo sempre que tenho algum problema.
Fez-se um silncio carregado de magia. Lizbeth sentia uma doce =sensao
perpassar-lhe as veias.
- Lizbeth!
Era quase um grito selvagem, sado de um peito dolorido. Nesse =instante,
soou o sino chamando para jantar. A magia do instante desfez-se.
Calado, Rodney desceu para a cabine, deixando-a sozinha. Lizbeth levou a =
mo ao corao, tentando acalm-lo,
88
sem compreender a razo de sua disparada desenfreada.
No duodcimo dia, j vinha descendo o crepsculo quando ouviram =a voz
excitada do vigia do calcs:
- Barco! Barco  vistaa!
Desta vez, at Rodney esqueceu-se da pose e subiu correndo, em =desalinho.
- Onde? De que lado?
- Quatro pontos a sotavento, sir. Acho que  um galeo!
Os olhos experientes de Rodney divisaram um grande quadrado branco, =que
logo desapareceu de vista. Passaram-se minutos. Agora, viam-se as =velas
com mais frequncia. Afinal, um imponente galeo surgiu no =horizonte.
- Vejo a bandeira espanhola iada, sir! - gritou o vigia.
Rodney nada disse, para no trair a prpria agitao.
-  uma barbaridade de grande! - comentou Barlow, tocando-lhe o =cotovelo.
- Pelo menos umas setecentas toneladas.  galeo para ningum =botar
defeito! Mas vai-se haver conosco, o bastardo...
O corao de Rodney parecia querer saltar do peito. Era um navio =poderoso
demais, e seus canhes arrasariam facilmente o Gavio do Mar. =Mesmo
assim, havia possibilidade; bastava um pouco de astcia. Limpou a =
garganta e gritou com voz firme:
- Preparem-se para ao!
Num piscar de olhos, anteparas foram baixadas, barris de plvora =levados
para cima, armas foram carregadas a estibordo. Adiante, na proa,
assestavam-se falconetes, enquanto os homens berravam de emoo =ante a
perspectiva de uma batalha.
89
- Tudo pronto, sir - falou Barlow, finalmente, com os olhos =brilhando.
- Ento...
- Barco  vistaaa! - berrou o vigia de novo. - A estibordo, desta =vez,
sir! Est contra o sol, mas posso ver...  um lugre!
Todos os olhares fixaram-se a estibordo. Estavam to ocupados com o =
galeo do outro lado, que nem olharam  direita. O lugre =aproximava-se
perigosamente, o gurups oscilando com suavidade. Talvez fosse
simplesmente uma nau perlfera, mas certamente possua armamentos, =e sua
bandeira espanhola falava por si.
Rodney calculou quanto tempo levariam as duas naus para cerc-lo. com =o
dia ainda claro, embora a tarde j comeasse a declinar, pde =fazer os
clculos rapidamente. O lugre parecia bastante ligeiro e leve. Num =timo,
resolveu-se.
- Iar a joanete!
Houve uma pequena hesitao, antes de Barlow repetir com voz =forte:
- Iar a joanete!
- Afrouxar adrias!
Barlow repetiu a ordem, desta vez evidentemente intrigado. A brisa =fresca
encopou imediatamente as velas, propelindo-as com fora. Os homens =
corriam sob a chuva de imprecaes de Barlow, fazendo o cordame =voar. Os
armeiros esperavam ao lado dos canhes, como um corredor espera o =tiro de
largada. Rodney no tirava os olhos do galeo. Para seu espanto, =ele se
aproximava mais depressa que o lugre, provavelmente porque este estava =
mais carregado do que supunha. Alm do mais, o vento mudara de =direo
bruscamente, e o lugre lutava contra ele.
90
- O vento est caprichoso hoje, sir - comentou Barlow.
- A toda a velocidade, siga em frente! - comandou Rodney, em =resposta.
- A... toda a velocidade, sir?
- Foi o que eu disse, Barlow.
Pela primeira vez, o imediato entendeu. Sua expresso caiu. O brilho =do
olhar deu lugar a uma sombria carranca quando ele transmitiu as ordens, =
com voz apagada. S ento os marujos compreenderam que estavam =fugindo.
Uma espcie de protesto surdo levantou-se entre eles. Era um clamor =mais
de desdm que de desapontamento aos ouvidos de Rodney. Mas este
permaneceu sereno, vigiando a aproximao do galeo de um lado, =do lugre
de outro. Decididamente, no era esse o destino que planejara para o =
Gavio do Mar: terminar como sanduche entre inimigos. Mas podia =
compreender o sentimento de seus homens muito bem. "Poderamos tentar =com
um deles, mas com dois  impossvel", pensou. Mesmo o lugre seria =capaz
de venc-lo, pois era muito mais leve que o Gavio.
A deciso, por impopular que fosse, fora obedecida. O Gavio do =Mar
afastava-se velozmente do campo de batalha!
- Rodney! - algum puxou-o pela manga. Mesmo preocupado como estava, =
Rodney notou que
Lizbeth chamara-o pelo primeiro nome na frente dos outros, desobedecendo =
frontalmente a suas ordens.
- Que quer aqui? - rugiu, irritado.
- Hales disse que ns estamos fugindo? No pode ser! Ns vamos =ficar e
lutar, no ?
- com duas naus espanholas? Est louca? Rodney no sabia por que =tinha-se
dado ao trabalho
91
de responder. Olhou impacientemente para Lizbeth, que ps as mos =na
cintura, desafiadora.
- Est com medo, capito?
- No, no estou com medo - rosnou -, mas tenho de cuidar de meu =navio,
de meus homens, e... e de voc, que o diabo o carregue!
- No  preciso bancar o covarde por minha causa.
- O que...
Desta vez Lizbeth fora longe demais. O olhar de Rodney estava to =
carregado e furioso que, instintivamente, ela deu um passo para =trs.
- Se me fizer o favor, sir. Gillingham, v para sua cabine e =tranque-se
l. Isto  uma ordem!
E sem olhar mais para Lizbeth, voltou  observao do =galeo. O vento
aumentava, mas a vantagem era igualmente aproveitada pelo inimigo. =Agora,
sem sombra de dvida, o pesado galeo perseguia o Gavio do =Mar. Sua proa
apontava diretamente em direo deste e ganhava espao com =facilidade.
Mais uma hora e seriam abordados!
Rodney olhou desesperadamente para o cu. J estavam no fim do =crepsculo
e havia alguma chance de escurecer antes que a tragdia ocorresse. =Era
sua nica esperana, pois de noite poderiam escapar com mais =facilidade.
O lugre ficara para trs, felizmente. Parecia no se incomodar com =o que
se passava. Talvez no fosse perlfero e sim um dos inmeros ="guarda-
costas" que os espanhis costumavam manter, apenas para assustar o =
inimigo.
O vento soprava forte e Rodney procurou saber se soprava igualmente dos =
lados do galeo. Em guas tropicais, um navio pode ter vento =favorvel
enquanto outro, a poucas milhas de distncia, pode sofrer com uma =
inesperada calmaria. Mas no era isso que estava
92
acontecendo; em verdade, a distncia entre eles encurtava-se a cada =
momento.
De repente, viu um grande disco branco do lado do galeo, que se =espalhou
em fumaa e tornou-se uma pequena nuvem escura; seis segundos depois, =o
estrondo feriu seus ouvidos.
- Passou a alguns metros, a r - murmurou Barlow, assustado.
Outro estrondo acompanhou novo disco de fumaa e, desta vez, a bala =
levantou uma onda, cuja crista respingou no convs. Rodney mandou =chamar
Baxter.
- Veja o que pode fazer com as colubrinas! Ande depressa!
O armeiro-chefe mediu a distncia e sacudiu a cabea. Um canho =apareceu
na proa do galeo, seu cano negro e ameaador emergindo de uma
portinhola.
O armeiro-chefe assestou a colubrina, mediu cuidadosamente a plvora =e
aproximou um fsforo da abertura, esperando o galeo erguer-se um =pouco
nas ondas. De repente, atirou o fsforo aceso na abertura, puxou a =corda
de disparo e a colubrina cuspiu fogo.
- No alcanou o galeo, sir! Muito longe!
O inimigo passou a atirar rapidamente. Ouviu-se um repentino tilintar de =
ferros, a madeira rangeu pesadamente e um grande buraco surgiu no
costado, em meio a uma chuva de estilhaos. Outro tiro raspou o =mastaru,
quebrando-o como palito. Um dos homens tombou com fragor no convs, =
empapado de sangue. Rodney viu que era Dobson, o =barbeiro-cirurgio.
Novamente a colubrina disparou, expedindo um claro que f-lo =perceber
que a noite estava prxima. Dentro em pouco, tudo ficaria s =escuras!
Outro estrondo estremeceu o Gavio de proa a popa.
93
- Cessar fogo! - berrou Rodney, em meio ao tumulto.
Mais do que viu, adivinhou o espanto de Barlow.
- Cessar fogo, sir?
- Imediatamente, Barlow.
Era muito tarde, contudo, para prevenir mais um tiro; e a resposta
inimiga no tardou. Rodney sabia que os espanhis no podiam =mais
enxergar o Gavio do Mar. Ele prprio s podia localizar o =galeo atravs
dos clares do grande canho. Cessando fogo, o inimigo no mais =
localizaria o Gavio do Mar.
O vento comeou a soprar com fora e, nesse instante, Rodney tomou =a
segunda deciso importante do dia. Se seguissem direto em frente, os =
espanhis no tardariam a alcan-los, mesmo no os =vendo. Atirariam a
esmo e com certeza acertariam em cheio; depois, esperariam calmamente a =
madrugada, para finalmente abordar. No havia mais tempo a perder. A =
soluo era mudar o curso e virar a noroeste, embora o vento =ficasse
menos favorvel. Rodney tinha certeza de que os espanhis nem =sonhariam
com essa manobra.
Expediu as ordens rapidamente, sabendo que Barlow iria julg-lo
totalmente demente. Mas, em seu ntimo, Rodney abenoava a noite =que
descia espessa, abenoava a chance de salvar seu navio; era s o =que
interessava no momento. Fugiriam, sim, e da? Estariam prontos para =lutar
outro dia.
Nem dois minutos se passaram e um claro mostroulhe que estava certo. =O
tiro pegou na gua, exatamente onde o Gavio do Mar deveria estar, =caso
tivesse seguido em linha reta.
- Vamos seguir a toda a velocidade possvel, Barlow. No saia =dessa rota!
94
- Sim, senhor - respondeu Barlow, ainda com a voz desconfiada, mas =no
tanto quanto antes.
O fiel imediato compreendera a inteno do comandante. O vento =continuava
bom e Rodney deu um suspiro de alvio. Os estragos no haviam sido =muito
grandes e...
Um estrondo ensurdecedor quase f-lo saltar. O Gavio do Mar =gemeu,
rangeu como uma grande fera atingida e adernou perigosamente. Rodney =
agarrou-se ao leme, tentando endireit-lo. Sua testa encheu-se de =gotas
de suor e seus msculos retesaram-se dolorosamente. Devagarinho, a =nau
endireitou-se, obedecendo ao comando firme do dono.
- Est machucado, sir?
- No, Barlow. Demnios! Esse tiro no devia ter-nos atingido. =Eles no
podem estar nos vendo!
- E no esto, sir. Os malditos deram um tiro errado, foi isso. =No vo
mais acertar nenhum em ns, porque no sabem que mudamos de rumo. =O
senhor agiu certo, meu capito.
Mas Rodney estava preocupado demais para responder. Embora seu instinto =
lhe dissesse que agira corretamente, a verdade  que desta vez o =estrago
fora bem maior. O casco do costado devia estar fazendo muita =gua.
Como ele e Barlow esperavam, o segundo tiro no os atingiu, nem os =demais
que se seguiram. Por sorte, os mastros haviam aguentado, a no ser =um. O
Gavio seguia seu curso, embora penosamente. Rodney queria descer =para
ver os estragos, mas sabia que devia manter-se ali para sustentar o =nimo
dos homens e no desviar o Gavio de seu curso, um curso que =talvez os
desviasse dos espanhis antes que a aurora despontasse.
95

CAPTULO VI

com rapidez quase mgica, o sol despontou no horizonte, riscando =ouros no
mar. Rodney esfregou os olhos encovados e olhou com afeio para =seus
homens, que, exaustos como ele, ainda trabalhavam arduamente. Um suspiro =
de alvio de cada peito, misturando-se com o flap-flap das velas
enfunadas e com o marulho das ondas quebrando-se suavemente contra o =
o casco.
Percorrendo com olhos ansiosos a vasta massa de gua, Rodney percebeu =que
o Gavio do Mar navegava absolutamente solitrio.
- Graas aos cus! - bradou Barlow.
A noite fora cheia de ansiedades. To logo anoiteceu, o vento =comeou a
soprar fortemente a sudeste e Rodney alterara novamente a rota; o =Gavio
do Mar foi levado em direo ao que ele julgava ser a costa. Isso =podia
ser bastante perigoso,  velocidade em que estavam, pois aqueles =mares
eram praticamente desconhecidos, e os melhores portulanos nada
assinalavam. Podia haver ilhotas e recifes escondidos, alm do perigo =de
aproximarem-se muito da costa, onde certamente encalhariam. De qualquer =
modo, Rodney no tivera outra opo e seguira adiante, =mantendo-se alerta
e tenso o tempo todo.
Por mais de uma vez, conseguira desviar-se habilmente de ilhas que se =
erguiam de repente  sua frente. De qualquer jeito, havia que correr =o
risco; os espanhis
96
reiniciariam a caa na manh seguinte, caso no os perdessem =de
vista.
Nas horas interminveis que passara ao leme, Rodney sentira imensa =
depresso. Enfrentara a morte inmeras vezes, conhecera a peste e =a
desesperana. Mas a agonia desta noite pareceu-lhe infinitamente mais =
cruel. Milhes de vezes perguntou-se se havia tomado a deciso =correta.
Podia ainda ver e sentir vividamente a expresso atnita de =Barlow, o
desprezo mal disfarado de Lizbeth e o desapontamento dos outros.
O Gavio do Mar havia desempenhado papel de covarde e, no entanto, =Rodney
no conseguiu ver que outra atitude poderia ter tomado.  muito =herico
morrer lutando, mas suicidar era outra coisa, repetia ele, de si para =si.
Rodney queria levar o Gavio de volta a Plymouth coberto de ouro, =no
deix-lo no fundo do mar do Caribe.
No, nada mais podia ter sido feito. Atirou o queixo para a frente, =como
que desafiando o prprio ar. Contudo, Rodney era um ser humano e, =como
tal, importava-se bastante com o que pensavam dele. Era preciso captar =
novamente a confiana de seus homens.
Pela primeira vez, soube o que era o gosto amargo da derrota moral. O =
navio estava danificado, seus homens, cansados e, o que era pior, de =mos
abanando, pelo menos at agora.
Pouco antes da alvorada, Rodney sentiu sua confiana abalada. Se os =
espanhis ainda estivessem por perto, a tripulao teria de =lutar naquele
estado lamentvel. A tenso apertou-se de madrugada; seus nervos =doam e
a cabea parecia querer estourar. E, de repente, o sol trouxera seus =
raios para anunciar-lhe que no havia nenhum inimigo  vista! =Ainda
esperara com ansiedade o grito do vigia, mas s escutara o =silncio da
aurora.
97
Agora, inspecionando melhor a embarcao, Rodney viu que havia =muito
trabalho pela frente. O convs estava cheio de fendas e gretas. Havia =
estilhaos encrustrados por toda a parte. A maioria das adrias =pendiam
inteis nos mastarus, balouando melancolicamente ao vento. =Por toda
parte espalhavam-se destroos e ferro retorcido. Dobson jazia no =mesmo
lugar em que cara. Alguma alma caridosa havia coberto o cadver =com um
pedao de lona.
Barlow gritou ordens para dois grumetes cuidarem do corpo. Os =servios
fnebres seriam celebrados mais tarde. Rodney perguntou-se quantos =corpos
mais encontrariam no poro, e suspirou cansadamente. De qualquer =modo,
antes de cuidar dos mortos, havia de cuidar dos sobreviventes.
O Gavio do Mar arrastava-se pesadamente e ia muito mais devagar que =na
vspera. O estrondo do ltimo balao que acertara o navio =voltou 
memria de Rodney. A carcaa devia estar em pssimo estado, mas =no havia
como deixar o leme agora, para verificar os danos. Como se adivinhasse =
sua preocupao, Barlow subiu para o convs e aproximou-se =dele, com
expresso sombria.
-  srio? - perguntou Rodney, sabendo que o outro entenderia.
- Mais de sete ps de profundidade
- Onde  o buraco maior?
- Um p acima da linha de gua. Em guas calmas, at que o =Gavio se
aguentaria. Mas aqui... as ondas so altas, e os estragos, cada vez =
maiores.
- No podemos calafetar a fenda? com vela rasgada, cera e estopa, =s
vezes conseguem-se milagres, Barlow.
- O buraco  grande demais para isso, sir. O navio
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fez muita gua durante a noite, e os homens no conseguem =trabalhar
ali. Podemos tentar,  claro; estamos
bombeando a gua por turnos, mas o raio do buraco
tem quase trs ps de largura, por minha f!
- Bem - Rodney limpou a testa, procurando manter a calma. - Temos de =
aportar em algum lugar e
consertar o maldito casco. O problema  como, e onde.
Tem de ser um lugar bem escondido, porque os remendos podem levar um ou =
dois dias.
- Talvez encontremos esse lugar aqui mesmo.
Quantas perdas sofremos?
- Trs homens morreram. Doze feridos.
- Temos de tratar desses. Que azar, morrer justo Dobson, o =cirurgio!...
Bem, mande preparar o enterro. Ser feito na praia.
- Marujos gostam de serem atirados ao mar, sir. Desculpe.
- Mas o Gavio do Mar est indo a pique, no pode ver isso, =homem de
Deus? - impacientou-se Rodney. - No podemos nos arriscar. Vamos =aportar
dentro de meia hora!
- Sim, senhor.
No fundo, Barlow dava inteira razo ao capito. Ambos sabiam que o =navio
tornava-se mais pesado a cada minuto; os mortos compreenderiam, e
perdoariam.
- Temos ainda de alcanar a terra, que fica a umas vinte milhas. Nem =sei
se dar tempo para isso. E s Deus sabe se o lugar ser seguro =para ns.
Enfim, temos de tentar!
- Sim, senhor. vou instruir o pessoal.
Em poucos minutos, o convs comeou a ser varrido e lavado. Os =corpos
foram embrulhados em velas fora de uso,  guisa de mortalha, e =fortemente
amarrados
99
com pedaos de enxrcia. Rodney deixou o comando com Baxter, =instruindo-o
para cham-lo ao menor problema que surgisse. Estava ansiando por um =
banho e uma xcara de caf, mas primeiro devia ver os feridos. =
Acompanhado de Barlow, entrou no escuro e abafado poro. Pequenas =
lamparinas iluminavam parcamente uma fila de homens deitados, cujas
sombras pareciam danar sinistras na parede. O calor era =desesperador,
mesmo para Rodney, acostumado ao sufoco e ao fedor do baixo-convs. =Os
feridos lastimavam-se, gemiam e blasfemavam quando o navio balanava =mais
forte.
Rodney lembrou-se que teria de nomear algum cirurgio-barbeiro no =lugar
de Dobson, como era costume nos casos de morte do titular. Quem poderia =
tomar-lhe o lugar? Diabos levassem Dobson! Sua morte era totalmente
inconveniente, sob todos os pontos de vista! Cirurgies so =absolutamente
indispensveis em viagens desse tipo, embora normalmente mais =matassem
que curassem. De qualquer forma, inspiravam um pouco mais de =confiana na
supersticiosa tripulao.
Controlando-se para no tapar o nariz, Rodney pensou em Drake. Aquele =
homem assombroso conhecia muito bem os segredos da medicina, e era capaz =
de operar e ministrar ervas como o melhor dos cirurgies. Tentou =lembrar-
se do que tinha visto e ouvido do grande mestre, mas nada conseguiu. Na =
poca, no julgara que seria importante aprender um pouco de =medicina
tambm.
Foi quando, ao abaixar-se para examinar um dos feridos, deparou a
silhueta esguia ajoelhada ao lado da cama. A maleta de Dobson jazia
aberta no cho. Rodney levantou a lanterna, cuja luz bruxuleante =bateu em
cheio numa cabea ruiva, tirando chispas vermelho
100
Bburo dos fios curtinhos. Lizbeth terminava uma comlicada atadura no
ombro do homem, enquanto este uivava e imprecava.
- Quieto a! - comandou Rodney, enquanto olhava para a moa, sem =saber o
que dizer mais.
Foi um choque v-la tratando de um marujo sujo e semidespido. At =onde
iam seus conhecimentos, mulher nenhuma fazia servios de enfermagem, =a
no ser bbadas, ou prostitutas muito necessitadas de algum =dinheiro. Em
geral, esse trabalho era feito por homens. Assim mesmo, era dado aos =
menos dotados, tanto mental quanto fisicamente, pois era considerado =
trabalho de menor importncia. Mas, no havia dvida, estavam =diante de
uma situao muito especial. Rodney gostaria de ordenar-lhe que =deixasse
os feridos e voltasse  cabine imediatamente, mas no podia fazer =isso
agora. Mais tarde, nomearia outra pessoa para substituir Dobson. Por =
enquanto, aquele ferido estava obviamente aliviado, e seria desumano =agir
de outra maneira.
- H aquavitae a bordo? - perguntou Lizbeth.
- Aquavitae? - repetiu ele, estupidamente.
- Sim. Aquele outro doente precisa de um pouco. Apontou para um homem =que
sangrava muito. Seu
ombro tinha uma grande chaga aberta, enegrecida de plvora e =betume.
- Por que no lhe d ludano? Se no tivermos, lcool =puro mesmo serve.
- J tomou ludano, mas a aquavitae no  para beber.  =para derramar na
ferida.
- O... qu? Para qu?
Sua bebida favorita j estava chegando ao fim. Lizbeth devia estar =doente
da cabea, se pensava que ele a daria para ser derramada em feridas =
nojentas.
- Est vendo essa plvora? Vai gangrenar o ombro
101
em pouco tempo, caso no seja muito bem desinfetado. Se eu tivesse =umas
ervas iguais s que tenho em casa, tudo bem. Folhas de alho, por =exemplo,
so timas para esse fim. Mas como no h nada disso... por =favor,
preciso da aquavitae.
- Quem... quem lhe ensinou essas coisas?
- Sou uma curiosa. Vivo lendo e ouvindo. Nanna, minha governanta, =entende
bem disso e foi me explicando aos poucos. Vai buscar a aquavitae ou =no?
- S-sim. - Desajeitado, Rodney virou-se para um dos auxiliares de =Barlow.
- V  minha cabine e traga uma garrafa para sir Francis. V =num p e
volte no outro.
O pobre doente gritou, esperneou, praguejou at ficar rouco quando =
Lizbeth despejou o contedo de toda a garrafa em sua enorme ferida. =Mas
depois que esta foi coberta com pomadas e panos, abriu um largo sorriso =e
agradeceu.
- No di mais! Obrigado, moo. Como  mesmo seu nome?
- Francis.
- Ento, "seu" Francis, o senhor at que sabe das coisas. =Obrigado...
E adormeceu.
Havia mais trs homens esperando a vez, e Rodney aguardou que Lizbeth =
terminasse. Um deles tinha estilhaos encravados no brao, que =foram
extrados habilmente, apesar de os instrumentos de Dobson serem =bastante
primitivos. Outro havia perdido um dos ps. Nada havia para fazer =alm de
amputar-lhe a perna. Mas isso era servio para o aougueiro de =bordo, j
que Dobson estava morto. Rodney decidiu que fariam a amputao =somente
quando chegassem em terra firme. O terceiro ferido j havia expirado, =sem
ningum
102
perceber. Uma grande poa de sangue formara-se ao lado da cama, e de =sua
boca sem vida saa um filete vermelho. Seus olhos, muito abertos, =fixavam
para alm do teto, como que buscando algo no infinito. A voz de =Rodney
estava rouca, quando deu ordens para que o amortalhassem e o colocassem =
ao lado dos outros mortos. O homem era Clerihew, que tambm =trabalhara no
Golden Hind e, como Hapley, oferecera-se para trabalhar no Gavio. =Rodney
surpreendeu-se ao ver que sentia sua morte como a de um velho amigo. =
Ressentia-se mais ainda ao lembrar-se que Clerihew morrera sem ter tido =o
prazer de lutar. Antes, ao contrrio, morrera durante uma fuga
vergonhosa.
Por fim, Lizbeth levantou-se. Ajeitou o surrado travesseiro de um, =cobriu
outro, consolou um terceiro. Quando iam saindo, comentou:
- Est muito quente aqui. No pode arrumar outro lugar para eles =ficarem?
- Mais tarde mando lev-los ao convs. Rodney prometeria qualquer =coisa
agora, contanto
que a moa sasse dali logo. No gostava de v-la cuidando =de homens
rudes e sujos, cujo cheiro era insuportavelmente ftido.
- Obrigado. Tenho certeza de que isso ser bom para eles. Quer mandar =
apanhar a maleta de Dobson? Acho melhor no deixar estes remdios =aqui em
baixo. Os homens podem querer medicar-se sozinhos, e h algumas =drogas
que podem ser bastante venenosas.
- Barlow, mande levar a maleta de Dobson para cima. Venha, Francis - fez =
Rodney, puxando-o pela manga. - Devo agradecer-lhe pelo trabalho, mas =no
h mais necessidade de tratar de meus homens. vou nomear outra pessoa =
para isso.
103
- H algum a bordo que conhea medicina? Quero dizer, que =conhea de
verdade?
- No sei. Terei de perguntar.
- Pois eu sei que no h. Por isso, vou continuar com meu trabalho =de
enfermeira. No tenho medo de sangue, como a maioria das mulheres. =Alm
do mais, pelo menos sei ser menos bruta que aquele homem que cuidava dos =
feridos, quando cheguei. Dobson era um pssimo profissional, fique =
sabendo.
Rodney fingiu no escutar e sorveu grandes haustos de ar, assim que =
chegaram ao tombadilho.
- Ah... Que alvio! Aquele poro est podre!
-  preciso cuidar para a peste no aparecer. Temos de jogar =creolina no
navio todo, para evitar a praga, o piolho, os ratos... Agora, com o =navio
assim danificado, o perigo aumenta. Rodney, voc me ouviu?
- Sim, ouvi. vou providenciar a creolina.
- No  disso que estou falando. vou continuar meu trabalho de =enfermagem
e tratar dos doentes, entendeu?
- Proibo-a...
- Recuso-me a obedec-lo desta vez - atalhou Lizbeth, com calma
surpreendente. - Pode ser o capito do navio, mas no tem o =direito de
deixar esses coitados morrerem por falta de cuidados.
- J lhe disse que isso no  servio para voc. Nem para =mulher nenhuma.
- Ningum sabe que sou uma. Alm do qu, vou cuidar dos =feridos, queira
ou no queira. Esse assunto est transposto.
Apesar de cansado e preocupado, Rodney fitou-a com extrema =irritao.
Sentiu vontade de dar-lhe um soco, e at se esqueceu que Lizbeth =era
mulher. Naquel
104
momento, era algum que o desafiava frontalmente, coisa que =no
tolerava.
- Vai obedecer-me, ou mandarei p-la a ferros.
- Ha! - fez ela, jogando a cabea para trs e pondo as mos na =cintura. -
Duvido que tenha coragem para isso!
- Ora... sua... V para sua cabine imediatamente! Ou juro por minha =f
que mando castigar a senhora... o senhor agora mesmo!
Lizbeth reprimiu uma risada a custo. Limitou-se a mir-lo de alto a =baixo
por trs dos longos clios. Ambos estavam tensos como galos de =briga,
vibrantes de impacincia e irritao pela longa noite de =viglia.
- com licena, sir - a voz de Barlow trouxe-lhes uma repentina =trgua. -
H um bote de pescaria bem na nossa frente, com trs homens. Devo =ia-los
a bordo?
Rodney perscrutou o horizonte, certificando-se de que no havia =nenhum
navio  vista.
- Sim, Barlow, faa isso, mas seja rpido. No podemos =parar!
Esquecido de Lizbeth, debruou-se na amurada. O Gavio do Mar =parecia
cada vez mais pesado e gemia como animal ferido. Seus ouvidos =acostumados
sabiam que o navio estava soltando os ltimos brados de socorro.
Distraidamente, observou os trs forasteiros que eram iados. Um =era
nativo, um ndio forte e bronzeado. Os outros dois eram negros, e =Rodney
prontamente identificou-os como cimaruns. Inimigos figadais dos
espanhis, que os escravizavam, os cimaruns eram negros aquilombados =
entre os nativos, de quem se tornaram amigos.
Tantos foram os que haviam conseguido fugir da escravido,
105
que agora formavam um povo  parte, vivendo nas florestas que
rodeavam o istmo do Panam. Tinham seu prprio rei e =subdividiam-se em
tribos, todas unidas por um s sentimento: o dio aos =espanhis.
Rodney adiantou-se e falou-lhes em espanhol.
- Quem so vocs?
- Cimaruns - foi a resposta orgulhosa e desafiadora.
Rodney sorriu e ordenou:
- Soltem-nos.
Os marujos entreolharam-se, espantados, mas obedeceram.
- Sou ingls. Meu navio  ingls, meus homens so ingleses. =Inimigos,
portanto, de seu inimigo.
Como esperava, a fisionomia dos homens mudou imediatamente, abrindo-se =
num sorriso iluminado por dentes muito brancos. Os trs ajoelharam-se =e
tocaram com a testa no cho, em sinal de servido.
Pela primeira vez, Lizbeth soube o que era ser culta. Seu pai havia-lhe =
dado instruo primorosa, semelhante  da Rainha Elizabeth, =tendo
contratado professores das mesmas matrias que a Rainha estudara. Sem =
medir despesas, escolhera os melhores professores, de modo que, aos dez =
anos, Lizbeth j conhecia italiano, francs, latim e grego; aos =doze,
tinha mais um professor de espanhol. Apenas ela e Rodney sabiam por que =
os pescadores haviam mudado to depressa de atitude.
- Ns conhecemos um ingls - falou um deles -, um heri que nos =ajudou
bastante. Chama-se Franci. Drake.
- Est falando com um oficial dele - retrucou Rodney. - Trabalhei com =sir
Francis dez anos.
106
- Ento,  nosso amigo tambm. Teremos prazer em =ajud-lo.
- Bem, a primeira coisa  acharmos um porto bem escondido.
- Ali na frente  a costa da Nicargua. L h...
- Um momento. Nicargua, voc disse?
- Exatamente. No sabia onde estava, senhor?
- Para falar a verdade, no. Tivemos um contratempo, e desviamo-nos =da
rota mais do que eu pensava. Achei que estivesse no sul do Panam. =Bem,
no importa. O que tem a costa da Nicargua?
- Eu e meu amigo fomos visitar uma aldeia de ndios e pernoitamos =l. Um
navio espanhol, a caminho de Havana, precisou aportar na baa em que =
estvamos, para remendar o casco. Os espanhis, como sempre, =armaram
desordem na tribo. Prenderam nativos, seduziram mulheres e acabaram com =a
colheita de milho. Nosso rei ficou sabendo que o navio tinha muito ouro =a
bordo, e que os espanhis iam demorarse ali, por causa da malria =que
alguns marinheiros pegaram. Ns conseguimos escapar com o filho do =rei, 
o ndio que veio conosco. Ns achamos que os espanhis mandaram =uma frota
para c. Devem chegar dentro de alguns dias.
- Ento no podemos aportar na ilha! - murmurou Rodney, =desanimado.
- Mas h uma pequena baa escondida, muito boa para vocs. com =um pouco
de sorte, o navio pode atracar ali.
- timo. - Rodney ficou pensativo, brincando com uma ideia. - Quer =dizer
que h um navio espanhol no porto...
- Sim, com o ltimo carregamento de ouro.
107
- Algum guarda-costas espera esse navio?
- No. Ouvi o comandante espanhol queixar-se que teria de zarpar =sozinho.
- Vamos recapitular - falou Rodney, contando nos dedos excitadamente. - =
Um: Navios espanhis carregados de ouro deixaram a costa h pouco =tempo;
dois: um deles ficou para trs; trs: esse que ficou para trs =no tem
guarda-costas; quatro: o comandante est preocupado. Concluso =lgica: h
muito ouro nesse navio aportado.
- Assim parece, capito. Mas, e da? O Gavio est avariado, =e os reparos
tomariam muito tempo.
- Voc disse que uma frota espanhola viria para c?
- Talvez tivssemos tempo... No,  muito cedo para pensar =nisso. Agora 
achar um modo de alcanar a tal bala escondida, sem que o inimigo nos =
veja.
Rodney pressentia que sua sorte estava mudando. No momento, nada podia =
ter sido melhor do que ter encontrado aqueles trs. Eles, sem =dvida, o
ajudariam. Fariam qualquer coisa, desde que fosse contra os interesses =
espanhis.
- Podem guiar-nos at sua baa?
- Podemos. No  longe daqui.
- Ento vamos imediatamente para a cabine de proa. No temos tempo =a
perder.
Falando assim, virou-se para Barlow, a fim de darlhe ordens. S =ento
percebeu que ningum havia entendido uma nica palavra da longa =conversa
que mantivera com os cimaruns.
- Diacho, esqueci-me que vocs no falam espanhol. Acho que =teremos de
perder um pouco mais de tempo. vou contar o que eles disseram...
108
- No  preciso, capito. Eu posso contar para Mestre =Briow. O senhor
poder seguir agora mesmo.
Entre surpreso e incrdulo, Rodney fitou os olhos verde-esmeralda de =
Lizbeth, que dera um passo  frente.
- Voc fala espanhol?
- E outras lnguas tambm, caso seja necessrio. Coloco meus =
conhecimentos a seu servio, capito.
Era uma espcie de censura branda. Rodney, de repente, teve vontade =de
enterrar o machado e fazer as pazes. Sua raiva evaporou-se.
- Obrigado, sir Gillingham. Conte nossa conversa a Barlow e aos outros, =
que devem estar curiosos. Eu vou com nossos amigos para a cabine de =proa.
Lizbeth explicou tudo em poucas palavras, notando o crescente nimo =dos
oficiais.
- Um navio espanhol! - falou Gadstone, com voz vibrante. - Ah, esse =j
est no papo, mesmo que seja a ltima coisa que faamos neste =maldito
mundo.
- E pode mesmo ser a ltima - interveio Barlow.
- Como disse o comandante, temos de cuidar do Gavio do Mar, antes de =
mais nada. Obrigado, sir Francis, pela explicao. com licena, =o capito
est  minha espera.
Gadstone continuou ao lado de Lizbeth, agitado com a notcia.
- Estou todo para um belo corpo-a-corpo com esses malditos =espanhis...
Desde que sou menino odeio essa gente. Ainda me lembro da traio =que
armaram contra John Hawkins, na batalha de San Juan. Eu era criana, =mas
jurei a mim mesmo que, quando crescesse, havia de vingar-me desses
espanhis. Hei de faz-los sentir na pele o mesmo que fizeram com =os
nossos...
109
Penso na agonia dos prisioneiros, que at hoje ainda apodrecem =nalguma
priso infecta de Sevilha.
- Sei como se sente, Gadstone - falou Lizbeth.
- Mas lembre-se que o dio pode ser to cruel quanto o que eles =fizeram.
- Pode ser, mas no descansarei enquanto no cumprir meu =juramento.
Espere s at eu chegar perto de um desses malditos assassinos... =E, com
a ajuda de Deus, nosso capito h de nos dar essa chance!
- Assim espero - concordou Lizbeth, suspirando. No havia como =discutir
com esse moo impetuoso
e idealista.
- Ontem estavam com raiva do capito, por ter-nos obrigado a fugir. =
Agora, vejo que ele tinha razo. Era a nica coisa decente que =havia para
fazer.
- Pensa assim, realmente? - perguntou ela, surpreendida.
- Mas  claro! Imagine o que aconteceria se fssemos abordados dos =dois
lados... E era isso que ia acontecer, por minha f... Aqueles dois =iam
dar cabo de ns antes que pudssemos dizer ave-maria! , o =capito estava
certo, moo. No gosto de voltar atrs, mas o que  justo =deve ser
reconhecido,  o que sempre digo.
- Engraado, eu... tambm pensei a mesma coisa
- O capito  um homem decente,  o que ele . Um dia, ainda =hei de ser
igual a ele. Hei de ter meu navio... Bem, sir Gillingham, eu vou indo. =Ao
trabalho!
Lizbeth observou-o pegando animadamente o escovo e o balde, =assobiando
desafinado. Era um jovem bonito, viril e extremamente atraente, mas =no
despertava nenhum sentimento especial nela. Na presena de Rodney, =porm,
Lizbeth jamais conseguia ficar indiferente
110
assim. Sentia raiva, irritao, indignao... mas tambm =um tremor
esquisito e... e alguma coisa mais, que no sabia definir =direito.
O que o tornava diferente dos outros? Lizbeth quebrava a cabea, sem =
achar resposta satisfatria. Vagarosamente, foi para a proa, onde =Rodney
conversava com os trs recm-chegados. O Gavio do Mar parecia =ter a
carga feita de chumbo, e navegava com grande dificuldade, apesar das =
velas enfunadas e da brisa que soprava sem cessar. Conseguia, contudo, =
avanar devagarinho. A costa se aproximava e j estava =perfeitamente
visvel.
Lizbeth viu a preocupao de Rodney. Era uma luta contra o tempo, =agora.
Lentamente, virou-se e deixouos, preferindo no incomodar.
Rodney tinha de ir com cuidado e, ao mesmo tempo, andar rpido. Fez =um
silncio atento, quando ele atravessou habilmente um estreito canal =de
rochas, que mudou imediatamente para um hurra de saudao  =praia que se
oferecia a seus olhos cansados.
Ao meio-dia conseguiram, finalmente, lanar ncoras. Embora =estivessem
exaustos, uma hora depois a forja j estava instalada na praia e os =
ferreiros j haviam iniciado o trabalho, A bigorna retinia, =acompanhando
o ritmo das fortes marteladas dos carpinteiros.
Os reparos do casco exigiriam muito suor, ainda. Mas os homens eram
valentes e animados. O que mais preocupava era a quantidade de =proviso
que se estragara com a gua salobra. Parte dela estava totalmente =
arruinada, e a que sobrara no seria suficiente para retornarem  =
Inglaterra. Mas onde encontrar reposio, por todos os deuses? Era =o que
Rodney perguntava-se, aflito. O pior  que ele sabia a resposta, mas =no
ousava formul-la nem para si prprio.
111
Quando a noite desceu, Rodney chamou os cimaruns e o prncipe, para =
conversarem em particular. Apesar de ciente que seus homens no =falavam
espanhol, Rodney preferiu lev-los a um lugar deserto. Achava que =todo o
cuidado era pouco. Mesmo com a notcia de que os espanhis estavam =a
cinco milhas dali, dera ordens expressas que todos falassem em voz baixa =
e fizessem o mnimo barulho possvel. Alm disso, proibira
terminantemente, sob pena de severa punio, que eles se =afastassem da
pequena angra.
Os homens obedeceram, mas Rodney sabia que isso duraria pouco. Quando o =
cansao se fosse, quando o trabalho estivesse mais avanado, os =marujos
comeariam a sentir ccegas para explorar a regio. Isso era =to certo
quanto o pr-do-sol.
Mais tarde, Rodney confabulou com Barlow durante um bom tempo; depois, =
dirigiu-se  cabine de proa, metido numa larga capa preta e portando =uma
faca na cintura. Lizbeth deteve-o, adivinhando aonde ele ia:
- Posso ir tambm?
- No, eu vou sozinho com o prncipe.
- Aquele ndio? Mas...  quase um garoto!
- Ele conhece bem o lugar. Minha ideia  s dar uma espiada no =porto onde
est o navio, nada mais.
- Ainda assim, gostaria de acompanh-lo... Mas compreendo seu ponto. =Acho
que... que devo pedirlhe desculpas pelo que lhe disse ontem. Voc =tinha
razo em no querer arriscar a vida de ningum; afinal, estamos =em suas
mos. Naquela hora, eu s pensava em lutar contra os espanhis, =a
qualquer preo. Acho que foi bobagem minha.
Rodney percebeu instantaneamente que no estava sendo fcil para =Lizbeth
falar com ele nesse tom contrito. Que garota estranha, aquela! s =vezes,
portava-se
como criana mimada, para logo em seguida assumir a postura de uma =dama.
Desta vez, era a mulher que domava seu orgulho e pedia desculpas a um =
homem que fora at mesmo rude com ela.
Impulsivamente, deu um passo em sua direo.
- Estou contente por ter compreendido minha situao, Lizbeth. Eu =mesmo
odiei minha deciso, mas era o melhor que havia para fazer no =momento. E,
se quer saber, acho que tambm lhe devo desculpas por certas coisas. =Sou-
lhe muito grato pelo modo como tratou os doentes. Afinal, isso no =
trabalho feminino, mas dadas as circunstncias... Alm disso, =no gosto
de v-la incumbida de tarefa to repulsiva como essa.
- Nada  mais importante que a sade do pessoal. Alis, vou ao =poro
agora mesmo, visitar meus "pacientes".
- No acha melhor Speacock cuidar deles?
- Ele no sabe medir a quantia certa de ludano. No sabe fazer =cozimento
de malvas, nem preparar pensos de linimento.
Seus olhos fitavam Rodney placidamente, e este, por sua vez, viu-a =plida
e cansada, to necessitada de um bom sono quanto ele. Num impulso =
repentino, tomoulhe a mo e beijou-a.
- Obrigado, Lizbeth.
Enquanto caminhava apressadamente rumo ao local combinado com os
cimaruns, Rodney recapitulou o dilogo. Sbito, imaginou Francis =no lugar
de Lizbeth e estacou, surpreso com a prpria reao. Sentira um =
inexplicvel alvio em ter Lizbeth, e no Francis, como sua =hspede de
honra.
113

CAPTULO VII

Naquela noite poucos dormiram no Gavio do Mar. Lizbeth debatia-se =entre
os grossos lenis de moleto enquanto ouvia os homens =caminhando
incessantemente no convs superior, conversando entre si em voz =baixa.
Rodney dera ordens expressas para o silncio ser mantido a qualquer =
custo.
Na praia, os ferreiros ainda trabalhavam na forja, sob uma tenda
improvisada, a fim de ocultar o claro do lume. Devia fazer um calor =
insuportvel ali, pois a cada cinco minutos eles saam para =respirar e
secar o suor com pedaos de pano velho.
Tinham trabalhado o dia inteiro, sem que nenhum tivesse pedido para
descansar; todos sabiam que a vida de cada homem a bordo dependia da =
rapidez com que fosse consertado o casco do Gavio. A qualquer =momento
uma nave espanhola poderia localiz-los, e havia ainda o perigo de =serem
vistos do alto das montanhas. O Gavio do Mar estava fundeado a =poucos
metros da praia e a tripulao trabalhara o dia todo com as =bombas, a fim
de livr-lo da gua que inundava os pores. Mesmo Lizbeth, =ignorante como
era em assuntos nuticos, podia sentir que o elegante navio estava =mais
leve e flutuava com muito mais facilidade.
O calor sufocava. As faces de Lizbeth ardiam. Eralhe impossvel =dormir
naquele cubculo abafado, onde nem uma lufada de ar vinha dar o ar de =sua
graa.
114
Tinha pena daqueles pobres ferreiros, mas sabia que qualquer trabalho, =
por penoso e extenuante que fosse, era prefervel  priso ou =s gals
espanholas. Pouco a pouco o silncio tombou sobre o Gavio. Um =silncio
pressago e sombrio, sem as douras do sono. S os vagalhes =mansamente
largos, domados pela aurora que ameaava claridades, continuavam
embalando o navio, perdendo-se em mansas sucesses nos ainda escuros =da
noite,
"Rodney, Rodney!" - chamou ela, num grito silencioso.
Tinha medo de nunca mais v-lo. Os espanhis poderiam t-lo =capturado a
estas alturas. Visualizou-o acorrentado, assassinado, banhado em
sangue... A ideia apunhalou-a dolorosamente e ela fechou os olhos,
angustiada. Rodney...
Em mente, viu o queixo decidido e quadrado, as sobrancelhas espessadas =
sobre o nariz e a polpa dos lbios sensveis. Viu tambm seus =olhos
mirando-a com uma expresso que lhe provocou estranhas ondas de rubor =que
desciam pelo seu corpo, queimando-o. Palavras que ele dissera minutos =
antes comearam a martelar-lhe os ouvidos, implacveis.
- Morrer no importa, mas  preciso ter coragem para saber =morrer.
Mordeu com fora o travesseiro, recusando-se a chorar. Rodney no =podia
morrer, simplesmente no podia morrer, simplesmente no podia! =Tinha de
viver, tinha de voltar para o Gavio... voltar para ela!
- Meu Deus, trazei-o de volta... trazei-o de volta! O murmrio das =ondas
sussurrava tristezas pressagas. As horas arrastavam-se com lentido =
insuportvel. Quando os primeiros raios sanguneos da madrugada =riscaram
o cu, ainda no havia sinal de Rodney. Os
115
sentinelas, colocados em pontos estratgicos, no afrouxavam a =tensa
viglia. Lizbeth j podia v-los contra o cu; eles, como =ela, procuravam
ansiosamente indcios de que Rodney voltava.
A bordo, os marujos retomaram o trabalho acelerado sob o comando de
Barlow. Mas havia um toque de ansiedade indefinvel nos gestos =nervosos
de cada um.
Finalmente, quando Lizbeth julgou que no aguentaria mais a =presso e j
tinha os olhos ardendo de tanto procurar no horizonte, Rodney =chegou.
Veio to rapidamente que ela nem o viu descer a colina e atravessar a =
praia; e no entanto, mesmo antes de sab-lo de volta, Lizbeth sentira =sua
presena pela atitude dos marinheiros. No que eles tivessem =cessado de
trabalhar, ainda que momentaneamente; no que eles tivessem =cochichado
qualquer coisa. Era algo de muito sutil, uma espcie de repentino =alvio
da tenso, que varreu o navio de proa a popa, quase to evidente =quanto
um grito de vitria.
Um pequeno bote j estava preparado  espera de Rodney e trouxe-o =a bordo
em poucos minutos. Assim que ele subiu, Lizbeth esqueceu-se da =disciplina
e correu a seu encontro, murmurando baixinho:
- Graas a Deus! Graas a Deus!
O rosto do Rodney estava muito plido, mas seus olhos encovados =denotavam
excitao interna. O gibo enlameado evidenciava uma noite =dormida no
mato; a barba por fazer e os cabelos desordenados pouco contribuam =para
melhorar-lhe o aspecto quase doentio.
com voz muito cansada, mas firme, Rodney dirigiu-se para Barlow, depois =de
cumprimentar Lizbeth.
- Est tudo em ordem, Barlow.
- At meio-dia o casco estar novo em folha 116
respondeu o imediato, orgulhosamente. - O Gavio poder navegar =ainda
hoje.
- Obrigado, era exatamente isso que eu esperava ouvir. Por favor, =rena o
pessoal todo.
- Agora, sir? Ha... Hapley preparou seu caf e...
- Imediatamente, Barlow! Depois cuido de mim.
- Sim senhor!
Minutos depois, os marinheiros afluam do convs inferior, dos =grabatos,
das cabines. Somente os ferreiros continuaram malhando na forja, para =no
interromper os servios de reparo.
Rodney subiu ao tablado e baixou os olhos para a tripulao, que =esperava
em silncio. "Meus homens so gente boa, valorosa e fiel", pensou. ="No
posso e no devo desapont-los!"
- Companheiros, vocs sabem onde estive ontem  noite. Nosso =prncipe
ndio levou-me at a vila, uma cidadezinha simptica, =localizada numa
baa parecida com esta, s que bem maior. Como eu j sabia, =h um navio
espanhol ancorado ali, tambm sendo consertado como o nosso. Seu nome =
Santa Perptua, um galeo de mais de quinhentas toneladas, que =parece
carregado de tesouros, provavelmente do Panam. O destino do =galeo 
Havana. Dentro de um par de dias, outros navios espanhis viro em =seu
socorro, a fim de escolt-lo.
Estou contando tudo isso a vocs, para que saibam os perigos que =teremos
pela frente. Nosso prncipe ndio pensa que a tripulao = de uns
duzentos homens, talvez mais. Todos eles, no se iludam, sabem =guerrear e
terar armas muito bem. H sentinelas vigiando a vila e o =galeo 
continuamente guardado por um corpo armado de vigias, se bem que a
maioria dos tripulantes
117
est-se aproveitando dessa espcie de frias foradas e =tenta divertir-se
em terra o mais possvel. As garotas ndias so bem bonitas e o =vinho da
terra, potente.
Agora, quero que prestem ateno: hoje  noite vamos abordar o =Santa
Perpetua!
Um grito de selvagem alegria brotou em unssono do peito daqueles =homens
rudes. Rodney levantou um brao e prosseguiu, muito srio:
- No devemos fazer barulho, amigos. O vento carrega facilmente =nossas
vozes. Olhem eu podia ouvir conversas, ordens, risadas, at os =gemidos
dos doentes. E estava bem longe! Assim, se quisermos ter sucesso, =teremos
de guardar silncio. Cada um de vocs receber uma ordem. Sei =que cada um
a executar da melhor maneira possvel. O engano de um, poder =ser a
morte de todos. Acho que no preciso dizer que eles so muito mais =
numerosos; ns desprezamos os espanhis, mas seria prova de =ignorncia
subestim-los.  um povo lutador e experiente. Agora, h outra =coisa que
eu gostaria de contar. Antes de eu deixar a Inglaterra, antes de ir a =
Plymouth para comprar o Gavio do Mar, estive alguns dias em =Whitehall. E
tive a honra de ver a Rainha. Na verdade, fiquei somente a alguns passos =
dela. Sua Majestade vinha entrando pela galeria, depois de dar uma volta =
nos jardins. Ningum esperava encontr-la ali e todos ns nos =afastamos
um pouco para deix-la passar, como  o costume; mas todos =tambm
estvamos tomados de respeito e admirao. Era um dia feio, o =cu estava
enfarruscado, mas para mim pareceu que o sol havia sado subitamente. =
Nossa Rainha no  alta; no entanto, quando a vi, senti que estava =diante
de uma grande mulher. Ela tem uma dignidade e uma graa que lhe =conferem
beleza indescritvel... Gostaria de expressar-me melhor,
118
mas as palavras tornam-se ocas e frgeis quando se trata de descrever =
nossa soberana. Quando se est longe dela, pensa-se na Rainha =Elizabeth;
mas quando perto, sente-se que ela  a prpria Inglaterra. Quando =passou
por mim, fiquei sabendo que a Rainha  a personificao de tudo =por que
lutamos, e por quem, se for preciso, daremos nossas vidas. Ela  a =
Rainha,  Gloriana,  a Inglaterra! E  por ela, pensando nela, =que
capturaremos o Santa Perptua. Pela glria da Rainha!
Fez-se pesado silncio, carregado de significao. Rodney, sem =dizer
mais nada, dirigiu-se para sua cabine. O silncio continuou por =alguns
segundos, como tributo ao orador que comovera a todos; e depois, como se =
uma corrente houvesse sido partida, todos comearam a falar entre =si
animadamente, conquanto respeitassem as ordens e mantivessem tom =baixo.
Pouco a pouco, retomaram o trabalho com renovado vigor. Apenas =Lizbeth
permaneceu imvel, as mos firmemente cerradas e os olhos =marejados de
gua.
Era um Rodney totalmente diferente, aquele que falara. Um homem
inspirado, que conseguira comover coraes rudes, de gente =acostumada a
palavres e fanfarronices. Era tambm a primeira vez que Lizbeth =percebia
a venerao que os homens nutriam por Elizabeth, Rainha da =Inglaterra.
A mera meno desse nome conjurava memrias de seu passado: a =menina de
infncia solitria, cuja me fora humilhada e executada; a =sombra do
cadafalso erguendo-se escura e ameaadora sobre sua pequena =cabea, j
to invejada. Mimada e maltratada alternadamente, era a herdeira =por
vezes, a bastarda por outras.
Testemunhara anos terrveis de enforcamentos e fogueiras, mas =sobrevivera
por um milagre de discrio, brilhantismo e coragem.
119
Agora Lizbeth entendia as histrias que sir Harry lhe contava sobre =essa
lendria mulher, mescladas de apaixonadas exclamaes de =respeito.
Entendia porque haviam-na apelidado de Gloriana, pois ela era a =prpria
glria. Porque Hawkins, Drake, Raleigh e milhares de outros =cavalheiros
lendrios haviam depositado a seus ps tudo o que tinham =ganhado.
Eram os homens, principalmente, que se identificavam com a Rainha de =
maneira quase sensual. Muito se falara na ligao de Sua Majestade =com o
Duque de Leicester, com Harron e com o belo Heneage de Vere, audaz rei =
dos torneios; com o jovem Blount que, diziam, sempre corava quando a =
Rainha o fitava de frente; e com o Duque de Essex, o ltimo da =fileira,
alto, bonito e irresponsvel, prato cheio para mexeriqueiros.
Falassem o quanto quisessem. Ningum podia negar que Elizabeth era =uma
mulher nica em sua grandeza. Como Rodney dissera, os homens estavam =
prontos para viver e morrer por ela... E, contudo, a Rainha era =apenas...
uma mulher!
Lizbeth lembrou-se da voz de Rodney, estrangulada de emoo, e =sentiu uma
sensao estranha que ainda no conhecia.
Era quase como se tivesse cime de algum que, mesmo sendo rainha, =era
capaz de despertar tamanha devoo no corao de cada homem, =fosse ele
rico ou pobre, nobre ou plebeu. Naquele momento, Lizbeth aprendeu uma =
importante lio de vida. Aprendeu que toda mulher poderia e =deveria ser
a inspirao do homem, seu estmulo, seu ideal de vida.
De p no tombadilho banhado de sol, em meio ao lufa-lufa dos homens =que
iam e vinham, ao som da forja malhada de longe e das ondas que se
quebravam sob seus ps, sorriu de pura satisfao. =Experimentava
120
uma sensao de poder como nunca sentira antes. Porque ela =tambm era uma
mulher, mesmo que naquele momento ningum soubesse disso!
O almoo foi rpido e frugal, mas pelo menos Lizbeth pde =conversar em
paz com Rodney. Nenhum dos dois pareceu aborrecido com a magra =poro de
carne salgada e biscoitos secos. Ao contrrio, ele comeu com apetite =
devorador e falou sem reservas com ela, como se estivessem em =Camfield.
- Nosso prncipe revelou-se digno do ttulo, Lizbeth. Deixou-me no =mato e
foi  cata de informaes para mim, em sua vila. O leme do =Santa Perptua
tinha sido avariado, mas j est consertado. O navio est =pronto para
zarpar  noite.
- Como assim? Voc disse que eles teriam de esperar ajuda de outros =
espanhis...
- Esperar, no. A ajuda vir, mas vai encontr-los a meio =caminho. Deve
haver um belo tesouro a bordo, porque o capito parece muito ansioso =para
zarpar logo.
- Ento como  que voc pretende abordar...
- Espere. Haver uma festa hoje  noite, antes de eles partirem. =Os
espanhis exigiram uma dzia de vitelas e outro tanto de porcos =dos
nativos, que j tm poucas provises.
Os pobres ndios estavam revoltados e planejavam boicotar o banquete, =mas
eu lhes dei dinheiro. Assim, nossos amigos tero muita comida e =vo se
regalar  farta com aquele vinho!
- Que vinho?
-  o que os ndios fazem, aqui mesmo. Forte como ele s!  =feito da
seiva de uma palmeira, e chamase Vino de Coyol. Os espanhis adoram =essa
bebida,
121
mas os ndios costumam escond-la quando um navio chega a aportar. =Nosso
rapazinho trouxe o pai consigo para me conhecer. Eu lhe dei todo o
dinheiro que tinha e recomendei-lhe algumas coisinhas.
- Que coisinhas?
- Logo mais saber... Prefiro no comentar. Pode no dar certo, =entende?
Ah, esses malditos ho de se divertir a valer esta noite!
- E enquanto se banqueteiam...
- Sim, exatamente. Ns atacamos! - Rodney tamborilou na mesa, um =hbito
que tinha sempre que se concentrava muito. - Quero evitar lutas =corpo-a-
corpo, porque no posso me dar ao luxo de perder um nico de meus =homens.
Ainda mais se tiver dois navios para levar  Inglaterra...  o que =
espero, pelo menos.
- No tenha medo. Esse galeo j  seu. Rodney parou de =tamborilar e
olhou-a, curioso.
- Certa vez voc me disse que eu teria xito nesta viagem. No =entanto,
ontem mesmo acusou-me de covarde.
- Tenho vergonha de ter dito isso. No tinha entendido seus motivos e =
queria lutar contra os espanhis de qualquer maneira; lutar e ganhar, =
claro. Mas at ento no sabia como  triste a viso de =homens feridos,
sangrando e gritando. Quando meu doente amputou a perna, tive uma
sensao angustiante de impotncia...
- Lizbeth, eu j falei uma vez. Deixe esses feridos com algum que =tenha
estmago mais forte.
- Eu tambm j respondi uma vez: no vou obedec-lo nisso, =sinto muito.
Ningum aqui tem qualquer conhecimento de ervas e curativos. Sabia =que
aquele homem em que usei sua aquavitae j est sem febre? A ferida =est
cicatrizando.
- timo, fico contente. E... pelo que vejo, vou acabar tendo de
contentar-me com gua, apenas!
Mas Lizbeth, pensando nos doentes, no sorriu.
- Se ao menos eu soubesse um pouco mais! Dizem que os nativos conhecem =
muitas ervas, pois no tm mdicos. Posso pedir ao nosso amigo =ndio que
nos traga algumas?
- Claro, Lizbeth. Mais tarde.
O mesmo pensamento passou pela cabea de ambos. Haveria um "mais =tarde"
para eles? Rodney levantouse vivamente.
- No posso me demorar. H muito que fazer!
- Mas no vai me contar quais so seus planos? Sei muito pouco =ainda!
- Por enquanto,  o bastante.
Lizbeth conteve-se para implorar-lhe que no fosse. Que importava um =
galeo a mais? Que importavam os espanhis, ou mesmo a Rainha, =contanto
que Rodney estivesse a salvo? Gostaria de impedi-lo, gostaria... Ora, =mas
que  que ela queria, afinal?
Impossvel pr em palavras, decidiu. Lizbeth s sabia que =estava lidando
com emoes estranhas e contraditrias: orgulho, =admirao, medo. E mais
outra coisa indefinvel, que simplesmente no compreendia.
Pensou na noite terrvel e sem fim que passara,  espera de =Rodney. O que
tinha pela frente seria duas vezes pior! Controlou-se e tentou recobrar =
coragem. Rodney voltaria, tinha de voltar! E ela, Lizbeth, deveria ser =
sua inspiradora e incentivadora.
- Voc voltar, Rodney! - murmurou, enquanto ele se afastava.
Confusa, limpou duas lgrimas teimosas com as costas da mo.
123
Pouco antes de o crepsculo descer mansamente, Rodney pediu a Barlow =que
recrutasse quantos marujos soubessem nadar.
- Nadar, sir? - repetiu Barlow, incrdulo.
Os marinheiros, na grande maioria, achavam que nadar trazia m sorte. =Se
o navio afundasse, quanto mais cedo um se afogasse, melhor. Ficar =nadando
ou boiando s prolongaria a terrvel agonia. Rodney sabia disso =e
compreendeu o espanto de Barlow.
- Quero um bote com homens que saibam nadar, e bem, Barlow. Os que =apenas
sabem boiar ou nadar feito cachorrinho no me interessam. =Compreendeu?
- Sim, senhor.
Pouco depois, o imediato veio avis-lo que doze homens nadavam bem. =Como
o bote comportava oito, Barlow escolhera os melhores.
- Oito homens sero o suficiente para o que pretendo, Barlow. Comigo, =
seremos nove.
- Vai com eles, siri
- Sim, e conto com voc para vigiar nosso Gavio do Mar.
- No... no posso ir tambm, siri
- No.  importante que fique no navio. Se ns falharmos, tem =ordens
expressas de fazer-se ao largo imediatamente, entendeu?
- Sim, senhor.
- Agora traga-me Gadstone. Quero falar com ele.
Quando o jovial marujo entrou na cabine, esta pareceu iluminar-se, tal =
seu excitamento e agitao. Era bvio que esperava uma =misso dessas,
desde que deixara a Inglaterra.
- Gadstone, o servio que tenho para voc  extremamente
124
difcil, porque requer muita pacincia, iniciativa e =capacidade
de fugir.
- De... fugir?
- Exatamente. Agora escute com ateno... Rodney explicou seu =plano,
usando de propsito um
tom seco e incisivo. Queria acalmar o impetuoso marinheiro e
conscientiz-lo de que o que tinha a fazer seria de imensa =importncia.
Mas quando, finalmente, viu-o subir agilmente as colinas juntamente com =
outros seis companheiros, Rodney achou-o bem mais calmo e seguro. Os =sete
tinham pernas longas e muita vitalidade; como o prprio Gadstone =dissera
no final da entrevista: "Somos capazes de correr mais que o demnio =de
gua benta, siri"
Rodney observou-os at perd-los de vista, e depois virou-se para =Barlow:
- Espere-os at o ltimo minuto. Mas nem pense em prejudicar a =segurana
do navio, esperando mais que o tempo estabelecido. Nem por causa deles, =
nem por minha causa, entendeu?
- Muito bem, senhor.
O leal imediato estava conformado, mas no escondia seu =desapontamento.
Sabia que o plano era perfeito, brilhante at, mas detestava o papel =que
lhe fora confiado. Teria de ficar a bordo, aguardando calmamente! =Talvez
fosse at obrigado a zarpar, deixando o prprio capito para =trs!
- Daqui a alguns minutos ns vamos. O bote est pronto?
- H meia hora, sir.
- Ento vou escrever minhas ordens no dirio de bordo antes de =sair.
Ao chegar na cabine, Rodney encontrou Lizbeth parada
125
em frente  escotilha. Seu olhar estava perdido na imensido =do
azul, como que olhando sem ver.
- Seria to bom se eu pudesse acompanh-lo! murmurou baixinho.
Ela parecia frgil e cansada. Repentinamente, Rodney esqueceu-se da =
excitao quase infantil que se apoderara dele. Lembrou-se do =perigo que
ela corria, caso o Gavio fosse capturado.
- No  por minha culpa que est aqui, mas ainda assim sou =responsvel
por voc. Se alguma coisa me acontecer, Barlow tem ordem de levar =o
Gavio do Mar de volta  Inglaterra. E se por acaso ele tambm =falhar,
ento peo-lhe, Lizbeth... no se deixe apanhar pelos =espanhis.
- Como assim? Que posso fazer?
- H modos mais dignos de morrer do que apodrecer numa priso =espanhola.
E se por acaso descobrirem que voc  mulher... isso no vai... =ajud-la
em nada.
No era preciso completar o pensamento. Ambos sabiam qual seria o =destino
de Lizbeth.
- Na maleta de Dobson... h alguns medicamentos bastante venenosos - =fez
ela, lentamente.
- Sem dor?
- Sem dor.
- Ento, vamos rezar para que no precisem ser usados.
- No tenho medo de morrer. Por isso mesmo  que gostaria de ir =com voc.
-  corajosa, Lizbeth. No sabia que existiam mulheres assim.
- Acho que, no fim de contas, voc pouco entende de mulheres.
- Entendo bastante. Eu no entendo  de voc.
126
Por um longo momento seus olhos encontraram-se e permaneceram atados por =
invisvel lao. A voz de Barlow gritando ordens tirou-os do enlevo =e
Lizbeth juntou as mos, em gesto de splica.
- Cuidado, Rodney.
Ele hesitou e depois colocou a mo afetuosamente em seu ombro. Era um =
gesto carinhoso, como poderia fazer com Francis, caso fosse ele que
estivesse ali.
- Sei cuidar de mim, menina.
Minutos depois Lizbeth viu-se sozinha e desamparada. Vagarosamente, =subiu
para o tombadilho, enquanto ouvia as ltimas ordens berradas =febrilmente.
O bote j estava preparado, os oito homens esperando que Rodney =baixasse.
Todos estavam sem camisa e descalos. Na cintura de cada um brilhava =um
cutelo e um punhal curto, que seria levado nos dentes enquanto =nadassem.
Lenta e silenciosamente o bote afastou-se, os remos mergulhando
maciamente. Rodney observava os picos das colinas, temendo sentinelas =que
poderiam v-los facilmente. Havia correntes fortes que precisavam =ser
habilmente evitadas, alm de atis submersos, difceis de serem =vistos.
Bem ou mal, entretanto, conseguiram chegar  ponta do promontrio =que
separava a baa da costa. Abrigados pela densa folhagem da margem, =
amarraram o bote e prepararam-se para esperar a noite descer por
completo. A pequena canoa oscilava suavemente, embalando-os.
- No vai demorar muito para anoitecer - disse Rodney, procurando =animar
os companheiros. - Vejam, a primeira estrela j est nos =espiando.
Prosseguiram falando baixinho, mas o pensamento de Rodney estava com =
Gadstone. Ele e os camaradas deviam esconder-se e espionar tudo o que se =
passava, sem fazer absolutamente nada, at ouvirem trs =apitos,
127
vindos do Santa Perptua. Isso indicaria que Rodney havia conseguido =
abordar a nau inimiga. Nessa hora, os sete teriam de correr rapidamente =
de volta ao Gavio do Mar, subir a bordo e dirigi-lo ao encontro do =
galeo capturado.
Era um plano simples, mas se as coisas no corressem bem, ento =Gadstone
e o bando haviam sido instrudos para causar confuso. Atirariam =pequenas
granadas e dardos cheios de alcatro na ponta, para distrair a =ateno do
inimigo do verdadeiro objetivo, o Santa Perptua. Rodney suspirou =fundo e
sussurrou as ordens.
- J est escuro o bastante. Remem em silncio e devagar. =No temos
pressa.
Contornaram o promontrio durante o que pareceu um sculo e de =repente a
grande baa surgiu-lhe na frente. Na praia, conforme o chefe =prometera,
uma animada festa se desenrolava.
Grandes fogueiras ardiam e lambiam as carnes dos animais fornecidos pelo =
amigo de Rodney.  luz das chamas, era fcil ver os espanhis =espalhados
na areia, abraados a jovens ndias enfeitadas com colares de =flores.
Alguns gargalhavam ruidosamente, outros bebiam, outros ainda jaziam
totalmente bbados.
Na baa, ao largo, a silhueta do Santa Perptua erguia-se contra o =luar,
tentadora e convidativa. Um burburinho de vozes e risadas levantou-se =
mais forte da praia. Mesmo assim, Rodney mal ciciou a ordem.
- Amarrem o bote na margem.
Minutos depois todos nadavam, cada homem com o punhal na boca e o =alfanje
firmemente amarrado na cintura. com braadas vigorosas e =silenciosas,
dirigiram-se para o Santa Perptua. O mar estava calmo, leitoso sob o =
luar prateado.
128
Excelente nadador que era, Rodney alcanou o grande casco antes =dos
companheiros. Segurou-se a um dos cordames e lentamente iniciou a
escalada. Logo depois chegaram os outros, que o seguiram. Firmavam-se =com
os ps descalos no casco rugoso e machucavam as mos na corda =grosseira,
mas prosseguiam com rapidez. Finalmente espiaram pela amurada, cujas
redes de proteo estavam recolhidas, para grande alegria de =Rodney. Como
ele esperava, os sentinelas de bordo achavam-se no levante, =observando
melancolicamente o festim que seguia animado em terra.
Os ingleses, pingando gua, saltaram como gatos no tombadilho, =fazendo as
tbuas rangerem. Os nativos, do outro lado da baa, comearam a =danar e
a cantar em ritmo selvagem e quase alucinante. O barulho que faziam era =
ensurdecedor.
Tudo terminou em questo de segundos. Os seis sentinelas foram =subjugados
e apunhalados antes que pudessem emitir qualquer som.
- Inspecionem o convs inferior, depressa! - murmurou Rodney.
Os homens voltaram logo, abanando a cabea.
- No h mais ningum a bordo, sir.
- timo. Melhor que a encomenda!
Todos haviam decorado muito bem seus papis, de sorte que em pouco as =
adrias movimentaram-se e faziam o mastaru bracear. Uma brisa =leve
comeou a soprar e o Santa Perptua p-se a balouar sobre =as amarras,
como que pedindo para se libertar. Rodney olhou para a margem, receoso. =
Mas os ndios danavam freneticamente  volta das fogueiras, os =corpos
reluzentes de suor girando e pulsando, atraindo a ateno dos
boquiabertos espanhis.
129
- Capito, estamos com sorte. O cabrestante  novo!
- Ento, levantem ncora.
Rodney, assim como os outros, sabia que este era o supremo momento =de
perigo. Qualquer marinheiro conhecia o rudo de ferros que a =ncora fazia
ao ser puxada. Era como se no gostasse de sair da gua.
A gritaria do outro lado continuava ensurdecedora Na verdade, estava =at
aumentando de volume, exata mente como Rodney combinara com o chefe
ndio. Mas ainda assim, que garantia podiam ter? Um dos espa nhis =podia
estar menos bbado e perceber a manobra.
Vagarosamente deram incio  extenuante tarefa, firmando os ps =no convs
e arqueando os corpos, retesados pelo peso do cabrestante. Os cabos
esticaram-se e o barulho metdico principiou: Clanque! Clanque!
Para os ouvidos de Rodney, parecia que o Santa Perptua gritava por =
socorro em altos brados. Clanque! Clanque!
Torturado, Rodney voltou os olhos ansiosos para a praia. Uma gota de =suor
desceu-lhe pelos olhos, passeou pelo nariz e veio alojar-se salgada e =
grossa na ponta dos lbios. A ncora seguia seu percurso =infindvel,
enquanto o cabrestante repetia monotonamente: Clanque! Clanque!
S quando comeou a divisar os braos da ncora submersa = que Rodney
passou a ter mais confiana. Voltou-se novamente para a festana e =viu os
nativos girando em crculos cada vez menores e mais frenticos. =Pareciam
tomados por uma divindade demonaca. Os que no danavam batiam =palmas
ritmadamente e sapateavam, enquanto outros tocavam tambor. Seus amigos =
estavam cooperando bastante!
- Guarneam a rea da vela-mestra.
130
Ele mesmo foi  cana do leme e fez com que o Santa Perptua se =
posicionasse a barlavento. No mesmo momento as velas encoparam-se, os =
galdropes gemeram e o corao de Rodney ps-se a bater =furiosamente ao
ver os grandes panos enfunados. Mansamente, o galeo comeou a =arar,
balouando leve sobre as guas.
S ento Rodney fez seu apito silvar trs vezes. Esperou um =pouco e
apitou novamente, temendo que Gadstone no conseguisse ouvi-lo =atravs da
algazarra.
Ento levantou-se da praia um alarido diferente, como o de feras =rugindo.
Algum apontava para a nau; outro agitava os braos, gritando. =Dentro em
pouco todos estavam  beira-mar berrando, gesticulando, apontando, em =
evidente desespero. O pnico estrugiu dentro da algazarra.
Ouviu-se um estampido seguido de uma exploso e Rodney fez uma =careta.
Apesar de suas instrues em contrrio, Gadstone no =resistira e atirara
uma granada nos espanhis. Era uma bravata, uma fanfarronice
desnecessria, mas Rodney acabou por sorrir. Afinal, a longa espera =devia
ter sido uma tortura para o exuberante Gadstone, que chamava qualquer =
espanhol de biltre e forneziz, frase que sempre fazia Rodney rir. A =estas
alturas, ele e seus companheiros j deviam estar correndo a toda a =brida,
rumo ao pequeno bote. Dali seguiriam para o Gavio do Mar.
A granada formara ainda mais confuso na praia. Os nativos urravam, =
enquanto os espanhis, atnitos e bbados, pareciam um bando de =baratas
tontas.
O Santa Perptua seguia seu caminho impvido, agora com todo o =velame
iado. Mas no havia pressa. Apesar de os espanhis atirarem-se =aos
trambolhes nas canoas. Rodney sabia que no teriam a menor chance =de
alcan-lo.
131
Dali a pouco o Gavio do Mar viria a seu encontro, para juntos =seguirem
para a Costa Darien. O Santa Perptua era grande e pesado, mas =gostoso de
pilotar. Rodney conhecia aquele tipo de embarcao e o leme =obedecia
prontamente a seu comando. Havia um prazer quase sensual em =acarici-lo,
em senti-lo submisso como amante apaixonada em suas mos.
O cu estrelado cintilava sobre sua cabea, as adrias cantavam =ao vento
e as ondas batiam docemente no grande costado escuro, produzindo =reflexos
lcteos. Em baixo, picados de luz, peixes fervilhavam =brincadeiras.
Rodney jogou a cabea para trs e riu de pura alegria. Conseguira! =Mal
podia acreditar, mas era a verdade. O Santa Perptua era dele, dele! =
Capturara-o exatamente como havia planejado, sem perder um nico =homem.
Capturara-o para a Inglaterra, para Gloriana!
132

CAPITULO VIII

A aurora comeava a despontar e Rodney ainda no se afastara do =leme. Nem
tinha mais conscincia de seu cansao. Era como se seu corpo =no mais lhe
pertencesse e agisse por conta prpria. Seus pensamentos foram para =bem
longe e fizeram-no lembrar-se da noiva.
- Fale comigo, Phillida - murmurou. - Por que se esconde de mim? De nada =
adianta, voc  minha. No pode escapar! H de me =amar...
Mas o rosto de Phillida permanecia escondido nas sombras da madrugada =
emergente.
- Phillida!
Contra o lils malva do cu viu ento o rosto de Lizbeth, =fugidio como as
nuvens, seus olhos verdes confundindo-se com a gua do mar.
Como estava cansado, cus... No excitamento da captura do Santa =Perptua,
nem se dera conta de que a noite se fora mesmo antes de deixar a =baa...
Agora precisava levar o navio para... quem, mesmo? Ah, sim, para
Lizbeth...
O dia fez-se bonito de repente e,  medida que sua luz aumentava, =Rodney
viu que o Santa Perptua achava-se longe dos perigos da costa. =Era
preciso mant-lo fora da rota de Nombre de Dis... Seu crebro =cansado
recusava-se a pensar claramente.
O atalaia gritou, fazendo-o estremecer:
133
- Vela  vista!
Rodney ficou imediatamente alerta e sacudiu a cabea, tentando =dissipar
os vapores que a turvavam. Logo depois ouviu as palavras que aguardava =
ansiosamente.
-  o Gavio do Mar, sir! A estibordo! Vem vindo direto a nosso =encontro!
- Aceita uma taa de vinho, senhor? - perguntou uma voz por =trs.
Um marujo trazia nas mos uma bandeja de prata e sorria de orelha a =
orelha. Rodney fixou os olhos esgazeados na riqussima jarra de =ouro
cravejada de rubis, que faiscavam sob o sol em gotas de sangue.
- A cabine de proa est cheia dessas bugigangas, sir. E a de r =tambm
tem uns terns de proveito... Parece que a Dona Fortuna passou-se =para
nosso lado!
Rodney sorriu diante do entusiasmo e provou o vinho. Era rico, encorpado =
e generoso. Estalou a lngua, sentindo novo vigor.
- Pela amostra, temos muita coisa boa pela frente. Por enquanto, mande =
preparar o caf da manh para todos.
- Sim, senhor!
O homenzarro foi-se aos saltos. Rodney invejou-o, parecia uma =criana
cheia de vitalidade, enquanto ele sentia-se velho e enferrujado.
Esquecia-se de que havia passado trs noites consecutivas sem pregar =
olho.
O Gavio do Mar crescia no horizonte e o vento favorecia o Santa
Perptua, que se aproximava rapidamente da nau companheira. Rodney =estava
doido para explorar as cabines de baixo, mas no queria confiar =aquele
leme macio e traioeiro a ningum. Alm do mais, seus homens =mal davam
conta do servio, por conhecerem mal aquele tipo de =embacao.
134
Contudo, eles estavam trabalhando bem rpido. Rodney sabia que =eles
queriam dar uma demonstrao de habilidade aos companheiros que =os
observavam do Gavio. Nada mais natural e humano, pensou Rodney, =com
afeio paternal. Achou graa no violento contraste que as =roupas
rasgadas e andrajosas faziam com o luxo do galeo. Mesmo =descalos,
seminus e sujos, eram seus auxiliares fiis e tinham feito um bom
trabalho. Tinham agido como verdadeiros corsrios!
O sol agora brilhava em todo o esplendor, castigando os dorsos nus =ainda
encurvados no trabalho. O vento comeou a amainar e Rodney ps-se =a
gritar ordens secas. Era preciso alcanar o Gavio do Mar antes =da
calmaria.
Rodney imaginou o excitamento e a especulao que estariam =agora
fervilhando a bordo do Gavio do Mar. Levantando a vista, notou que =a
bandeira espanhola havia sido baixada. Gostou da providncia, pois =Barlow
poderia ficar confuso, se visse a bandeira inimiga iada.
Agora j podia divisar algumas silhuetas na proa e perguntou-se =se
Lizbeth estaria entre elas. Agora ela no o acharia covarde, no =senhor!
Porque, apesar de ela lhe ter pedido desculpa, Rodney ainda sentia o =peso
daquela palavra nos ombros. Capturando o Santa Perptua, =justificara-se
aos olhos de todos, tinha plena conscincia disso. No que =necessitasse
de justificativa, porque agira dentro de seus princpios. Mas a =viso de
dezenas de olhos desapontados ainda o perseguia. Sua =auto-satisfao era,
sabia, infantil. Mas que mal havia em sentir-se um pouquinho criana =num
momento de euforia como aquele?
A figura de Lizbeth destacou-se ento, muito vvida, acenando
excitadamente. Barlow manobrava o Gavio
135
com percia e aproveitava-se do mais leve sopro de aragem para =toc-lo
para a frente.
Pela milsima vez, Rodney agradeceu aos cus a sorte de poder =contar com
seu fiel imediato. Era um homem em que se podia confiar, sempre pronto a =
obedecer sem hesitao. Faltava-lhe, talvez, a iniciativa e a =capacidade
de liderana prprias de grandes comandantes. Mas para segundo =homem, era
impecvel.
Os tripulantes comearam a cantar e Rodney instintivamente =acompanhou-os,
trateando discretamente a melodia. Era uma cano tpica, a =mesma que
usavam para saudar uma vitria ou a vista do porto, depois de uma =
comprida viagem. Ao mesmo tempo, a msica era uma forma de eles =indicarem
a seu capito que estavam felizes e aprovavam sem reservas a atitude =que
tomara antes, ao fugir dos espanhis.
No foi difcil arribar, devido  falta de vento. Um bote do =Gavio do
Mar foi baixado e Rodney divertiu-se ao ver que a primeira pessoa a
saltar na amurada do Santa Perptua foi Lizbeth. Ela podia ser =quietinha
e at tornar-se invisvel, quando necessrio. Mas para =conseguir algo
importante, no hesitava em fazer valer sua prerrogativa de =hspede de
honra.
- Rodney! Voc... voc conseguiu! - gaguejou ela, ofegante, =esquecendo-se
de cham-lo de "senhor".
- Meus cumprimentos, sir. Foi um belssimo trabalho, sim senhor. De =
mestre! - completou Barlow, gravemente.
Sua atitude era formal, mas os olhos brilhavam intensamente. Rodney
sorriu ante a mal disfarada curiosidade com que os homens percorriam =o
grande galeo de ponta a ponta. Em poucos instantes, Barlow avaliou =tudo
o que estava  vista: os largos vaus, as inmeras bocas de fogo, a =
amurada bem protegida por anteparas,
136
os elegantes castelos, que eram trs: de proa, de popa e de centro; =os
altivos mastarus, rodeados de traquetes bem torneados e lases =recm-
polidos.
- Pela alma do Rei Henrique! - murmurou ele, boquiaberto.
-  o navio mais belo que j vi - acudiu Lizbeth.
- Por favor, conte-me tudo. Como foi que aconteceu? Houve luta?
- Tudo correu como planejei. Barlow, Gadstone chegou em tempo? Est a =
bordo do Gavio?
- Sim, senhor!
Rodney alargou o cansado sorriso. Sua ltima preocupao =dissolvia-se em
cinzas.
- Ento vamos descer e inspecionar nossa nova propriedade. Depois =temos
de achar um lugar escondido e seguro para aportar e examinar a carga. =
Gadstone trouxe nosso prncipe junto?
- Trouxe, sim senhor. Os dois pareciam bebs felizes.
- Desta vez eles tinham razo, Barlow. At que foi engraado o =susto da
espanholada...
Falando assim, dirigiu-se  cabine de proa. Mas ao chegar perto da =
abertura do convs, estacou espantado. De l vinha subindo um
desconhecido.
Por uma frao de segundo, todos se calaram, atnitos com a =inesperada
apario. Era um bonito jovem de seus dezoito anos, de =compleio
vigorosa e tez cor de oliva. Os cabelos, bastos e muito negros,
denunciavam sua origem obviamente espanhola. Vestia-se com apuro, um =
gibo cor de conhaque sobre cales bufantes da mesma cor. As =meias, mais
claras e debruadas de ouro, combinavam com duas rosas que enfeitavam os =
sapatos de verniz;  volta dos ombros repousava uma grande corrente =de
ouro cravejada de pedras preciosas.
137
O estranho encarou Rodney firmemente, mas sem insolncia. Este, de =
repente, sentiu-se seminu e mal trajado. Mas cabia-lhe tomar a
iniciativa. Assumindo postura de vencedor, perguntou com voz cuja =firmeza
estava longe de corresponder  verdade:
- Seu nome, senor?
- Miguel, filho do Marqus de Suavez, dono deste navio.
- Sou Rodney Hawkhurst, sdito de Sua Majestade a Rainha Elizabeth da =
Inglaterra, comandante do Gavio do Mar e tambm, por fora de =captura,
do Santa Perptua.
- Compreendo.
Ambos falavam em espanhol e o jovem mantinha-se calmo e digno. =Desamarrou
o cinto de onde pendia sua espada e entregou-a a Rodney, na mais apurada =
linha de cortesia. Este aceitou a arma e entregou-a a Barlow.
- Obrigada, senor de Suavez. Considere-se,  claro, meu prisioneiro, =mas
saiba que ser muito bem tratado neste navio, at chegarmos  =Inglaterra.
O espanhol sorriu com amargura, sabendo o que o esperava quando
aportassem em terra inimiga.
-  muito generoso. Infelizmente, nada percebi ontem, quando fomos =
abordados. Creio que foi culpa de um forte sedativo que o mdico de =bordo
me deu antes de dormir. Tive uma crise forte de febre e nem pude sair =do
Santa Perptua. Devo ter dormido muito pesado, porque estou to =surpreso
quanto os senhores.
- Ns no fizemos muito barulho, senor de Suavez.
- Perdoe minha curiosidade, mas quantos de meus homens morreram?
- Fico contente de poder dar-lhe uma boa notcia.
138
Somente os seis sentinelas de bordo morreram. O resto est so e =salvo,
na praia, onde festejavam.
- Bem que eu disse ao capito que essa festa seria perigosa, mas ele =no
me deu ouvidos. No havia nada para celebrar, a no ser uma =malagueta de
leme quebrada.
- Que, alis, foi muito bem consertada, para minha sorte. Bem, =senor,
terei prazer em contar-lhe mais detalhes  noite.  meu convidado =para
todas as refeies. Agora, peo-lhe o favor de recolher-se  =sua cabine
novamente.
O espanhol inclinou-se polidamente e desceu as escadinhas, seguido de =
longe por Rodney e os outros.
- Veja, Barlow, a cabine dele fica meio escondida. Meus homens no o =
encontraram ontem  noite porque a porta  to pequena que =at parece ser
de ucharia.
- Sim, mas por dentro deve ser a mais luxuosa.
- com certeza. Bem, vamos examinar as outras. Deixemos nosso hspede =em
paz.
Os olhos de Rodney brilharam diante dos mapas, portulanos e dirios =de
bordo espalhados sobre a grande mesa de carvalho. Maravilhado com o =luxo,
quedou-se perdido em admirao, ouvindo as exclamaes =pontilhadas de
espanto de Lizbeth e Barlow.
Nos camarotes sucediam-se achados: astrolbios, pesados veludos, =tapetes
to grossos que cobriam os ps de quem neles andava; leitos de =dossel
armado em torneados e arrebiques ao gosto do sculo, sedas, mveis =de
fina madeira entalhada, caixas de ouro filigranado, lenis de =cetim
bordados, fronhas de pluma; coisas que Rodney jamais vira em qualquer =
navio, mesmo nos mais luxuosos.
A cabine de proa era ampla, mobiliada com requintes que desciam aos
mnimos detalhes, como ps torneados
139
em ouro e tampos incrustrados de madreprola. A baixela era de
ouro e prata. Tapearias pendiam nas paredes, iluminadas por =candeeiros
de fino cristal.
- Que riqueza, meu Deus! - murmurou Lizabeth,
sem flego.
- Sim, mas por outro lado  sinal de perigo. Os espanhis devem =estar 
nossa procura,  claro. Quem gostaria de perder esta maravilha de =navio?
Ainda mais sem luta...  preciso correr, Barlow. Temos de nos afastar =
daqui o quanto antes.
- Como dividimos os homens, sir?
- Para comeo de conversa, escolha os melhores que tem, e traga-os =para
c; eu mesmo os comandarei.
- O senhor? Mas o costume ...
- Eu sei, Barlow. O costume  mandar algum na frente levando o =Santa
Perptua, mas no quero arriscar. Ningum sabe manejar este =barco como
eu. Ele  quase desconhecido para ns, ingleses. Alm do mais, =aqui temos
armas e canhes muito bons. Podemos dar um baile em nossos inimigos, =caso
algum queira se
meter conosco.
Rodney tinha outros planos na cabea, mas de momento preferiu =calar-se. O
que interessava agora era largar o mais depressa possvel.
- Onde est nosso amigo, filho do rei da tribo? Ele ficou de =guiar-nos
at a Costa Darien.
- L est no convs, senhor.
- Ento traga-o para c, com os dois cimaruns. Quero agradecer
pessoalmente a eles.
Quando os trs chegaram, Rodney falou-lhes com afeio e =externou sua
profunda gratido. Em seguida prometeu-lhes uma soma que os fez =perder a
fala. Na verdade, Rodney no dispunha daquele valor, mas tinha quase =
certeza que encontraria ainda muito ouro
140
nos bas do Santa Perptua. Mais tarde, suas suspeitas se =confirmaram.
Quando acharam um pequeno porto natural para ancorar com segurana, =
puseram-se a revistar a preciosa carga. Encontraram uma arca cheia =de
peas de ouro, quinze cestos de moedas de prata, trinta toneladas =de
prata em barra, duas mil libras de ouro bruto, um grande ba =contendo
mbar, marfim e coral. Noutro ba havia sedas da China, louas, =vinhos
raros, perfumes exticos, veludos, frutas secas e objetos femininos =
delicadamente pintados a mo.
Parte foi transferida para o Gavio do Mar, a fim de que os riscos =
ficassem divididos. A marujada, tomada de excitao, s fazia =admirar e
apalpar, metendo as mos com volpia nos grandes bas, sonhando =com a
parte que lhes caberia quando chegassem em casa.
com dois navios para cuidar agora, Rodney precisava de mais gente. =Mandou
os cimaruns para a costa, a fim de procurar voluntrios. No =queria saber
de escravizar ningum, embora essa fosse a prtica usual naquela =regio.
Queria voluntrios, e ainda pagar pelos servios.
Tanto os oficiais quanto Barlow, alm de considerar essa atitude
totalmente fora de propsito, alegaram que ningum se ofereceria =para
trabalhar, mesmo sendo pagos.
- ndios so indomveis e preguiosos. No gostam de =trabalhar, sir.
Perderemos tempo e dinheiro.
Contudo, no terceiro dia o otimismo de Rodney foi justificado. O cimarum =
voltou de tardinha com vinte homens, dizendo que havia mais vinte  =
espera dos dois navios numa cidade um pouco mais ao sul.
- So gente jovem, mas fortes e espertos. Prometi-lhes que seriam =pagos e
disse-lhes que poderiam confiar no senhor. A princpio ficaram
desconfiados, porque
141
nunca receberam um s tosto por qualquer trabalho, mas eu os
convenci. Esto ansiosos para virem.
- Muito obrigado pela ajuda. Sabe que meus oficiais no acreditavam =que
houvesse voluntrios?
- Aqui no h muito futuro para gente moa. Os espanhis =esto em toda a
parte, e aumentam de ano para ano. Se um pobre diabo consegue plantar =
alguma coisa, criar um ou dois porquinhos, eles vm e tomam tudo. =Atacam,
queimam e obrigam os mais fortes a serem seus escravos, seja em navios, =
seja nas minas. Assim, esses moos querem trabalhar, ganhar e voltar =com
algum dinheiro. Confiam em voc, porque  amigo de nosso amigo, =sir
Francis Drake.
Quando Rodney se sentou para jantar, Lizbeth notou que ele estava
satisfeito consigo mesmo. Os candelabros lanavam sua luz sobre a =baixela
reluzente.
Dom Miguel jantou com eles e foi tratado com toda a cortesia que =Rodney
aprendera quando a bordo do Golden Hind. Dom Miguel falava ingls
fluentemente e os dois ouviram com interesse o que ele contou. Esta =era
sua primeira viagem. O pai havia-o enviado para inspecionar suas
propriedades, na esquadra espanhola, onde era dono de alguns =galees
iguais ao Santa Perptua. Falou-lhes um pouco a respeito das riquezas =que
o pai acumulara, incluindo o ouro que havia nos outros
galees.
- Por isso os espanhis so arrogantes. com toda essa riqueza, =quem no
seria? - comentou Rodney, algo despeitado.
Dom Miguel no se perturbou.
- Sempre tentamos fazer amizade com os ingleses.
- E tambm sempre tentaram nos conquistar. E ainda tentam!
142
- Amizade entre naes  como casamento. Um dos dois sempre tem =de ser
mais forte.
Rodney riu, confiante.
- Seu rei pode ter sido mais forte que Mary, mas Elizabeth  =diferente.
Nenhum homem pode com ela, assim como nenhuma outra nao pode com =a
Inglaterra.
- Isso ainda veremos, meu caro - respondeu Dom Miguel, sem =animosidade.
Lizbeth perguntou-se o que estaria acontecendo na Inglaterra. Lembrou-se =
das histrias que andara ouvindo antes de partir. Os espanhis =tinham uma
esquadra poderosssima, apelidada de Invencvel, cujos navios eram =duas
vezes maiores que o prprio Santa Perptua.
De seu lado, Rodney lembrava-se de como Drake conseguira enganar essas =
mesmas naus com a maior facilidade. Os galees, enormes e pesados, =
sofriam em virtude do prprio gigantismo e revelaram-se totalmente =
ineptos diante das fragatas leves e geis de Drake. Mais de cem =grandes
embarcaes espanholas foram destrudas desse modo em apenas um =dia!
Contudo, por uma questo de cortesia, preferiu no externar seu =
pensamento.
Era impossvel no gostar de Dom Miguel, embora ele representasse =a
essncia da alma espanhola. O fidalgo tinha um jeito polido e =atraente,
era espirituoso, culto e atencioso. Lizbeth crescera aprendendo a odiar =
aquele povo, e agora surpreendia-se conversando com Dom Miguel
alegremente. Esperava pelo momento de discutir com ele sobre algum =livro,
uma pea de teatro, at sobre cavalos de raa. Em pouco tempo, =os dois
encontraram vrios pontos em comum e discutiam-os
143
acaloradamente enquanto o sol e o vento brincavam de esconde-esconde =em
seus cabelos.
Quando o navio aportava, Dom Miguel era obrigado a recolher-se em sua =
cabine, mas em alto-mar ele tinha toda a liberdade, pois no poderia =
empreender sua fuga. Assim, o jovem espanhol conversava com Lizbeth =quase
o dia todo, ambos esgrimindo seus conhecimentos de lnguas =estrangeiras,
rindo quando um cometia erros.
Enquanto isso, os dois navios seguiam caminho costeando Darien, tocando =
portos de vez em quando. Descobriram florestas que se adensavam
continente adentro at perder de vista, cuja vegetao =luxuriante deixava
pasmos os tripulantes. Lizbeth aproveitou para conseguir inmeras =ervas
medicinais e tambm para estudar um pouco a flora e a fauna daquela =
regio, para ela to extica quanto desconhecida. Havia =tartarugas
gigantescas, cocos, bananas, abacaxis e frutos desconhecidos, de sabor =
estranho e doce. Os nativos ensinaram-os a matar, salgar e cozinhar
tartarugas, cuja carne era surpreendentemente agradvel ao =paladar.
Foram tocando outros portos e sempre conseguiam obter aves selvagens, =
porcos e galinhas para comer, at mesmo pequenos veados, que Rodney =
comprava dos nativos. Ele insistia em pagar por tudo e quase no =aceitava
presentes Em consequncia, sua fama foi-se espalhando entre as
cidadezinhas, que j o esperavam de braos abertos. Eram dois =navios
alegres, embora s vezes ainda ocorressem brigas e indisciplinas, =sempre
punidas com chicotadas, como da primeira vez que
Lizbeth vira.
Mais de uma vez Lizbeth notara a expresso de Dom Miguel ao ver os =homens
cantando, assobiando ou contando
144
piadas enquanto faziam correr a cordoalha nas adrias, ou =enquanto
remendavam velas.
- Eles parecem felizes - comentou certa tarde, de excepcional =pr-de-sol.
Lizbeth sorriu, prestando ateno na cano desafinada que =eles entoavam
a plenos pulmes.
-  verdade, esto felizes. E porque no estariam? Comeram bem, =ganharo
um belo prmio quando chegarem e sabem que a famlia no mais =passar
fome. No  razo de sobra?
De repente lembrou-se que Dom Miguel no teria nada disso. Ao =contrrio,
enfrentaria priso e talvez at tortura.
- Eu... desculpe. Estou sendo egosta, demonstrando alegria por meu =povo
ter-se apossado de seu navio.
-  "karma", nada mais.
- "Karma"? Que  isso?
- Uma expresso chinesa. Significa algo como destino, fatalidade. Mas =
tambm indica que onde h infelicidade h tambm felicidade. =Acho que 
um pouco complicado para ns, ocidentais. A ideia  que no =h mal sem
bem, ou vice-versa.
Enquanto falava, Dom Miguel fitava Lizbeth intensamente. Os cabelos dela =
haviam crescido bastante e j estavam quase do tamanho natural,
espalhando-se em massa flamejante de ouro. Sem saber por qu, Lizbeth =
sentiu-se desconfortvel.
- Voc  muito bonita - falou Dom Miguel, com voz rouca.
Lizbeth corou violentamente e comeou a gaguejar.
- Que... que est querendo... dizer? Eu no entendo...
- Pensou que podia realmente me enganar? Pois
145
olhe, acho que soube que voc era uma mulher, alis, belssima, =no
instante em que a conheci. Os ingleses so assim cegos ou esto =apenas
fingindo?
Lizbeth sentiu-se sem foras para continuar mentindo. Suspirou e
recostou-se na cadeira.
- Rodney sabe, mas s ele.
- Sempre soube que os ingleses eram estpidos, mas no a esse =ponto,
Sacramento! Tamanha beleza, um garoto?
Lizbeth riu, lisonjeada.
- Por favor, no conte a ningum. Promete?
- S se me contar sua histria. Deve ser interessante.
- Muito bem, ento escute.
Foi desfiando sua histria, ocultando o que lhe parecia suprfluo. =Deixou
de lado a histria do Dr. Keen, para evitar ressentimentos inteis =de Dom
Miguel e terminou relatando a fria de Rodney ao encontr-la no =navio, em
vez de Francis.
- E foi assim, Dom Miguel, que terminou, ou comeou, minha =historinha.
- Est gostando desse papel?
- Muito. No comeo foi meio estranho, mas agora estou acostumada.
- No entanto, se voc estivesse de vestido, a atmosfera deste barco =seria
bastante diferente. Todos os marinheiros estariam a seus ps, =tentando
agrad-la. Os oficiais lutariam galantemente entre si para sentar-se =a
seu lado. Haveria, talvez, uma espcie de competio entre =eles, mas no
briga feia. Isso seria pouco cavalheiro. Os homens trabalham melhor
quando h mulheres para incentiv-los perto.
- Se Rodney ouvisse isso, ficaria furioso. Ele  absolutamente contra =
mulheres a bordo, e eu concordo
146
com ele. S os maus capites levam mulheres consigo. E assim =mesmo, as
damas no so l muito damas de verdade...
- Os ingleses sempre me surpreenderam. Considero isso uma bobagem.
- Nem tanto.
- Ainda no compreendo como se deixaram enganar com voc, uma =moa to
bonita. Gostaria de ver voc vestida com uma das sedas que h =l embaixo.
H sedas to finas que passariam por um anel, to macias que =seu toque
parece uma carcia do vento. Uma delas  verde, da cor de seus =olhos. E
h esmeraldas tambm, especiais para pescoos iguais ao =seu.
Subitamente Dom Miguel se levantou, olhando em torno.
- Venha comigo.
Conduziu-a para a sala do capito, que estava deserta. Sem =hesitao,
tirou um quadro da parede e encontrou um minsculo boto, muito =bem
camuflado entre as dobras da madeira. Apertou-o e imediatamente surgiu =
uma abertura entre os vos quase invisveis do lambri. Lizbeth =conteve
uma exclamao abafada quando Dom Miguel retirou da abertura um =escrnio
de prata lavrada. com uma pequenina chave de ouro que trazia amarrada ao =
pescoo, abriu o estojo e entregou-o a Lizbeth. Esta ficou =literalmente
sem fala diante das jias que faiscavam dentro da caixinha. Havia =grandes
safiras de profundo azul-marinho, rubis e topzios que lembravam os =
cabelos de Lizbeth, prolas do tamanho de moedas. Dom Miguel escolheu =um
colar de enormes esmeraldas, cada uma tendo  volta milhares de
brilhantes coruscantes.
- Gostaria de ver como fica em seu pescoo. Posso?
147
- So bonitas demais... - murmurou ela, sem ouvir. - Acho que nunca =vi
nada igual.
- Veja, o colar combina com este anel e este bracelete.
- Parece que essas pedras tm um fogo estranho, como... como se fosse =um
im.
- Mas  exatamente isso, pequena. Os espanhis dizem que o fogo da =
esmeralda  to forte quanto o amor de um homem pela mulher amada. =Rubis
indicam paixo, mas para ns as esmeraldas representam algo mais =que
paixo. O amor eterno!
Dizendo isso, tirou o anel do estojo, uma grande esmeralda quadrada, =
encravada em rico engaste de ouro e brilhantes. Antes que Lizbeth se =
desse conta, o anel j estava em seu dedo.
Ela contemplou a jia, totalmente muda. Dom Miguel ergueu sua mo =e
beijou-a suavemente.
-  seu. Guarde em algum lugar bem escondido e considere-o um =presente
dado por quem a admira muito.
com inesperada violncia, Lizbeth puxou a mo.
- Como ousa pensar que eu aceitaria esse presente? - perguntou =indignada,
enquanto tirava o anel do dedo e jogava-o de volta no rico escrnio. =-
Ainda no entendeu que o que h neste navio pertence a todos? Se =eu
aceitasse esse anel, Dom Miguel, estaria roubando meus amigos! E mais =
ainda: agora que j mostrou seu esconderijo secreto, ter de =mostr-lo a
Rodney tambm.
Dom Miguel hesitou.
- Se voc no mostrar, mostro eu!
- Por favor, no se zangue comigo, pequena. Nem pensei que essas =jias
pudessem fazer parte do esplio, creia. Mas lembre-se que esse anel, =por
bonito que
148
seja, pouco vale perto dos tesouros que vocs esto levando para a =
Inglaterra. Eu apenas quis dar-lhe uma coisa que foi minha... =Esquecia-me
que nada mais tenho.
Lizbeth sentia-se tocada pela humildade com que Dom Miguel falara.
- Bem, acho que me zanguei mais do que precisava. Sua inteno foi =muito
bonita e de qualquer modo fico agradecida pela ideia, embora no =possa
ficar com nada seu.
- J ficou, pequena.
- Como, j fiquei? Devolvi tudo!
- No. Tudo, no.
- Eu... O que falta devolver? - perguntou ela aflita, olhando para as =
mos vazias.
- Meu corao.
Lizbeth prendeu a respirao, buscando um sinal de ironia na =expresso do
espanhol. Mas os olhos continuavam escuros e graves, com um fogo
estranho: o mesmo fogo que vira h pouco na esmeralda. Ainda =incrdula,
tartamudeou:
- No, Dom Miguel... no deve!
-  verdade. Apaixonei-me perdidamente por voc, pequena. Sabe que =ainda
no sei seu nome? Certamente no  Francis.
- ... Lizbeth Gillingham.
- Ah, um nome de rainha! Lizbeth, com quem passo tantas horas a fio
conversando! Ora, eu no seria homem se no me enamorasse de =algum to
encantadora como voc. No sabe que  linda?
- Eu? No, acho... acho que no sou to bonita assim.
- Pois ento fique sabendo que  belssima. Um tipo de beleza =raro,
porque vem de dentro. Enfeitiou-me
149
com esses olhos verdes, esses cabelos de fogo lquido, esse nariz
sardento e arrebitado. O engraado  que antes eu achava a mulher =inglesa
sem graa e feiosa... Agora me apaixonei por uma inglesinha linda e =
charmosa! Preciso de seu calor, Lizbeth. Estou s, desamparado, e =sinto
frio  noite.
- Mas isso no est certo... no deve falar desse
modo.
- Estamos ss, Lizbeth.
Dom Miguel chegou mais perto e ergueu-lhe o queixo, obrigando-a a
levantar a cabea e fit-lo nos olhos. Ele era muito mais alto, e =ainda
assim Lizbeth teve vontade de consol-lo. Parecia uma criana =grande. Era
um pouco parecido com Francis, estando longe de casa e sendo obrigado a =
ser corajoso, sem licena para baixar a guarda uma s vez e tendo =de
aguentar com bravura uma situao difcil por si s: =prisioneiro em seu
prprio navio, sem um nico compatriota com quem conversar.
Lizbeth esqueceu-se do rico estojo de jias. Esqueceu-se que tinha um =
inimigo diante de si e da declarao de amor que acabara de ouvir. =S
conseguia pensar que Dom Miguel era um rapaz frgil, solitrio e =triste,
que dali a alguns dias estaria numa masmorra
inglesa.
- Pobre Miguel - disse, chamando-o pelo nome pela primeira vez. - Como =
gostaria de ajud-lo!
Lizbeth deixara escapar palavras que vinham do fundo de seu =corao,
sinceras e puras, mas elas foram imediatamente mal interpretadas.
Antes que Lizbeth pudesse esboar um gesto de defesa, Dom Miguel =tomou-a
arrebatadamente entre os braos e colocou sua boca avidamente na =dela,
murmurando palavras entrecortadas de paixo.
150

CAPITULO IX
Rodney assobiava baixinho enquanto inspecionava os tonis de gua. =Fazia
um calor abrasador e o navio avanava preguiosamente sobre as =guas,
douradas de sol. Meia milha a estibordo a silhueta esguia do Gavio =do
Mar acompanhava o mesmo ritmo indolente. Barlow podia ser visto, de
cabea erguida, observando as velas murchas, aparentemente aflito com =a
falta de vento. Rodney sorriu, divertido com a impacincia do =imediato,
que odiava calmaria. Paradoxalmente, Barlow sabia manter-se calmo =durante
as mais temveis tempestades. Tipo interessante, esse Barlow! =Gadstone,
com sua algaravia regional, descrevia-o como "mestre em brincadeiras". =De
fato, Barlow estava sempre de bom humor, exceto em dia de calmaria.
Ao contrrio, Rodney estava desfrutando as delcias do cio =forado e
aspirava com prazer o ar quente da tarde. Nada que fazer, exceto esperar =
que o vento chegasse. De certa forma, isso era um bom tnico =relaxante,
principalmente depois das agitaes dos ltimos dias. com dois =navios sob
seu comando, a tenso avolumara-se consideravelmente em sua =cabea.
Acordava sobressaltado durante a noite e s se acalmava quando =enxergava
as luzernas do Gavio do Mar, navegando prximo.
As naves ainda estavam em posio de perigo e poderiam sofrer um =ataque a
qualquer momento. Havia
151
que atravessar logo a zona entre Nombre de Dis e o istmo do =Panam, pois
era quase certo que os espanhis estavam  procura do Santa =Perptua. O
sumio do nico filho do Marqus de Suavez devia estar causando =rebulio
na Espanha...
Dom Miguel comportava-se com grande dignidade e suportava muito bem a =
humilhao de ter sido capturado. Seus modos fidalgos e atenciosos =
acabaram por granjear a admirao de todos, inclusive de Gadstone. =Os
trs ltimos dias haviam sido tensos, no receio de serem atacados, =e o
mar estivera muito encrespado, como que querendo puni-los pela =audcia.
Agora a costa estava longe e o perigo maior passara, mas era preciso =
manter-se alerta o tempo todo.
Satisfeito com o estado da gua armazenada, Rodney ergueu-se e =observou
um cardume colorido. No se cansava de admirar esses peixes =irrequietos e
brilhantes, incrivelmente ariscos, que se aproximavam cautelosamente do =
casco, para em seguida fugir em louca debandada. Seus homens tentavam =
mant-los em cativeiro, fascinados que ficavam com suas cores nunca =
vistas. Mas era tudo em vo. Em poucos dias os peixes morriam; =eram
colocados em ricas bacias de prata e tratados a po-de-l, mas =logo
perdiam suas cores vibrantes e, em seguida a vida. Os marinheiros
conformaram-se e acabaram criando uma enorme tartaruga,  qual deram =o
nome de Cascudina.
Enquanto contornavam a costa, alguns compraram papagaios e tucanos, mas =
Rodney tinha pena e concitava seus homens a no tirar os belos =animais
do habitat natural.
Um canto dolente e sensual, entoado em voz rouca, chamou-lhe a =ateno.
Encarapitado no alto do mastaru, um ndio cantarolava enquanto =
consertava algum
152
estrago pequeno. Vestia uma tanga colorida e trazia uma flor atrs =da
orelha, muito grande e branca, cujo nome difcil Rodney ainda no =
decorara. A viso dessa flor branca e delicada lembrou-lhe =Phillida.
Phillida, que o deixara deslumbrado com sua pele de loua, seus =cabelos
de trigo maduro, seus olhos transparentes como gua. H quanto =tempo no
pensava nela, cus! Mas naquele cu do Caribe era difcil =recapturar a
emoo que sentira no dia em que a conhecera.
Por alguma razo, s conseguia lembrar-se da indefinvel =expresso dos
olhos lmpidos. Nada tinham que ver com o azul profundo do mar que =tinha
na sua frente. Eram antes como o cu da Inglaterra: azul, =transparente e
frio. Para ele, Phillida era a criatura mais bonita que vira em toda a =
vida, mais bela que as estonteantes russas de que Drake tanto =gostava.
Sem sombra de dvida, Phillida era a mulher mais encantadora do =mundo. E
quando ele voltasse rico, seria sua mulher! Tentou imagin-la em seus =
braos. Como seria ela na hora do amor? Voluptuosa, ardente? No, =talvez
fosse fria no comeo. Estranhamente, por mais que forasse a =imaginao,
no conseguia visualizar o rosto de Phillida, s seus olhos muito =claros,
distantes... Quando ela lhe pediu para adiar o casamento, havia medo =
neles. No, no era medo. Era alguma coisa diferente, que at =agora no
compreendera bem, mas que o deixava vagamente apreensivo.
Rodney voltou-se para observar novamente os cardumes com interesse. Os =
peixes brincavam com a pequena pinaa que Rodney e seus homens haviam =
capturado no dia anterior, que agora flutuava arrastada pelo Santa
Perptua. Rodney sorriu, lembrando-se da facilidade com que subjugara =a
pinaa e sua tripulao de seis espanhis. A pequena =embarcao estava
153
carregada de galinhas, porcos e mel, carga que foi rapidamente
transferida para o Santa Perptua. A pinaa seria destruda =mais tarde,
antes que o Santa Perptua tomasse o rumo da Inglaterra. Esse tipo de =
embarcao pequena, de fundo chato, no servia para alto-mar, =mas era de
grande utilidade perto da costa. Por essa razo, no poderia ser =deixada
intacta, pois os espanhis dela fariam bom uso.
Agora Rodney ansiava por um brigue perlfero, que sabia haver em
quantidade naquelas guas. Havia de escolher um belo colar para =enfeitar
o pescoo de cisne de Phillida, decidiu. Mas sabia, mesmo antes de =
completar o pensamento, que isso no passava de paliativo para =aliviar a
conscincia, por pensar to pouco na noiva.
"Bem,  difcil pensar em mulher quando se tem tarefas perigosas =pela
frente", consolou-se. "Quando eu voltar para casa, tudo ser =diferente.
vou ensinar Phillida a amar, a desejar, a gemer de paixo... vou
despertar nela uma nsia to avassaladora quanto a minha! Mas por =ora h
coisas mais importantes para pensar."
Sem saber por qu, de repente a calmaria comeou a dar-lhe nos =nervos.
Enxugou a testa, impaciente. O sol a pino incendiava, trazendo aquele ar =
morno e abafado como peso morto sobre os ombros. Observou o mar vidrado. =
A imensido do vazio sempre deixava-o um tanto ansioso, conquanto =no
houvesse perigo  vista.
Avistou Barlow encarapitado num dos mastros do Gavio do Mar, =examinando
nervosamente a vela. Subitamente, Rodney perguntou-se se no estaria =
exatamente como ele. Sentia desassossego e inquietude.
Onde estaria Lizbeth? A essa hora ela costumava subir no convs e =
conversar um pouco com ele. Rodney acostumara-se com sua presena; a =
risada argentina
154
no mais o irritava. Na verdade, ansiava pela hora de sentar-se =
mesa em sua companhia, principalmente depois da chegada de Dom Miguel. =
Rodney ficaria constrangido se tivesse de sentar-se sozinho com ele  =
mesa, comendo nos pratos de ouro que dias antes haviam pertencido ao =
prisioneiro. Mas a presena de Lizbeth dissolvera facilmente qualquer =
tenso. Juntos, os trs conversavam animadamente sobre os mais =diversos
assuntos.
Dom Miguel contava sobre a Espanha. Rodney retribua falando das =viagens
 volta do mundo em companhia de Drake, sem se deter nas batalhas =contra
os espanhis, por questo de polidez. Lizbeth costumava contar =sobre sua
infncia, mas tomava cuidado para no trair sua personalidade =feminina.
Falava com tanta naturalidade que o prprio Rodney esquecia-se que =no
estava diante de um rapaz.
Impulsivamente, Rodney deixou a contemplao do mar e resolveu =descer
para procur-la. Queria conversar um pouco, talvez jogar uma partida =de
domin antes do jantar, que no tardaria. Hoje haveria lulas =frescas,
regadas a um bom vinho rascante; o prato predileto de Rodney. A
perspectiva de um alegre jantar animou-o um pouco e ele apertou o =passo.
Nesse instante, parou, transfixado e incapaz de dizer qualquer coisa. =
Lizbeth estava nos braos do espanhol, que a beijava =apaixonadamente.
A mo de Rodney apertava a maaneta como se quisesse =esmigalh-la.
Lizbeth soltou-se, sem Rodney saber se por vontade prpria ou se por =
causa de sua chegada. Os trs entreolharam-se em silncio =constrangido,
Rodney na porta e os dois perto da parede, do outro lado da cabine. No =
cho, um quadro; na parede, uma abertura que Rodney logo adivinhou =ser
secreta.
155
com controle admirvel, Rodney fechou a porta e avanou =vagarosamente.
Parecia calmo, mas Lizbeth conhecia bem aquele modo de apertar as
mandbulas. Era a atitude que ele assumia pouco antes de entrar em =
combate.
Ela recuou um pouco, intimidada, enquanto sentia a fria tomar conta =do
capito.
com efeito, Rodney tivera de lutar contra si mesmo para no arrancar =a
espada da cintura e fazer o espanhol em pedacinhos. Este sorria, sem =
parecer importar-se com o olhar sombrio de Rodney, que chegou a levar a =
mo  bainha, mas conteve o gesto a tempo. Isso seria contra todos =os
cdigos de decncia e honra, pois Dom Miguel era seu =prisioneiro.
- Senor de Suaves - a voz saiu perigosamente calma -, faa-me o =obsquio
de retirar-se para sua cabine e ficar l at segunda ordem.
Dom Miguel curvou-se em sinal de respeito, embora Rodney achasse que =
havia ironia no gesto.
- vou obedec-lo j, mas antes de sair quero que saiba que meu =amor por
sua futura cunhada  honrado e bem-intencionado.
- Tenha a bondade de obedecer sem replicar, senor de Suavez - retrucou =
Rodney, fervendo.
Futura cunhada! Aquele espanhol colocava-o numa posio de =guardio,
irmo mais velho, sabe-se l o qu, de Lizbeth... Maldito =cigano!
Dom Miguel inclinou-se diante de Lizbeth, tomoulhe a mo e =beijou-a.
- Minha vida est a seus ps, senorita. Atravessou a cabine =sorrindo, mas
ao passar por
Rodney os olhares se entrechocaram como lminas de ao. Era uma =batalha
interna, mais perigosa e violenta que duelo de floretes. Antes de fechar =
a porta, o espanhol
156
apontou para o estojo de jias que jazia em cima da mesa:
- Mais um prmio para "el gran conquistador". E deixou a cabine, =cerrando
a porta sem pressa.
O mesmo silncio opressivo abateu-se sobre os dois. Lizbeth seria =capaz
de jurar que Rodney podia ouvir as batidas descompassadas de seu =corao.
Nunca em sua vida vira-o to inflexvel e severo. Pela primeira =vez,
sentiu medo dele, da tempestade que se desencadeava por trs dos =olhos
escuros. Talvez por isso mesmo, levantou a cabea desafiadoramente, =
encarando-o com uma firmeza que estava longe de sentir.
- H jias nessa caixa, Rodney - disse, sem conseguir conter um =ligeiro
tremor de voz. - Jias que voc ainda no tinha visto.
- No quero saber de jias. Quero saber de uma explicao, e =que seja
boa.
- Ele descobriu que sou mulher, no sei como. Talvez os estrangeiros =
sejam mais perceptivos que os ingleses, no sei.
- Como, no sabe? Deve ter havido um motivo, uma vez que voc diz =que no
lhe contou.
- No contei. E no tenho a menor ideia de como ele descobriu. =Para mim,
ele disse simplesmente que sabia desde o comeo. Eu... sinto muito, =
Rodney.
- Por minha f! Sente muito, que frase mais imbecil!
Embora Lizbeth estivesse esperando uma exploso, seu rosto ficou =vermelho
na mesma hora, o que serviu Para realar o intenso verde-esmeralda =dos
olhos brilhantes.
- O que fazia nos braos desse janota? No tem senso de =ridculo?
- Eu... sinto muito por isso tambm. Foi uma
157
coisa inesperada, eu... no percebi o que estava acontecendo.
- Ah, timo! Daqui a pouco voc estar na cama com ele sem =perceber
tambm. Presumo que andaram beijando-se nas minhas costas antes?
- No, nunca. Eu... nem sabia que Dom Miguel estava apaixonado por =mim.
- Cus, quanta estupidez!  nisso o que d ter uma mulher a =bordo, pelas
barbas de Netuno! Apaixonado! Menina, ele est apenas querendo =voc na
cama, nada mais, entendeu?
- No, Rodney...
- No me interrompa! - rugiu ele. - Apaixonado, hah! E o pior  =que  um
espanhol, nosso mais amargo inimigo, um homem que voc devia odiar e =
desprezar... Em vez disso, que  que nossa desmiolada faz, hem? =Atira-se
nos braos dele!
- Eu sei que devia sentir tudo isso, mas  impossvel. Sempre =pensei que
os espanhis fossem brutos e cruis, mas Dom Miguel no  =assim, sabe bem
disso. Ele no passa de um garoto que saiu de casa pela primeira vez =e
est sentido falta da famlia. Apaixonou-se por mim, s porque =no h
outra mulher para substituir a me ou a irm,  isso.
- Bonito! Agora pretende ser a protetora do maldito conquistador?  =puro
fingimento. Voc agiu como uma... uma...
- Cuidado com o que vai dizer! - atalhou Lizbeth, inflamada.
Aproximou-se e ergueu a cabea para encar-lo, pois era bem mais =baixa.
Suas pupilas muito negras boiavam no mar verde da ris, danando =com
raiva. Rodney, pela primeira vez, deu-se conta de como ela era bonita. =Os
cabelos rebeldes formavam um halo de
158
fogo brilhante em torno do pequeno rosto afogueado de Lizbeth.
- Voc  bonita - disse ele, como que descobrindo uma coisa nova. =Lizbeth
recuou, atnita. -  o demnio em pessoa!
De repente, a raiva que o consumia e queimava seu peito desde o instante =
em que entrara, no pde mais ser controlada. Estendendo as =mos, Rodney
puxou-a selvagemente pelos ombros, obrigando-a a levantar o rosto.
- Gosta de beijar espanhis? Se est to necessitada deles, =vou-lhe
ensinar como  um beijo de verdade, menina!
E antes que Lizbeth entendesse, Rodney envolveulhe a cintura com um =brao
e com a outra mo puxou com fora seus cabelos, fazendo-a gemer e =jogar a
cabea para trs. Por uma rao de segundos, ele a fitou com =expresso
estranha, totalmente desconhecida; depois curvou-se e beijou-a.
Mas esse beijo era muito diferente do outro que ele dera em Camfield. =Sua
boca machucava, mordia, e seus braos eram duas potentes argolas de =ferro
que comprimiam dolorosamente, fazendo-a arquejar em busca de ar. Lizbeth =
sentiu-se como um passarinho entre as patas de uma guia voraz: =quanto
mais se esforava para se libertar, mais forte ele a prendia. Depois =do
que lhe pareceu uma eternidade, ele afastou a boca, mas no a soltou =do
grilho.
Aterrorizada, Lizbeth fitou-o com seus grandes olhos, muito abertos.
- A mocinha quer mais? - perguntou ele, com voz rouca.
E novamente sua boca mordia, machucava, exigia, forava. Desesperada, =
Lizbeth tentava libertar-se.
159
- Rodney, por favor... por favor! No, eu lhe
peo...
Mas ele lhe sufocava os gritos com beijos cada vez mais sfregos e =
cruis. No era o Rodney que ela conhecia, de quem gostava e em =quem
confiava. Era outro, um estranho assustador.
- Rodney, eu lhe imploro! Pelo amor de Deus, mas... o que
Lgrimas de pnico comearam a correr-lhe pelos olhos, molhando =o rosto
de Rodney, escorrendo por suas bocas, salgando os beijos de tristeza e =
decepo. Ele continuava, alucinado, obrigando-a a abrir a boca, =mordendo
seus lbios com raiva.
Finalmente, pareceu acordar de repente. com uma praga obscena, =empurrou-a
para longe, violentamente. Lizbeth caiu pesadamente no cho, um =fiozinho
de sangue escorrendo do canto da boca. Soluando, tossindo e =arquejando,
totalmente cega pelas lgrimas, ela s pde ouvir seus passos =pesados e a
porta batendo com estrondo.
Por alguns minutos, permaneceu no cho, soluando perdidamente. =Mas o som
de seus prprios soluos devolveu-lhe o autocontrole e f-la =levantar-se
vagarosamente. A qualquer momento, Hapley poderia chegar para arrumar a =
mesa e isso seria um verdadeiro desastre para todos. Procurou o =leno,
secou os olhos como pde e forou-se a parar os soluos. Correu =
tropegamente para sua cabine, rezando para ningum v-la naquele =
lamentvel estado. Trancou a porta e lavou a boca uma, duas, dez =vezes. O
sangue estancara logo, mas ela parecia querer livrar-se do visgo que =
aqueles beijos odiosos haviam deixado em seus lbios. Olhou-se ao =
espelho, torturada. Como tinha gostado do quarto novo do Santa Perpetuai =
Mas agora odiava
160
aquele luxo todo, a maciez da cama, os lenis de cetim bordado, o =
colcho de penas. Queria de volta sua cabine feia e maltratada, =aquela do
Gavio do Mar, que cheirava perpetuamente a mofo e maresia. L =havia sido
feliz. Apesar de Rodney ter-se mostrado arrogante no comeo, ambos =foram
fazendo amizade aos poucos. Era bom almoar e jantar com ele. Era bom =
fazer planos para o futuro.
"E os planos deram nisto!" pensou Lizbeth, chorando de mansinho e
afundando o rosto nas cobertas macias da cama. "Deram neste sentimento =de
tristeza e infelicidade, neste sentimento de ser humilhado por algum =que
se ama..."
Lizbeth sentou-se de repente, interrompendo o choro como por encanto. =Que
 que ela tinha dito, meu Deus?
Ento, ela enxergou com clareza inequvoca aquilo que vinha =escondendo de
si mesma h dias, talvez h meses: amava Rodney! Talvez o amasse =mesmo
antes de comearem a viagem, talvez at em Camfield, naquele dia =em que
acertara seu chapu com uma flecha... E ainda no tinha percebido! =Ou,
melhor dizendo, sabia, mas fingia para si mesma que no sabia...
Que cega tinha sido, que tonta, que... Como  que no pudera =entender seu
prprio sentimento? Levou os dedos trmulos para os lbios =maltratados.
"Eu amo Rodney! Ah, meu Deus, como amo! Desde aquela vez que ele me
beijou, no meio dos lilases!"
Agora os beijos foram diferentes, brutais, quase animalescos, mas ainda =
assim Lizbeth compreendia. Como Dom Miguel, Rodney tambm sentia =falta
das mulheres que conhecera e amara. Estava irritado com o calor, a
calmaria, com a presena de Lizbeth, uma
161
intrusa em seu navio. At chegar ao ponto de ebulio. Assim, =achara um
modo de agredi-la e faz-la sofrer, porque ela tambm o fazia =sofrer, de
certa forma.
Recomeou a chorar, agora de tristeza. Eram lgrimas suaves, as de =uma
mulher apaixonada que sabe que seu amor est inacessvel. Eram =lgrimas
de dor incurvel pelo homem que no a queria.
Rodney amava Phillida, disso ela no tinha dvida. Phillida s =pensava em
ser freira, enquanto ela amava Rodney, que amava Phillida... Lembrou-se =
de seus sonhos de adolescente, que agora lhe pareciam longnquos. =Sempre
imaginara que um dia amaria e seria amada por um homem muito especial, =
corajoso e leal. Nesse dia ela havia de render-se a ele como uma =cidadela
tomada pelo conquistador. Casariam e seriam felizes. O sonho terminava =
com sinos repicando...
Como era diferente e amarga a realidade! Lizbeth chorava porque estava =
s, porque seus braos ansiavam pelos do homem que acabara de =atir-la ao
cho, pelo homem que a destestava e que jamais retribuiria seu amor. =
Nessa hora, Lizbeth sentiu que crescera e tornara-se adulta. No era =mais
a criana que corria nos prados de Camfield atrs de borboletas e =
veadinhos, que gostava de pregar peas  madrasta e vivia metida =em
encrenca porque desobedecia sempre. Agora, ela era Lizbeth, a mulher, =
sentada na cabine de um navio capturado, perdido no meio do Caribe.
Lizbeth, a mulher, que agora conhecia as penas do amor no =correspondido,
do amor intil que dava a algum que no podia retribuir. Em =pouco tempo,
Lizbeth despertara amor em quem no amava, e luxria em quem
amava.
Viu, com clara nitidez, a diferena entre o certo e o errado, entre o =
amor e o simples desejo carnal, coisa
162
que antes no entendia direito. Sim, Rodney apenas a desejara! S =queria
seu corpo, porque estava s h muito tempo, e precisava de =mulher...
Novamente deixou-se cair na cama, mas desta vez sem soluar. =Sentia-se
simplesmente oca e vazia, sem vontade prpria. Dali a pouco viriam =cham-
la para o jantar. Teria de enfrentar Rodney e Dom Miguel. Pior seria =
ficar na cabine, contudo. No havia escapatria a bordo de um =navio, por
maior que fosse. Era preciso agir como se nada houvesse, pois teriam =
ainda pelo menos dois meses de viagem pela frente.
Pela primeira vez, Lizbeth teve vontade de apresentar-se como mulher. =
Aquela histria de bancar o rapazinho estava comeando a ficar =montona.
Hoje, em especial, ela gostaria de ser Lizbeth-mulher, a Lizbeth amada =
por Dom Miguel e desprezada por Rodney.
Por vaidade, escolheu o mais elegante colete de Francis, de cetim =azul-
claro debruado de gales dourados. As mangas bufantes estalavam em =
grossos tafets que combinavam com as meias e os botes dos =sapatos. Ao
olhar-se no espelho, Lizbeth sorriu de satisfao, mas ainda assim =
imaginou-se dentro de uma das belas sedas chinesas que Dom Miguel
descrevera  tarde. Imaginou o colar de esmeraldas  volta do =pescoo e a
grande pedra quadrada brilhando no dedo. Qual seria a reao de =Rodney?
Provavelmente a mesma de h pouco. Desejo, luxria, lascvia? =Essas
palavras, que conhecia apenas atravs de livros, agora eram suas =velhas
conhecidas. Ou talvez ele repetisse aquela frase que apanhara Lizbeth =
totalmente desprevenida: "Voc  bonita!"
Podia ter sido uma frase carinhosa, boa de se ouvir. No entanto, a voz =de
Rodney soara to estranha, to rouca!
163
"Bem", suspirou, "Rodney  de Phillida, minha meia-irm. Esto =noivos e
vo casar, quer ela queira ou no, porque papai no admitir =outra coisa.
Alm do mais, Phillida vai acabar se apaixonando por ele. Afinal, =Rodney
 de partir qualquer corao, mesmo o de uma freira."
Finalmente, Lizbeth escovou os cabelos macios e atirou a cabea para =
trs. "Chega de bancar a histrica, mocinha. Coragem, vamos!"
Podia cometer muitos erros, mas no era covarde. Enfrentaria Rodney e =Dom
Miguel, fosse como fosse, doesse o que doesse. E como doa!
Atravessou o corredor, tratando de ganhar foras. Parou um pouco em =
frente da porta, respirou fundo, bateu e entrou.
Rodney e Dom Miguel j a esperavam em frente da mesa posta. Ambos =estavam
plidos e muito quietos. Nenhum dos dois parecia muito  vontade. =Assim
que Hapley entrou com uma sopeira fumegante, Rodney sentou-se 
cabeceira, sem nada dizer. A refeio foi feita inteiramente em =silncio
e Lizbeth, mais tarde, seria incapaz de dizer o que havia comido. =Somente
depois que Hapley serviu o ltimo clice de licor e retirou-se = que
Rodney pigarreou forte e impaciente. Esvaziou o  clice e depositou-o =na
mesa, sem muita delicadeza. Lizbeth reuniu coragem, sabendo que o =que
viria no seria nada agradvel.
- Estive conversando com o senor de Suavez. Expliquei-lhe que, j que =ele
no consegue portar-se como cavalheiro, no mais ter liberdade =neste
navio. Poder comer conosco, mas o resto do tempo ter de =pass-lo em sua
cabine. A porta vai ficar trancada e um sentinela ficar de vigia =noite e
dia. Em face disso, a senhora; creio que no h necessidade de =cham164
Ia de Francis em frente de Dom Miguel; a senhora, repito, est
absolutamente proibida de manter qualquer contato a ss com o
prisioneiro. Se quiser falar com ele, ter de faz-lo na minha =frente, ou
de outro oficial.
- Mas... Rodney, isso  injusto! Dom Miguel nada fez para me ofender. =Se
ele falou de amor, o problema  meu e dele. No tem nada que ver =com
voc!
- Est enganada, senhora. Tem muito que ver comigo.
Lizbeth viu as tmporas comeando a latejar e entendeu. A calma de =Rodney
no passava de pose. Estava to bravo quanto antes, quando atirara =
Lizbeth no cho.
- A senhora  minha hspede de honra e o senor de Suavez, meu
prisioneiro. Eu estaria dentro de meus direitos, se mandasse p-lo a =
ferros no calabouo do poro; alis, o do Santa Perptua = bem pior que o
do Gavio do Mar. Pelo visto, os espanhis tratam mal seus =prisioneiros!
Bem, como eu dizia, poderia mandar prend-lo agora. Por decncia e =
cortesia, deilhe liberdade a bordo e um lugar em minha mesa. Esse =senhor,
porm, abusou de minha generosidade e tentou
seduzir uma mulher inglesa, minha hspede de honra e o que  =pior-, a
filha do homem que me proporcionou esta viagem.
- Continuo dizendo que voc est sendo injusto
- repetiu Lizbeth, teimosamente. " tudo ou nada!" decidiu. - Dom =Miguel
no tem culpa de encontrar uma mulher a bordo. Esse erro  meu, =no dele.
Se algum aqui deve ser punido, esse algum sou eu.
- Est falando um amontoado intil de tolices, minha senhora. =No tenho
vontade de discutir. J disse ao senor de Suavez o que queria e ele =me
entendeu muito bem. Um guarda j est de sentinela na porta
165
da cabine do prisioneiro e de l no sair at que Dom =Miguel seja
entregue s autoridades inglesas.
O jovem espanhol empalideceu um pouco, mas no protestou, nem baixou =a
cabea. Lizbeth, contudo, no queria deixar as coisas assim. Amava =
Rodney, mas no gostava de v-lo arrastado pela raiva. Bem no =fundo,
sabia que ele prprio no estava convencido de ter razo. =Estava sendo
injusto e abusando de sua prpria autoridade, sem saber conter a =ira.
- Vai haver comentrios no barco. J pensou nisso, Rodney? Os =homens
comearo a especular sobre o que aconteceu e acabaro por =descobrir que
h uma mulher a bordo, entre outras coisas. Todos ns cometemos =enganos,
e talvez Dom Miguel tenha cometido um hoje, ao declarar seu amor por =mim.
Digamos que ele deveria ter controlado seus sentimentos, e eu =concordarei
com voc. Mas devo lembr-lo que outras pessoas - e desta vez =Lizbeth
encarou-o firmemente
- tambm perdem o controle e no so punidos com tanta =dureza.
Aguardou ansiosamente, seu corao parecendo querer saltar do =peito. O
argumento pareceu causar efeito em Rodney, que franziu pensativamente o =
sobrolho.
- Muito bem. Concordo, mas quero que ambos me dem a palavra de honra =de
que no vo ver-se sozinhos neste navio, em hiptese alguma. Se =quiserem
conversar, tero de faz-lo perto de algum que possa =ouvi-los.
- Eu concordo - aquiesceu Lizbeth prontamente.
- Dom Miguel e eu nunca ficaremos sozinhos. E quando conversarmos,
cuidaremos que haja algum perto,
- E, por favor, conversem o menos possvel. Tenho sua promessa, senor =de
Suarez?
166
- Tem minha palavra - foi a altiva resposta.
Seu olhar cruzou-se com o de Lizbeth, um olhar sofrido e doloroso, que =
quase f-la gritar de pena. Nada mais podia ser feito. Ela =intercedera e
Rodney havia cedido em parte. No devia mais ser provocado.
Dom Miguel levantou-se.
- Se me derem licena, vou para minha cabine.
- Licena concedida. O guarda ser removido do posto. Mas, se =estivermos
perto da costa, ele voltar a vigiar sua porta.
- Obrigado.
Depois de um rgido aceno com a cabea, Dom Miguel saiu, =deixando-os
sozinhos.
- Obrigada, Rodney.
- Nada de agradecimentos - respondeu ele, batendo na mesa raivosamente. =-
Voc j me causou dor de cabea suficiente por hoje.
Lizbeth levantou-se em silncio e parou por um instante em frente =
caixa fatdica, onde as esmeraldas repousavam, alheias ao rebulio =que
haviam provocado. A caixa estava em cima da arca, aparentemente =intocada.
Ela suspirou e encaminhou-se para a porta, quando a voz de Rodney =deteve-
a.
- Lizbeth, eu peo desculpas. - Ela se voltou, surpresa com o tom =
humilde. - Desculpe - murmurou ele de novo. - No devia t-la =tratado
daquele modo. Acho que perdi a cabea.
- Est tudo bem, Rodney, vamos esquecer - respondeu, sabendo que =mentia.
Jamais esqueceria aqueles beijos famintos.
Depois de pequeno silncio, Rodney apontou canhestramente para a =caixa de
prata:
- Voc ia falar sobre isso.
- Sim, elas estavam escondidas atrs daquele quadro.
167
Dom Miguel tinha acabado de mostr-las para mim.
- So lindssimas. Devem valer uma fortuna. Ento, nosso =espanhol
escondia-as aqui...
- Nesse painel secreto a.
- E por que razo ele teria revelado o segredo a voc?
- Bem, acho que...
- Mas  claro! Queria dar de presente a voc. Est =apaixonado...
- Eu as recusei.
- Maldito espanhol! Ele sabe to bem quanto eu que o que h neste =navio
pertence a todos.  a lei!
- Voc no encontraria essas jias, no fosse Dom Miguel ter =revelado o
esconderijo. Poderiam perder-se para sempre.
Rodney recolocou as esmeraldas no estojo, em silncio. Mas acabou =
explodindo:
- Parece mesmo apaixonado, o imbecil! E voc, Lizbeth, ficou tentada =pelo
presente?
-  claro que no, ora esta! - Lizbeth corou de indignao =com a
pergunta.
- Bem, gostaria de acreditar em voc. Talvez minha chegada tenha sido =
mais inoportuna do que imaginei a princpio.
- Acho que voc est me insultando. J lhe disse que recusei as =jias e
no h mais o que discutir. com sua licena.
Erguendo altivamente a cabea, Lizbeth atravessou a cabine, na =esperana
de ser detida novamente. Mas Rodney no se moveu; ela aguardou uma =frao
de segundo, abriu a porta resolutamente e saiu, sem olhar para =trs.
168

CAPITULO X

A marujada saudou alegremente a chegada do brigue perlfero, =cujos
gurups portavam bandeiras espanholas, agora esfarrapadas. O brigue =foi
rebocado suavemente para perto da popa do Santa Perptua e a ela
amarrado, enquanto seus ocupantes, seis espanhis mal-encarados, eram =
iados a bordo.
Vendo-os, Lizbeth encolheu-se. Desde criana, tinha essa imagem =grosseira
dos espanhis; a imagem polida e elegante de Dom Miguel, contudo, =no se
coadunava com essa ideia. Os recm-chegados avivaram-lhe a =memria;
encaixavam-se  perfeio com a figura do inimigo cruel. Eram =homens
quase bestiais, troncudos e arrogantes. Olhavam com desdm para os =
ndios, seminus que agora tambm eram iados a bordo. com =horror, Lizbeth
viu que os pobres nativos tinham as costas cheias de chagas, obviamente =
devido a torturas e chicotadas. Pareciam alquebrados e apticos, de =rosto
totalmente inexpressivo. Roney chamou o cimarum.
- Conhece esses ndios?
- No so de minha tribo. Devem ter vindo do sul.
- Esto fracos demais. Creio que pouco podero fazer para nos =ajudar.
Acha que conseguiro voltar para a terra deles, se eu deix-los na =costa?
- At as aves acham o caminho de casa.
- Ento, que seja assim.
Rodney ordenou que os nativos fossem transportados
169
de bote at a costa, mas nem mesmo essa boa notcia despertou-os =da
letargia em que se achavam. Os espanhis acompanharam o desembarque =com
chistes maldosos, insultando-os. Lizbeth estremeceu com essa
insensibilidade e lembrou-se do que Rodney lhe dissera. Seria realmente =
melhor envenenar-se a entregar-se a um bando como esse! Assim, quando =
Rodney mandou pr os seis a ferros no poro, mal conteve um =suspiro
aliviado.
A carga do brigue foi trazida ao Santa Perptua. Havia algumas barras =de
prata e muitas garrafas de timo vinho, alm de enorme =carregamento de
prolas. Grandes sacos de lona, contendo milhares dessas continhas =
reluzentes, foram encontrados na cabine do comandante. Embora valiosas, =
no eram, no entanto, o que Rodney esperava. Meio desapontado, ele =foi
pessoalmente vasculhar o brigue. Pouco depois, sua busca revelou-se
altamente compensadora. Numa lata enferrujada, escondida sob o =colcho,
Rodney encontrou seis prolas que lhe tiraram o flego. Enormes, =
perfeitas, dignas de uma imperatriz, as seis contas produziam reflexos =
irisados que iam do rseo ao cinzaescuro; verdadeiras raridades de =
colecionador.
Feliz com o precioso achado, Rodney guardou-o em sua prpria cabine e =
enviou sinais ao Gavio do Mar, chamando Barlow. Este no se fez =de
rogado, e dez minutos depois conversava animadamente com o comandante. =
Lizbeth observou-os de longe. Sabia que discutiam a volta  =Inglaterra,
embora Rodney no lhe tivesse dito nada.
Na noite anterior, eles haviam atacado um pequeno povoado espanhol, =quase
deserto, situado numa angra muito bem protegida pelas montanhas.
Conquanto no houvesse nenhuma embarcao ancorada na angra, =o
170
cimarum advertira Rodney de que, com certeza, havia tesouro guardado na =
povoao.
Enviaram ento dezoito arcabuzeiros para vigiar a estrada e impedir a =
retirada do inimigo. Depois, Rodney levou o Santa Perptua para a =angra,
sabendo que os poucos espanhis que se achavam em terra pensariam =tratar-
se de uma nau amiga. Somente depois de ancorar e de enviar a =tripulao 
terra  que a bandeira inglesa foi iada no mastaru.
Houve alguma luta corpo-a-corpo, mas o inimigo estava em evidente =posio
de inferioridade. Rodney presenteou-os com um par de canhonaos e =isso
foi o quanto bastou para os minguados espanhis renderemse
incondicionalmente.
Como Rodney esperava, a povoao no passava de simples =entreposto, de
pouca importncia comercial na rota do ouro. Ainda assim, pde =arrebanhar
diversas barras de ouro e prata, um saco de moedas, objetos de porcelana =
e muitas peas de fina seda contrabandeada do oriente. Encontraram =ainda
toras de cedro e armas de fogo de excelente feitura.
Depois de abastecerem o Gavio do Mar e o Santa Perptua, =puseram-se ao
largo. Agora as duas naus estavam abarrotadas e Lizbeth tinha quase
certeza de que Rodney conferenciava com Brio sobre a volta. Ouviu =
Gadstone murmurar para os companheiros:
- Estou a cheirar volta  rica terrinha...
- Deus te oua, companheiro.
-  certo que vamos, ora se no! O que urge  chegar,  =topar terra, que
j trago as pernas feito manteiga de tanto bamboleio. J preciso =de uma
cama de casal, com uma galega bem fornida dentro...
A gargalhada rompeu estrepitosa, enquanto os marujos debandavam
alegremente.
171
Sim, voltariam, com certeza. Lizbeth ps-se a pensar em Camfield. =Como
estaria Francis?
Nesse instante Dom Miguel chegou de mansinho, provavelmente para tomar =
ar, pois estivera confinado na cabine. Certificando-se de que Gadstone =
estava perto e poderia ouvi-los, sorriu polidamente para o espanhol.
- Ento, parece que vocs conseguiram mais uma captura.
-  verdade. Um brigue carregado de prolas, para ser exata.
- Ento a "caa" deve ter sido boa.
- Isso eu no sei - mentiu Lizbeth, ligeiramente magoada com o tom =
irnico de Dom Miguel.
Na verdade, no havia razo para manter segredo sobre as seis =belas
prolas; porm, de alguma maneira, Lizbeth via-se compelida a =no falar
muito sobre os xitos de Rodney. Talvez compreendesse melhor os
sentimentos de Dom Miguel, agora que sabia o que era um amor no
correspondido. Ele tambm queria ser admirado, tambm queria =mostrar a
Lizbeth que sabia lutar e vencer. Por isso, ela no se importou muito =com
a nota de amargura da voz do prisioneiro.
- Hawkhurst navega com a bno de todos os deuses, pelo que =vejo. A
sorte parece pousada em seus ombros o tempo todo.
- Bem, ns ainda no chegamos em casa. Muita coisa pode ainda =acontecer.
Dom Miguel olhou rapidamente para Gadstone, que, embora observasse com =ar
atento os botes que voltavam da costa, estava obviamente interessado na =
conversa dos dois. Retrucou em espanhol:
- E quando chegarmos quilo que voc chama de "casa", nunca mais a =verei
de novo. Penso nisso noite
172
e dia, Lizbeth. Sou prisioneiro em meu prprio navio e no entanto =sinto-
me feliz, porque voc est perto de
mim.
- Shh,  preciso ter cuidado!
Lizbeth mal soprou as palavras, assustada. Levantou-se vivamente e
caminhou at a porta, tratando de afastar-se o mais possvel de =Gadstone.
Dom Miguel seguiu-a, e ambos ficaram observando as ondas, enquanto o =
vento desordenava-lhes o cabelo. Ele murmurou maciamente:
- Eu te amo.
- Se Rodney ouvir, voc vai ficar confinado at o fim da =viagem.
- Ele age assim porque est com cime.
- No, no  cime.
"Mas como seria bom se fosse!" pensou. Ultimamente Rodney andava
irritadio e impaciente. O amor que sentia por ele atrapalhava o =juzo
que podia fazer do capito. O gnio de Rodney era complexo e
imprevisvel. Lizbeth sabia no ter poder nenhum sobre ele, ao =contrrio
de Dom Miguel. Ela mal reconhecia no sisudo capito o companheiro de =
antes, galhofeiro e brincalho.
Era bem verdade que, logo no incio da viagem, Rodney estivera =aborrecido
e mal-humorado, mas depois tornara-se amistoso. Agora, mal pronunciava =
algumas palavras, sempre ferinas e recheadas de frio sarcasmo, muito =pior
do que se explodisse em palavres. Sobretudo, havia qualquer coisa de =
desdenhoso no seu modo, como se ele a desprezasse. Mil vezes Lizbeth =quis
implorar seu perdo, prometer que jamais Voltaria a falar com Dom =Miguel.
E voltara atrs outro tanto, impedida pelo prprio orgulho. No =queria
humilhar-se diante de nenhum homem, mesmo que estivesse
173
apaixonada. Contudo, sentia-se ferida e terrivelmente infeliz com
essa situao.
Durante as refeies, Rodney rnantinha-se num mutismo =inabalvel; quem
salvava tudo era Dom Miguel, que conversava com ela o tempo todo. Em =
outras ocasies, Rodney simplesmente ignorava-a. Era como se fosse =uma
formiga, ou, no mximo, uma escrava. Passava por Lizbeth no convs =como
se ela fosse transparente.
Em sua cabine, Lizbeth costumava chorar amargamente. O amor no lhe =
trouxera nenhum conforto, apenas solido e desesperana. Nessas =
condies, eralhe difcil no buscar alvio em outro =lugar.
"Eu te amo!"
Havia magia nessas simples palavras, mesmo que viessem de um homem a =quem
no amava. Ainda assim, Lizbeth gostava de Dom Miguel. Era um modo =
diferente de gostar, quase maternal. Tinha vontade de embal-lo, =proteg-
lo dos problemas que enfrentaria logo que chegassem  Inglaterra. Ele =era
jovem ainda, em idade e em esprito. Pelas histrias que contava, =fora
uma criana mimada, mantida pelos pais longe dos problemas normais da =
adolescncia. Dom Miguel s conhecera o lado cor-de-rosa da =vida.
Agora, via-se jogado no meio de inimigos, e esforava-se por no =perder a
dignidade, o que, alis, conseguia muito bem. Era um homem de =carter,
Lizbeth sabia, embora ainda imaturo. Qualquer mulher ficaria orgulhosa =de
ser amada por ele.
"Eu te amo".
Lizbeth nunca imaginara que trs palavrinhas to simples pudessem =vir to
carregadas de tristeza e esperana. Podiam ser ditas em ingls, =espanhol
ou russo,
174
sempre teriam o mesmo significado, o grito agoniado de um corao =
apaixonado.
Como gostaria de poder retribuir! Talvez ento ela pudesse =experimentar
alguns poucos dias de felicidade ao lado do amado. "Por qu" - =perguntou-
se, angustiada - "no posso transferir o amor que sinto por Rodney =para
este homem? Tudo seria mais fcil!"
Rodney, se soubesse de seu amor por ele, rir-lhe-ia na cara. Se  que =
pensava em algum, certamente pensaria em Phillida. E Lizbeth =continuava
a am-lo em silncio, mesmo quando ele se sentava com expresso =zangada 
mesa e tornava a atmosfera mais pesada ainda, to pesada que poderia =ser
cortada com faca. Apenas Dom Miguel parecia no se incomodar com o =gnio
irascvel do capito. Limitava-se a fitar Lizbeth intensamente, =como que
desafiando abertamente a fria de Rodney.
- Eu te amo.
A voz macia de Dom Miguel fez-se mais insistente, arrancando-a dos
devaneios. Lizbeth suspirou e virouse lentamente para responder, quando =
avistou Barlow saindo apressadamente. Ele atravessou o convs e pulou =
para um dos botes, confirmando as suspeitas de Lizbeth. Estavam =iniciando
a viagem de volta.
J ia transmitir seu pensamento a Dom Miguel, quando Rodney surgiu do =
outro lado e gritou algumas ordens a Gadstone. O navio entrou em
atividade febril logo em seguida, as amarras foram erguidas e outros =
botes foram baixados.
- Vocs vo voltar para sua terra. Sua ptria. - falou Dom =Miguel. Sua
voz estava calma, mas os olhos escuros espelhavam cansao e tristeza. =-
Esto todos felizes, posso ver. At seus olhos verdes, pequena =Lizbeth,
ficaram mais luminosos. Perdoe-me, mas enquanto
175
houver um sopro de vida em meu peito, nunca poderei esquec-la.
- Nem eu a voc. Dom Miguel. Hei de pensar muito em voc... e vou =rezar
bastante para que seja feliz.
Percebeu que suas palavras eram quase inteis e juntou =apressadamente:
- Talvez a guerra termine logo. Talvez voc no fique prisioneiro =muito
tempo, talvez a Rainha devolva voc  Espanha.
Dom Miguel soltou uma risada amarga, que fez Lizbeth voltar  =realidade.
Estava divagando, sonhando com o impossvel. No havia nem sequer =uma
Embaixada espanhola na Inglaterra! Aniquilada, Lizbeth percebeu que Dom =
Miguel apodreceria anos e anos numa priso, da mesma forma que =ingleses
agora apodreciam em prises espanholas. Que vida!
Lembrou-se de seu entusiasmo inicial, de sua vontade de lutar contra =os
espanhis. Era assim que se sentia cada ingls ao ver o inimigo, e =nada
havia para fazer quanto a isso.  claro, havia os espanhis =mal-encarados
e brutais, como os que vira no navio perlfero. Mas, ser que =no havia
ingleses assim, tambm? Dom Miguel era diferente, muito diferente... =ou
no? Talvez ela pensasse assim porque ele a amava.
Coisa estranha, a inimizade entre povos. Era fcil odiar um povo; =outra
coisa, era odiar um homem, um indivduo sado desse mesmo povo. =Lizbeth
sacudiu a cabea para afastar esses pensamentos complicados. S =sabia que
queria salvar Dom Miguel, mas como?
Nesse momento, o olhar de Rodney fuzilou-a. Seus lbios estavam
fortemente apertados, formando uma linha fina e branca. Era sinal certo =
de que estava aborrecido.
176
Instintivamente, Lizbeth recuou, afastando-se de Dom Miguel.
Os homens continuavam na faina, sob os olhos severos de Rodney. Havia =
alguma coisa em sua atitude vigilante, uma fora em sua postura, que =
subitamente despertara orgulho em Lizbeth. Estava diante de um =comandante
nato, sem sombra de dvida. Suas aes pouco ortodoxas, seu =modo de
tratar os marinheiros, conferiam-lhe uma aura indiscutvel. A =marujada
toda adorava-o, quase o idolatrava, e depositava inteira confiana =nele.
Estavam prontos a fazer o que quer que Rodney lhes pedisse.
Lizbeth comeou a perceber que Rodney enfeixava em si toda a nobreza =e
dignidade do povo ingls. Era jovem ainda, mas um dia seria mais =forte e
poderoso que Drake, Frobisher, Hawkings; enfim, todos esses nomes
lendrios de heris que trabalhavam para a Rainha. Era um dos =homens da
Rainha, e esta havia sido esperta o bastante para enxergar nele todo o =
potencial de fora emergente.
Teve vontade de gritar alto que acreditava nele, que confiava nele, que =
no tinha medo de nenhum inimigo, desde que estivesse sob sua =proteo.
No era porque o amava; eram seus gestos, suas aes, que a =induziam a
v-lo sob o prisma de grande chefe. Mas limitou-se a ficar quietinha =em
seu canto, sabendo-se pequena e insignificante em meio quele bando =de
fortes.
Rodney aproximou-se e falou, fingindo no ver Dom Miguel:
- Vamos voltar para a Inglaterra.
- Sim, eu sei. Voc conseguiu tudo o que queria, Rodney - respondeu =ela,
com admirao contida.
177
- , acho que no sentirei vergonha, quando aportarmos em =Plymouth.
- E eu, vou sentir muito orgulho; muito, mesmo, de aportar com =voc.
Rodney olhou-a intensamente, como se quisesse formular uma pergunta. Dom =
Miguel interveio:
- Em quanto tempo chegaremos?
Era uma pergunta banal, mas foi como se uma espada se interpusesse entre =
Lizbeth e Rodney. Ela no podia explicar, mas sentiu que alguma coisa =
muito bela e intangvel havia sido destruda por essa =pergunta.
Rodney custou a responder. Seus olhos ficaram mais negros quando =falou:
- Logo, senor de Suavez. com sua licena, preciso trabalhar.
Observando-o afastar-se, Lizbeth sentiu que Rodney tambm =experimentara
uma sensao de perda. A resposta a Dom Miguel fora =desnecessariamente
rude, seca demais. Murmurando uma desculpa, ela desceu para sua =cabine.
Postou-se diante do espelho com um suspiro e sorriu timidamente para a =
imagem. O nariz, reto e pequeno, estava salpicado de sardas. A pele
mostrava um tom dourado e rico de sade. Eram sinais de viagem, =fceis de
disfarar com um pouco de creme. Nada, porm, poderia disfarar =os sinais
que a mesma viagem fizera crescer em sua alma.
Amava Rodney com todas as foras.  sua simples aproximao, =o corao
parecia querer saltar-lhe do peito. Seu corpo ansiava pelo dele. Queria =
ser tocada, envolvida, apertada por Rodney. s vezes esse desejo era =to
pungente, que Lizbeth poderia jurar que todo mundo j sabia de seu =
segredo.
178
Ele estava noivo de Phillida... Como suportaria viver com ele como seu =
cunhado? Como trat-lo como irmo? Agora, que voltaria coberto de =glria,
ele poderia marcar o casamento para muito breve. Os dois morariam num =
belo castelo, porque Rodney estava rico. Ela, Lizbeth, seria obrigada a =
morar em Camfield, aturando os humores de Catherine e os abusos de
Francis.
 bem verdade que Phillida falara em tornar-se freira, mas isso =no
passava de entusiasmo juvenil. Depois de casada com Rodney, =provavelmente
se esqueceria de seus rompantes religiosos e se dedicaria com prazer aos =
deveres de me e mulher.
Me e mulher! com um soluo, Lizbeth escondeu o rosto. Como =gostaria de
ter um filho de Rodney! Como queria pertencer a ele! Lembrou-se daquela =
tarde em que fora beijada no meio de um punhado de lilases, e =lgrimas
sentidas comearam a rolar silenciosamente. Mesmo beijos brutais como =os
que recebera na cabine seriam melhor do que nenhum...
O sino tocou, lembrando-a que devia preparar-se para o jantar. Pela
primeira vez, desejou ardentemente que a viagem terminasse depressa. =
Seria melhor voltar logo para Camfield, onde poderia viver bem longe do =
fantasma daquele amor impossvel.
No ms que se seguiu, Lizbeth viu-se pensando da mesma maneira, =no uma,
mas mil vezes. Velejaram atravs do Caribe sem incidentes, =abasteceram-se
em Dominica e agora estavam a caminho das Canrias.
Os marinheiros estavam excitados e felizes, enquanto o humor de Rodney =
variava a cada dia. Ora carrancudo, ora alegre e falante, deixava =Lizbeth
de corao apertado quando comentava a chegada na Inglaterra.
179
Sensaes contraditrias de amargura e felicidade =misturavam-se
quando estava ao lado de Rodney, mesmo sabendo que ele nada sentia =por
ela. Por outro lado, era-lhe odioso saber que a cada milha =aproximavam-se
da priso do espanhol. Se ao menos ela tivesse um livro, um bordado =com
que se ocupar, a viagem seria mais leve. Contudo, nada podia fazer, =alm
de pensar, sofrer e rezar para que a tortura chegasse ao fim.
Comeou a perder a bela cor e a emagrecer a olhos vistos. Por vezes, =seus
olhos pareciam grandes demais, encravados na pele fina e plida como =um
par de esmeraldas sem vio. Rodney insistia em oferecer-lhe vinho, e =
reservava-lhe sempre o melhor bocado de carne, mas Lizbeth no =conseguia
engolir nada.
Certo dia, avistaram as Canrias um pouco antes do entardecer. Rodney =
mandou iar todo o velame, na tentativa de chegar a uma pequena =baa
antes de escurecer. Todos buscaram ansiosamente sinais de navios
inimigos, mas s havia gua  volta.
- A sorte est comigo! Precisamos de gua potvel e seria uma =pena termos
de passar ao largo das ilhas, sem aportar. Desse jeito, ser fcil =
conseguir bastante gua fresca.
- Sim, meu capito - respondeu Gadstone. Mas lembre-se de que se as =ilhas
so boas para ns, tambm o so para o inimigo. Os malditos =bastardos
podem estar ocultos mais longe.
- Se estiverem longe, no corremos perigo, meu bom Gadstone - sorriu =
Rodney. - Na verdade, eu esperava encontrar pelo menos meia dzia de =
inimigos por aqui. Talvez nosso espanhol tambm esperasse ver uma
bandeirola vermelha e amarela...
Lizbeth levantou a vista com vivacidade. A ironia
180
de Rodney dera-lhe uma ideia. Muito devagarinho, com cuidado para no =
despertar a curiosidade de ningum, atravessou o convs. Encontrou =Dom
Miguel sentado, de olhos fixos no infinito, o rosto traindo cansao e =
insegurana.
Cheia de pena, ela sentou-se a seu lado, sem se importar com a =possvel
fria de Rodney.
- Estamos perto das Canrias, Dom Miguel disse ela em voz alta, de =modo a
ser ouvida. - Voc ter que se recolher novamente  cabine.
Bem baixinho, perguntou depressa:
- Sabe nadar?
Dom Miguel olhou-a surpreendido, mas compreendeu de imediato.
- Sei.
- Bem?
- O suficiente.
- Vo abastecer os navios de gua aqui. Apronte-se para qualquer =hora, 
noite.
Era perigoso continuar. Dom Miguel aquiesceu silenciosamente e =Lizbeth
deixou-o.
O crepsculo espalhava raios de sangue sobre o mar, quando =lanaram
ncoras na baa. Tonis de gua foram lavados e esfregados, =enquanto o
Gavio do Mar aproximava-se do Santa Perptua.
O jantar foi servido mais cedo, e Lizbeth fez o que pde para =conversar
naturalmente com Rodney e Dom Miguel. Este achava-se muito tenso, o que =a
deixava nervosa e mais falante que o costume. O jantar parecia no =ter
fim, e os pratos sucediam-se s taas de vinho. Finalmente, o =guarda
levantou-se para escoltar Dom Miguel e tranc-lo.
- Boa-noite, capito Hawkhurst.
- Boa-noite, senor de Suavez.
181
Dom Miguel inclinou-se diante de Lizbeth. Seu olhar pedia-lhe que no =o
abandonasse e tivesse foras para ajud-lo.
Ela ficou algum tempo conversando banalidades com Rodney e finalmente =
levantou-se, disfarando um bocejo.
- Boa-noite, Rodney.
- Durma bem, Lizbeth. Tambm vou deitar-me agora; amanh temos =muito
trabalho pela frente.
Ela aguardou at que a porta fechou-se atrs de Rodney, e ficou =ainda
alguns minutos escutando. A luz bruxuleante das lanternas produzia
sombras misteriosas.
Quando se certificou de que Rodney j adormecera, correu rapidamente =para
a cabine de Dom Miguel. O guarda permanecia encostado na porta, de =braos
cruzados e com expresso de enfado. Havia msica e dana no =convs.
Provavelmente, o marujo ansiava por juntar-se aos colegas. Um rpido =
olhar foi o suficiente para notar que a chave ainda estava na porta.
- O capito deixou um mapa na cabine de proa
- falou Lizbeth, com naturalidade. - Pediu a voc que fosse =procur-lo e
lev-lo imediatamente para ele.
- Sim, mas... eu estou de guarda...
- Eu sei. Ficarei aqui em seu lugar, at que voc volte.
- Obrigado, senhor. Volto j.
O marinheiro espreguiou-se, pegou a lanterna e subiu apressadamente, =
rumo ao convs. Era agora uma questo de segundos contados. Abriu =
rapidamente a porta e percebeu o vulto de Dom Miguel de p,  =espera. Ele
a tomou nos braos e beijou-a ardorosamente, sabendo que talvez nunca =
mais a visse.
182
- Obrigado, meu amor, minha vida - sussurrou ele, com inusitado =fervor.
E, antes que ela se desse conta, sumiu na escurido. Segundos depois, =
ouviu-se o baque de algum caindo ngua.
Imediatamente um sentinela gritou, secundado por outros:
- Homem ao mar!
- Homem ao mar!
- ao mar!
O vigia chegou esbaforido, erguendo a lanterna.
- Que aconteceu, senHor...
A pergunta morreu-lhe nos lbios, quando viu a porta aberta.
O que se passou em seguida no ficou gravado na memria de =Lizbeth. Houve
muita confuso, muita correria e gritaria. Mas ela estava tranquila, =
porque sabia que poucos podiam nadar. Mesmo os que podiam, teriam de =
esperar ordens expressas de Rodney para atirar-se na gua.
Quando este apareceu, Dom Miguel tinha preciosos minutos de =vantagem.
- Que est acontecendo? - rugiu ele. - No falem todos ao mesmo =tempo, 
pior. Gadstone, tenha a bondade de explicar-se!
- O... espanhol...
- Dom Miguel?
- Ele, sim.
- Que tem ele?
- Fugiu.
Rodney estava totalmente incrdulo. Mas logo viu a porta da cabine =aberta
e sua expresso encheu-se de fria. No havia muita necessidade =de
explicao, porque
183
o rosto de Lizbeth j lhe dizia tudo. Ela falou, com voz firme:
- Dom Miguel forou-me, Capito.  muito mais forte que eu, =como sabe.
Nada pude fazer.
A mentira no era para Rodney, ambos sabiam. Era para os outros. =Rodney
virou-se de costas, tremendo. Lizbeth sabia que ele estava tentando se =
controlar. Mas era necessrio ir at o fim da farsa, caso =contrrio os
homens comeariam a desconfiar. Lizbeth prosseguiu:
- O mapa que voc pediu est nas mos do vigia. Afinal, a culpa =acabou
sendo desse pedao de papel!
Ela se admirou com o poder de autocomando de Rodney, que retrucou
quietamente:
- com esta escurido, nada poderemos fazer hoje. Se houver tempo =amanh,
vamos atrs dele, mas acho que nem vale mais a pena.
Sem olhar para ningum, Rodney voltou vagarosamente para a cabine. =No
ordenou a Lizbeth que o seguisse, mas ela foi atrs.  luz das =lanternas,
Lizbeth chegou a sentir medo fsico, tal a fria que se =concentrava no
rosto quadrado. Ele apertou as mandbulas e levou os punhos cerrados =para
trs, como que obrigando-se a mant-los no lugar.
- Ento, voc finalmente conseguiu - falou ele, com voz =contida.
Lizbeth simplesmente baixou a cabea. Nada havia para explicar; ele =
jamais a compreenderia. Alm do mais, aos olhos de Rodney, Dom Miguel =
portara-se como covarde fugindo da priso.
- Voc o amava, no  assim?
A pergunta tomou-a completamente de surpresa. Esperava ser acusada de =
traidora, mas nunca ouvir essa
184
pergunta. Ficou aliviada, contudo, de poder responder honestamente.
- No, eu no amo Dom Miguel. Mas tive muita pena dele.  jovem =e
inseguro. Agora poder voltar para sua famlia,
- Voc o amava, sim!
Havia desdm no tom vibrante de Rodney.
- Se isso fosse verdade, eu teria ido com ele.
Ele a olhou, raivoso. Subitamente, Lizbeth sentiu-se forte, com vontade =
de desafiar. Estava cansada de ver zanga e fria na expresso de =Rodney.
Afinal, agira de acordo com sua conscincia!
- No est contente com o que j conseguiu? Por que precisa de =um pobre
prisioneiro, que vai ter morte certa em nosso pas? Voc podia ter =sido
generoso e deix-lo na praia, como fez com aqueles nativos =maltratados.
Mas no, era preciso lev-lo para a Inglaterra, para cobrir-se de =glria!
Voc s queria inflar seu ego mais um pouco, se  que isso  =possvel.
Pois fique sabendo que j conseguiu mais do que precisa, Rodney
Hawkhurst! Dom Miguel no passa de um rapazinho. J tirou tanta =coisa
dele, no acha? Por que no deixar-lhe a vida, pelo menos? Pensa =que 
Deus para dispor assim da vida dos outros?
 medida que falara, sua indignao crescia. Rodney continuou =fitando-a
com expresso de pedra. Antes que ele abrisse a boca para responder, =
Lizbeth bateu o p com fora, jogando a cabea para trs. =Uma mecha
radiosa e vermelha caiu-lhe sobre o rosto, e ela soprou-a Para cima com =
impacincia.
- Sabe do que mais, Capito Todo-Poderoso? Acho que comeo a =detest-lo!
Voc...
No pde terminar. Um soluo cortou-lhe a palavra e Lizbeth =saiu
correndo, batendo a porta com fora.
185

CAPTULO XI

Na espessa neblina, o Santa Perptua mergulhava sua quina =raivosamente no
mar encapelado. Rodney perguntou-se mais uma vez por que no ficara =no
pequeno Gavio do Mar. L precisavam dele.
Tinham ainda oito dias de viagem pela frente, mas os homens, excitados =
com a perspectiva da chegada, s falavam na Inglaterra e na =recepo que
teriam quando aportassem em Plymouth. Havia uma urgncia impaciente =no
ar, no modo como cantavam e trabalhavam, como que acelerados por uma
fora interna e irresistvel.
No era s o pensamento da parte do tesouro que lhes caberia ao =chegar em
terra firme. Todos ficariam ricos por algum tempo, at gastarem o =ltimo
centavo, para depois verem-se forados a voltar ao mar, na =esperana de
novos tesouros. Mas Rodney sabia que no era apenas a perspectiva de =
riqueza que os deixava assim impacientes. Havia um sentimento mais
profundo bailando no ar. Talvez o receio, que todos calavam, de que =ainda
corriam risco de serem abordados e pilhados.
Singravam guas perigosas e sabiam disso muito bem. O inimigo poderia =
surgir a qualquer momento. Alm disso, havia a sombra da febre =amarela,
que assolava o convs do Gavio do Mar logo que deixaram as =Canrias. com
cautela, Rodney decidira no
186
espalhar a notcia no Santa Perptua, a fim de no semear =pnico.
Ademais, se Lizbeth soubesse da epidemia, certamente armaria a maior =
confuso a fim de ir cuidar dos doentes, coisa que ele no queria =nem
ouvir falar.
Dez marinheiros j haviam sucumbido  terrvel doena. Por =meios de
sinais, Barlow avisara-o que os nativos tambm haviam contrado a =febre.
A tripulao do Santa Perptua estava com sorte. At agora, =apenas cinco
marinheiros e sete mestios haviam morrido, o que era de admirar, =
considerando-se a grande quantidade de tripulantes. Mas a sorte era
caprichosa e poderia mudar. Rodney tinha plena conscincia de que =devia
manter-se firme e atento, at o momento em que cruzassem o canal =ingls.
Naquela manh a neblina estava particularmente cerrada. O vento frio =
assobiava e penetrava doloridamente entre as dobras do gibo de =Rodney.
"Os pobres nativos devem estar sofrendo", pensou. Acostumados ao clima =
tropical, penavam as noites frias que se amiudavam. Provavelmente, =no
ficariam muito tempo na Inglaterra. Sentiriam saudades da ptria e =
embarcariam em algum outro navio, de volta para casa.
A densa neblina mostrava focos transparentes, em sucesses
fantasmagricas. Rodney, debruado na guarda larga do convs, =aproveitou
um instante de transparncia e estudou o cu. "Escuro e carregado. =Vamos
ter chuva mais tarde. Chuva brava, ou temporal "
- Vela  vistaaa!
O grito cravou suas garras no corao de Rodney.
- Dois a estibordo! So... so bandeiras espanholas!
187
Mas Rodney j avistara dois imensos galees, to grandes quanto =o Santa
Perptua, que logo sumiram engolidos pelo nevoeiro. Talvez no =passassem
de navios mercantes, de volta a Havana. Nesse caso, estariam vazios e =no
tinham interesse para Rodney. Eram, contudo, navios espanhis, o
suficiente para deix-lo apreensivo.
- Espanhis, siri Espanhis! - gritava Gadstone, danando de =excitao.
- Sim, eu sei. Preparem-se para ao!
Gadstone nem precisou repetir a ordem. Os marujos j corriam para =suas
armas, cheios de expectativa ante uma nova refrega.
A neblina movia-se em blocos sobre o mar, de forma a ora deixar  =vista
os galees, ora encobri-los totalmente. Era como se a natureza =brincasse
de esconde-esconde com Rodney. De vez em quando, o galeo mais =prximo
avolumava-se bem perto, enquanto sua bandeira flutuava no ar,
aparentemente inocente. Rodney sorriu intimamente, satisfeito por no =ter
deixado iar nenhuma bandeira no mastro do Santa Perptua. =Esperaria at
o ltimo momento, para ento mandar iar a bandeira =inglesa.
- Firme em frente, Gadstone!
- Sim, senhor! - havia alegria na voz do marujo, como se Rodney lhe
tivesse dado um ba cheio de ouro.
Rodney chamara Gadstone para cuidar do Santa Perptua, calculando que =ele
poderia conter os nimos exaltados da marujada melhor que Barlow. =Agora
rejubilava-se com isso, pois Gadstone tinha flego de sete gatos =quando
via o inimigo pela frente.
- Onde est o Gavio do Mar, Gadstone?
- A pequena distncia, sir, logo atrs de ns. Mas
188
os espanhis ainda no podem v-lo, o que  bom para =ns.
- Sim,  melhor no esperar por ele agora. De qualquer modo,  =muito mais
rpido que ns e vai alcanar-nos mais tarde.
- Cus, os malditos galees so maiores do que eu pensava... =Eh, io-ho-
ho! - Gadstone saltava de excitao. - O da frente  maior que =o Santa
Perptua. Temos um belo tubaro, pronto para ser fisgado pela =goela...
Rodney contraiu os maxilares. Os canhes do galeo seriam =igualmente
enormes. Um tiro bem dado, e adeus Santa Perpetua! O outro navio era
pouco menor, e vinha praticamente colado ao companheiro, numa =manobra
tipicamente espanhola. Rapidamente, decidiu que o Santa Perptua =deveria
passar bem no meio dos dois.
- Retesar o cordame! Dois ns a estibordo! Artilheiros a postos.
Todos compreenderam a inteno de Rodney e obedeceram docilmente, =rindo
de satisfao. Uma abordagem prematura arruinaria o plano. =Arcabuzeiros e
arqueiros postaram-se no deque, mas Rodney ordenou-lhes que ficassem =
deitados no cho.
- S se levantem quando eu mandar. E no percam um nico tiro, =esto
ouvindo?
A neblina dissolveu-se numa lufada de vento. Rodney, de corao =
confrangido, pde enxergar os gales em toda a sua imponncia. =Grandes
redes erguiam-se em toda a amurada, para impedir abordagens. Isso Seria =
um aborrecimento a mais, caso a inteno de Rodney fosse abordar, =mas no
havia chance de o Santa Perptua conseguir abordar os dois gigantes =de
uma s vez. Havia apenas uma coisa a fazer, para a glria
189
da Inglaterra; afund-los. Ou, pelo menos, avari-los tanto que =
terminariam por afundar por eles mesmos.
Olhou para cima, apreensivo. A chuva que previra h pouco parecia que =
iria transformar-se em tempestade. Tanto melhor, os galees =afundariam
mais depressa.
Enormes como mastodontes, os galees tinham pouca mobilidade, mas =Rodney
sabia que no devia subestimar a capacidade mortfera dos =canhes que
apontavam, ameaadores, em sua direo. Percebeu ainda algumas =catapultas
armadas no convs. Nova golfada de neblina encobriu-os, para logo em =
seguida dissolver-se. As armaduras de um punhado de espanhis =rebrilharam
fugazmente na proa inimiga. Rodney divisou marinheiros grimpados a =granel
nos mastros mais altos, em busca de explicao, curiosos por ainda =no
terem recebido nenhuma resposta a seus sinais. O Santa Perptua
aproximava-se resolutamente, uma princesa entre dois gigantes.
- Iar bandeira! - gritou Rodney.
Minutos depois, um vozerio ergueu-se dos navios espanhis. Os homens =
esbravejavam e apontavam para o mataru do Santa Perptua, =gesticulando.
Era o momento azado.
- Fogo!
- Fogo! - ecoou Gadstone.
Imediatamente o Santa Perptua viu-se envolto numa nuvem de =fumaa,
enquanto seus canhes cuspiam fogo, num barulho ensurdecedor.
- No percam a rota, homens! - gritava Rodney.
- Continuem atirando! Fora, cambada!
Mas a marujada havia trabalhado bem. Aquelas longas horas sob o sol
inclemente do Caribe, gastas com a limpeza e conservao de =canhes e
armas, estavam
190
plenamente justificadas. To logo as esponjas eram retiradas, =plvora,
soquete e balas j estavam prontos para penetrar na boca dos =canhes, que
se escancarava faminta,  espera de nova rao. Arcabuzeiros e =arqueiros
atiravam freneticamente em meio ao canhoneio, numa sarabanda =infernal.
Por entre a espessa fumaa negra, Rodney vislumbrou o casco do =galeo
mais prximo e sorriu diante das enormes crateras que seus canhes =haviam
aberto nele. Eram feridas que sabia mortais. O mastro principal da nau =
balanava como palito partido; o deque era uma massa torcida de =botals e
lona rasgada, j ensanguentada. Homens mortos ou feridos eram =arrastados
para a gua; outros corriam como baratas, gritando em pnico.
O outro galeo tinha perdido o mastro de mezena e tambm exibia =vrios
buracos no casco, mas sua tripulao era mais gil. Em pouco, o =Santa
Perptua estremecia sob o impacto de um canhonao bem mirado. O =cordame
desfez-se em pedaos sobre a cabea de Rodney, caindo em chuva de =
estilhaos penetrantes. Os homens trataram de se proteger, =deitando-se. A
malagueta do leme rodava e girava em trancos secos, estalando nos =retesos
alternados das correntes. Rodney manejava-a com firmeza, enquanto
berrava:
- Levantem-se, homens de Deus! O inimigo quer fugir! Navegar a =estibordo,
depressa! Canhoneiros a postos, a bombordo! No saiam de =bombordo!
Decidira por uma manobra difcil. O Santa Perptua tinha de girar =e
assestar os canhes para a elegante Popa espanhola. Seus homens, =porm,
estavam como que possessos pelo calor da refrega. Em poucos minutos, =
conseguiram posicionar-se. O tiroteio, comandado por Rodney, foi
inclemente e ininterrupto. Acossada
191
por trs, a nau espanhola ficou em condies to ruins =quanto a
companheira; as velas jaziam como mortalhas no convs. Seus tiros =agora
saam a esmo, e pouco efeito produziam. Rodney sabia que os =espanhis,
conquanto valentes, tinham a tendncia de sentirem-se desmoralizados, =
quando se viam atacados com firmeza.
- Preparem-se para mudar de rumo! - comandou, por fim.
A tripulao urrava de entusiasmo, sabendo que a batalha =terminara. Mas
essa vitria custara caro. O deque estava destrudo; as peas =ornamentais
de madeira, feitas por mos caprichosas e pacientes, estavam =reduzidas a
estilhaos; as velas pendiam timidamente dos mastros quebrados. Acima =de
tudo, havia um punhado de bravos tombados sob o fogo espanhol. Ao =deparar
com Gadstone entre eles, Rodney mal conteve uma exclamao =horrorizada.
Seu corpo inerte, semi-escorado pelo balastre de popa, jazia
grotescamente dobrado. Enorme mancha rubra sobre o gibo, na altura =do
corao, contava silenciosamente toda a histria.
Lizbeth estava ajoelhada ao lado do corpo. Surpreso, Rodney deu-se conta =
de que ela estivera no tombadilho durante toda a ao. De fato, =logo que
tombara o primeiro, Rodney lembrava-se vagamente de que ela acorrera, =mas
no calor da refrega nem havia dado muita ateno. Observando-a =agora,
notou que tinha algumas esquimoses no rosto e que as mangas bufantes do =
bluso estavam em tiras. Um dos braos sangrava, mas parecia =no
incomod-la. Rodney aproximou-se pesadamente, e Lizbeth levantou os =olhos
cheios de lgrimas.
- Ele... se foi, Rodney.
192
- Eu sei.
- Fiz o que pude, mas o ferimento era muito fundo. Ele... ele ainda
conseguiu falar comigo antes de. antes de...
- Que foi que ele disse?
- "Demos uma bela lio nesses bastardos, no demos?" - Lizbeth =soluou.
- E depois sorriu para mim e piscou um olho... Ainda havia tanta vida, =
tanta fora nele...
- E o que voc respondeu?
- Que sim, que tnhamos ganhado a batalha lindamente, por causa de =homens
como ele. Gadstone ainda levantou a cabea e conseguiu gritar: ="Vitria!
Vitria!"
Lizbeth baixou a cabea, soluando convulsivamente. Continuou, com =voz
entrecortada:
- Fiquei com a cabea dele no colo, sem saber o que fazer. Olhei  =minha
volta, e s vi destruio... Comecei a rezar em atropelo, as =palavras
saam de minha boca e se misturavam com a gritaria dos homens... Foi =to
triste, Rodney!
Por dentro, porm, ela estava menos triste do que dizia. O capito =estava
ali a seu lado, so e salvo! S ento, Lizbeth percebeu que =suas preces
haviam sido dirigidas a Rodney, no a Gadstone. Deixou as lgrimas =
correrem livremente, sem se importar com o que os outros diriam. Tentou =
levantar-se, mas cambaleou.
- Ei, voc! - gritou Rodney, enquanto amparava Lizbeth. - Leve o =corpo do
senhor Gadstone e dos outros.
Gentil e firmemente, fez Lizbeth ficar de p e levou-a para a cabine =de
popa. Esta parecia uma caixa de Pandora. Quadros no cho, pratos e =copos
espalhados,
193
cadeiras viradas. A mesa deslizara at chocar-se contra a parede,
arrastando tudo consigo.
- Tome um gole disto. - No quero...
- Tome.
Havia alguma coisa no tom calmo de comando que a esquentou muito mais =que
o vinho que ele lhe ofereceu.
- Fique aqui sentada. Tenho de subir, mas voltarei assim que puder.
Lizbeth no quis saber de ficar. Logo que se sentiu aquecida, subiu =
atrs, encontrando Gunner no caminho.
- Quinze mortos e trinta feridos, senhor - falou Gunner, com seu pesado =
sotaque gutural.
- Onde esto? L em cima ainda?
- Alguns. Outros j foram removidos para o poro.
Lizbeth ps-se a trabalhar imediatamente, verificando com alvio =que as
condies sanitrias do Santa Perptua eram bem melhores que =as do Gavio
do Mar. Aps rpida inspeo na cabine do cirurgio, =ficou maravilhada
com os tesouros que encontrou. Os espanhis dispunham de boa =quantidade
de vinagre curativo, cujas virtudes Lizbeth bem conhecia. Havia nastros =
de timo linho para atadura e potes de cicatrizantes, pastas =misteriosas,
ervas bem embaladas.
Muito tempo depois, Rodney lembrou-se de procur-la. Ao saber que =Lizbeth
estava trabalhando, mandou cham-la.
Enquanto ia a seu encontro, ela se admirou com a presteza com que os =
homens haviam reparado boa parte da embarcao. O Santa =Perptua
balanava e arava pesadamente, mas as avarias maiores haviam sido
194
consertadas, ainda que precariamente. O contramestre dirigia um punhado =
de homens no reparo do cordame e no encaixe de mastros, enquanto =outros
remendavam agilmente as velas. Algumas j tinham sido trocadas, e
enfumavam-se orgulhosamente. O convs fora lavado, e muitos adornos =de
madeira, recolados.
Rodney aproximou-se e ambos dirigiram-se  cabine de proa. Ela abriu =a
boca para falar, quando ele a interrompeu:
- Ssst! Est ouvindo?
Lizbeth escutou atentamente, mas achou difcil detectar qualquer =rudo em
meio ao rangido das madeiras, ao uivo do vento e ao bater constante das =
ondas no casco. Foi um jovem grumete que respondeu:
- Parecem canhes! Esto bem atrs de ns! Ento, Lizbeth =ouviu. Parecia
o eco dos tiros que
haviam ferido seus ouvidos horas atrs.
-  o Gavio do Mar! Reconheo o som dele em qualquer lugar do =mundo. 
ele sim, e deve estar acabando de afundar os galees =espanhis.
A chuva caa forte quando finalmente o vigia gritou:
- Navio  vistaa!
Rodney ainda ficou alerta, esperando. Momentos depois relaxou, diante do =
outro grito:
-  o Gavio do Marl.
Um brado de vitria saiu dos peitos cansados, de ponta a ponta do =Santa
Perptua. Dos pores, outro brado ecoou das gargantas ressequidas =dos
feridos. Cheia de alegria, Lizbeth bateu palmas:
-  ele! E vem so e salvo!
Rodney virou-se, agradavelmente surpreso. O vento fustigava os cabelos =
vermelhos da moa, emoldurando seu rosto to femininamente, que =h alguns
meses ele ficaria aterrado ante a perspectiva de ver a identidade
195
de Lizbeth descoberta. Mas a emoo que o invadiu nesse momento =era
diferente. A coragem de Lizbeth deixou-o orgulhoso.
- Voc tambm, Lizbeth, est s e salva.
- Meus parabns, Rodney - disse ela, com vibrante fervor. - Voc =
conseguiu!
A admirao de Lizbeth era to genuna e transparente, que =Rodney tambm
sentiu-se transportado. Segurou-a pela cintura com ambas as mos e =f-la
danar, rindo alegremente, enquanto a chuva encharcava os dois.
- Eu no! Ns dois conseguimos, voc e eu! Juntos!
Foi como se Rodney tivesse colocado uma coroa sobre sua cabea. ="Juntos",
dissera ele. Essa simples palavra tinha gosto de glria para ela. Seu =
amor, nesse instante, foi to intenso que deu-lhe vontade de =gritar.
Os homens ainda cantavam e riam, pois sabiam que o grande perigo =passara.
O Santa Perptua tinha apenas alguns arranhes e meia dzia de =velas
remendadas; no mais, passara inclume pela batalha. Aproveitando-se =de
uma trgua do mar bravio, Barlow largou o Gavio do Mar e subiu a =bordo
do Santa Perptua, para relatar o que fizera.
- Eles atiraram em ns, sir. Quiseram destruir nosso mastaru, mas =a bala
passou por cima e caiu na gua.
-  o problema com galees muito grandes, Barlow. No conseguem =atingir
navios pequenos, quando esto muito prximos.
- Ns ouvimos o canhoneio e adivinhamos o que se passava. Quando =chegamos
perto, os galees j faziam gua por todo o lado e comeavam =a afundar.
196
Logo percebi que nenhum dos dois chegaria ao porto. Mesmo assim... dei =um
belo tiro de misericrdia em cada um.
Barlow deu uma sonora risada, secundado por Rodney.
- Fez bem, Barlow, fez bem. Mas perdemos muita gente. Preciso de =alguns
homens do Gavio do Mar.
- Sim, senhor. vou escolher entre os melhores. Em voz baixa, Rodney
perguntou:
- H muitos doentes ainda?
- No. O bom Deus vela por ns, capito! Parece que conseguimos =debelar a
febre amarela.
-  a melhor notcia que tive hoje, meu bom Barlow.
Quando a aurora rompeu, as duas naus j estavam novamente a =caminho.
Carpinteiros cuidavam de arrum-las com afinco, porque Rodney =queria
chegar com velas e bandeiras desfraldadas ao porto de Plymouth. =Pelas
escotilhas escancaradas, viam-se marinheiros na faina tmpora de =chegada.
Havia que se antecipar a mil preparativos e pormenores. Necessrio =tudo
pronto a tempo e a hora, segundo as disciplinas do mar.
Para Lizbeth, os ltimos dias passaram-se com incrvel velocidade. =No
tinha mos a medir com os doentes, e mal encontrava tempo para =respirar.
Muitas vezes era chamada s pressas em plena madrugada, mas pouco =se
importava. s Custas das mazelas com sal e emplastros de algas; =aprendera a
aplicar custicos, bichas e sangrias. Lizbeth gostava de ouvir a
algaravia complicada dos homens do mar:
- Seu moo, tenho esquinncia.
- Que  isso? - espantava-se ela.
197
-  trancao na garganta, senhor - acudia um terceiro.  =ar-de-estupor.
Coisa brava!
Lizbeth sorria, punha emplastros com drogas de cheiro acre, linimento de =
mercrio. Dos doentes, cinco no resistiram, mas os demais =encontravam-se
em franca recuperao, para grande espanto de Rodney. Os que =podiam andar
subiam ao convs em dia de tempo bom e descansavam ao sol, jogando =
cartas, cantando e sonhando. Todos ansiavam pelo momento em que
entrariam porto adentro.
- Estou a imaginar a cara do pessoal quando chegarmos l... Que =farra!
- Vo todos ralar-se de inveja!
- Eu s quero ver a cara da Mireille, a minha francesinha. Vivia =dizendo
que eu era louco, que jamais voltaria rico...
- Foi o que minha me me disse, tambm. Mulheres!
- O capito  que est com tudo. Homem de saber, aquele.  =ver como levou
tudo na flauta...
- Ele merece. Aposto que at a Rainha vai visit-lo.
- Est doido, s? A Rainha nem chega em Plymouth. O capito = que vai
visit-la, com certeza.
- Ela vai gostar do Santa Perptua. Eta naviozo bom...
Lizbeth ouvia e calava-se. Um indizvel sentimento de perda =assaltava-a a
cada momento. A viagem estava chegando ao fim. Seu amor continuava ali, =
to difcil de suportar quanto as feridas de seus doentes. Estes =estavam
a caminho da cura, coisa que a ela no aconteceria. Amaria Rodney =at o
fim da vida, sem esperana.
198
Como tinha tanta certeza disso, no sabia explicar. Tudo o que sabia =
que cada veia de seu corpo era uma parte de Rodney. Pouco importava se =
ele estivesse contente com ela, ou que a maltratasse com ironias. =Sua
alma sempre seria dele e nada, nem mesmo a morte, poderia cur-la da =
grande ferida que se abrira em seu corao.
Na ltima noite, depois do jantar, Lizbeth no pediu licena =para se
recolher, como sempre fazia. Tratou de aproveitar a companhia de Rodney; =
decidiu que ficaria a seu lado, tagarelando futilidades at as chamas =das
velas se extinguirem. Desse modo, falaram de tudo: um pouco sobre o
futuro, outro tanto sobre o passado. Recordaram minuciosamente o dia em =
que deixaram Plymouth.
- Parece que foi h uma eternidade. Quanto tempo faz, Rodney?
- Precisamente cento e sessenta e seis dias.
- Lembra-se de sua cara quando viu que era eu, e no Francis?
- Sua diabinha, claro que me lembro. No de minha cara,  claro, =mas do
susto que levei...
Recordaram pequenos e divertidos incidentes que pontilharam a viagem; =
falaram sobre araras, tribos, flores tropicais. Lembraram-se de Gadstone =
e de seu sorriso maroto.
- Gadstone queria caar peixes estranhos e formar um aqurio para =os
filhos. Queria por toda a lei.
-  verdade. Que trabalheira ele teve! E no fim, de nada =adiantou.
- Esses peixes vivem entre corais e no se acostumam ao cativeiro. =Acho
que Gadstone perdeu mais de trezentos.
- De manh, os peixinhos estavam alegres, nadavam
199
bem, aceitavam a comida que Gadstone lhes dava. De noite...
morriam.
- De tristeza?
- Talvez. Quem sabe?
- Engraado, Rodney. J reparou que  difcil acreditar =naquele cu azul,
agora que estamos chegando? Este cu  cinzento, escuro...
- Sempre foi assim. A Inglaterra  grande e poderosa, mas tem cu =cinza.
O Caribe  pobre, com cu azul.  a lei das =compensaes...
- O Santa Perptua parece menos bonito, sem aquele sol todo. Fico =
imaginando se nossa carga de tesouro tambm no vai perder o =brilho...
- No, isso j  imaginao demais. Tesouro  =tesouro!
- Talvez. Mas quando for descarregado naquele prosaico cais de Plymouth, =
vai perder muito da magia.
Rodney riu gostosamente. Lizbeth sentiu uma fisgada no peito, percebendo =
que era sua prpria tristeza que tornava tudo menos bonito. Por =alguns
minutos, acariciou a ideia de abrir-se ali mesmo e contar a Rodney que o =
amava.
Foi um instante fugaz, em que se viu nos braos dele, sendo beijada =com
doura... Virou o rosto, embaraada. Temia o momento terrvel =da
separao. Por outro lado, no conseguia ver-se dentro de um =vestido,
vivendo ao lado da madrasta. Sim, seria difcil voltar  =rotina!
Pensando bem, a viagem toda fora um belo sonho; suas dores e ansiedades =
foram postas de lado. Lembrava-se apenas da suprema alegria que sentia =
quando Rodney ria, compartilhando os momentos felizes.
Lizbeth sabia que, longe dele, nunca mais seria feliz.
200
Mas era preciso voltar a Camfield, morar com o pai, cuidar de Francis... =
deixar Rodney para Phillida.
O grande castelo do pai parecia-lhe uma priso sem graa e
insignificante, perto dos momentos gloriosos que vivera a bordo do Santa =
Perptua e do Gavio do Mar. E no entanto, no dia seguinte =estariam
aportando.
A ltima vela estremeceu, lanando sombras tristes na parede, e =terminou
por apagar. Nada mais havia para fazer, a no ser desejar boa-noite e =ir
deitar-se. Tratou de reunir todas as foras para demonstrar =dignidade,
mas no pde mover-se.
A lua jorrava forte pela janela, inundando de luar seus cabelos. Rodney =
observou-a sentada  sua frente, os cotovelos na mesa e o rosto =sardento
apoiado nas mos. A gola branca, engomada e franzida, emoldurava suas =
feies quase infantis.
- Est contente, pequena Lizbeth, com o que conseguimos?
- Voc  que conseguiu tudo, Rodney. Ningum mais, porque =ningum
conseguiria chegar at onde chegou.
- Bem... modstia no  o meu fraco. Mas tive muita sorte.
- Como, alis, eu havia previsto.
-  verdade! Agora estou bem lembrado... Ora, voc ainda ser =queimada,
como fazem com as feiticeiras! - brincou ele. - Acho que tenho um pouco =
de medo de previses.
- Medo? Quando elas no so a seu favor?
- No sei dizer. Previses, signos, horscopos... Tudo isso me =incomoda
um pouco. Alis, voc mesma me incomoda um pouco, pequena Lizbeth. =
muito imprevisvel!
- Como assim?
201
- Entrou em meu navio disfarada de rapaz.  uma mulher, e ainda =assim,
trouxe sorte para mim. Tudo ao contrrio do que eu esperava. O pior = que
se tudo no tivesse corrido bem, eu teria posto a culpa em =voc.
- Mas no foi assim. Tudo correu bem, portanto... Qual vai ser minha =
recompensa?
- Que posso dar  pequena Lizbeth? Talvez as esmeraldas?
Era a primeira vez que ele fazia referncia s jias de Dom =Miguel, desde
aquele dia. Ela respondeu com frieza:
- Elas so da tripulao toda. E de seus scios.
- Ora, eu sou um deles, no sou? Tambm sou o capito, o que me =d
direito a escolher a primeira pea da partilha. Se bem me lembro, =Francis
Drake recebeu dez mil moedas de ouro, antes que o tesouro do Golden Hind =
fosse dividido.
- De qualquer forma, no tenho vontade de possuir essas esmeraldas, =muito
obrigada. Na verdade, no quero nada. Basta-me a recordao =desta viagem.
- Essa, ningum pode tirar de voc - murmurou ele, com voz =rouca.
- Ningum.  minha, para toda a vida. Lizbeth falara em tom de =desafio,
esticando um
pouco o queixo para cima. Contudo, Rodney afagoulhe gentilmente a =mo,
num gesto que a desarmou.
- Na verdade, pequena Liz, nada posso dar que recompensasse, ainda que =de
leve, tudo o que fez por mim. Sua bondade com os feridos, sua coragem =
diante do perigo, seu modo sempre alegre... Nunca ouvi uma queixa sua, =
nem uma reclamao.
com a outra mo, Rodney ergueu sua taa:
-  sade da pequena grande Lizbeth!
202
Obrigada, Rodney.
O contato quente do capito deixava-a trmula e ofegante. Rodney =bebeu,
pousou a taa e olhou para a mo de Lizbeth.
To pequenina... e to corajosa.
Inclinou a cabea e depositou um beijo terno na pequena mo.
Muito tempo se passou envolto no silncio que caiu, encorpado, =afogando
angstias. Apenas os lbios de Lizbeth tremiam, na aflio =de procurar,
sem xito, novas palavras. Apavorada com a onda de paixo que =ameaava
extravasar-se a qualquer momento, Lizbeth retirou a mo e pegou o =copo
que tinha  frente, erguendo-o para esconder o embarao.
- Ao... futuro. Que voc tenha todos os sonhos realizados. Agora, com =
licena. Estou com sono.
- Boa-noite, pequena feiticeira. Durma bem!
Foi difcil para Lizbeth levantar-se calmamente e abrir a porta. As =
lgrimas comearam a correr, to logo ela ganhou o =corredor.
Eram lgrimas felizes, porque Rodney havia-lhe prestado uma =homenagem.
Nunca esperara tanto, e agora estava com mais medo do que nunca de
despedir-se dele no dia seguinte. Sabia defender-se quando era
maltratada, mas sucumbia imediatamente quando havia ternura e =afeio no
rosto amado.
No conseguiu dormir a noite toda. Rolava na cama, ouvindo a alegria =dos
homens que jogavam voltarete e domin, acompanhados pela msica =dolente
que ffua da gaita de um deles. Pela vigia, fuscavam mortias as =
lanternas do Gavio do Mar, a refletir tremidas pratas no marulho =
serrilhado das guas. O Gavio do Mar, reduto de belas e tristes =
lembranas.
Lizbeth enterrou a cabea no travesseiro e soluou
203
baixinho, embalada, pela ltima vez, pelo canto plangente de um
marinheiro.
No dia seguinte, as coisas no foram fceis, como  ela previra. O =Santa
Perptua passou por uma charrua, em cujo tombadilho amontoavam-se =marujos
boquiabertos, admirados com a beleza daquela nau desconhecida.
- A Rainha est viva? - gritou Rodney para eles. A pergunta fora
deliberadamente copiada de Drake,
que a fizera famosa. Drake sempre perguntava a mesma coisa, to logo =
entrava em guas inglesas.
Os espantados homens gritavam respostas entrecortadas pelo vento:
- Est viva!
- Acabamos com a raa espanhola!
- A armada deles foi destruda...
- A Inglaterra vive! - bastardos...
- somos... invencveis...
Era o suficiente. Lizbeth e Rodney entreolharam-se, aliviados. Os
espanhis haviam sido derrotados e a Rainha estava bem; mais =detalhes,
teriam quando chegassem.
Antes de avistarem Plymouth, Rodney deu ordens para tudo ficar perfeito. =
Os msicos ganharam fardas novas, extradas do inesgotvel =ba do Santa
Perptua. Esfregaram os instrumentos com sal e areia, at ficarem =tinindo
ao sol. O convs foi lavado em rduas tarefas; os mastros, por =pequenos
que fossem, receberam velas novas. Trs bandeiras inglesas foram =iadas
em meio  alegria geral. O prprio Rodney vestiu-se com redobrado =apuro,
tendo escolhido um grande chapu de plumas para completar o =traje.
Finalmente, o Santa Perptua entrou no porto sob
204
os olhares curiosos de uma pequena multido que se avolumava a cada =
instante, acotovelando-se para ver a "conquista do Corsrio Rodney". =O
povo cantava e acenava. Alguns, mais afoitos, atiraram-se na gua =para
chegar primeiro ao esquisito navio espanhol. Rodney enviou mensageiros a =
Londres, a fim de avisar em primeira-mo o que conseguira trazer para =o
pas.
Perto dos austeros navios ingleses, o Santa Perptua parecia estranho =e
fora de lugar, mas transmitia respeito e dignidade. Os marinheiros
tagarelavam sem cessar e no se fartavam de contar maravilhas sobre a =
viagem.
Mulheres, senhoras, damas, prostitutas, todas se apertavam no cais, em =
busca de novidades. Nesse torvelinho, foi fcil para Lizbeth escapar =
despercebida. Dissera a Rodney que queria dirigir-se a Camfield o mais =
depressa possvel. Ele concordara, mesmo porque ainda preferia que =
ningum soubesse que uma mulher estivera a bordo de seu navio o tempo =
todo. Ainda por cima, havia a carga para ser registrada, o tesouro para =
ser partilhado, mveis e tapearias para vender. Era muito =servio, que
devia ser feito apenas por ele. Rodney assegurara a Lizbeth que, =assim
que tudo estivesse encaminhado, seguiria imediatamente para Camfield, =a
fim de cumprimentar sir Harry.
Assim foi que Lizbeth desceu do Santa Perptua logo que pde. com =olhos
midos, pensou em Barlow, em Baxter, e em todos os outros =companheiros de
tantos meses. Gostaria de despedir-se deles, mas preferiu sair na
surdina. De qualquer modo, estavam muito atarefados para pensar =nela.
O sol estava escondido atrs de nuvens carregadas, e o dia =parecia
inspido, derramando neblina espessa
205
de chumbo no mar. Rodney tinha planejado uma escolta para =acompanh-la
na longa jornada de Plymouth a Camfield, mas Lizbeth achou melhor =no
incomod-lo. Dirigiu-se  pequena estalagem onde  estivera com =Francis
antes de embarcar, e encontrou o mesmo velhote atrs do balco. =Como j
fazia muito tempo desde que a vira, o homem julgou que Lizbeti era =Francis,
pois ela ainda usava as roupas do irmo. Ajudou-a gentilmente a =encontrar
bons cavalos e uma pequena escolta de homens, que, embora rudes
camponeses, eram leais e calados.
Quando tudo ficou pronto, Lizbeth foi dormir. Apesar de exausta, no =
conseguiu pregar os olhos novamente. Sentia falta do suave balano =do
navio, do marulho incessante, dos rangidos e estalos a que se =acostumara.
Quando a aurora raiou, encontrou-a de olhos abertos e moda. Caa =uma
chuva fina e triste quando deixou a estalagem e montou um belo cavalo =que
j a esperava na porta. Os homens cumprimentaram e montaram =tambm. A
pequena caravana tomou o caminho devagar.
Lizbeth voltou-se na sela, para lanar um ltimo olhar ao Santa =Perptua
no cais que se espraiava adiante. A chuva molhava-lhe os clios, =escorria
pela face e misturava-se s lgrimas quentes que corriam tristes. =
Lgrimas de solido e saudade, uma saudade fininha como a chuva =cinza,
que fustigava seu corao e afastava-a devagarinho do homem que =amava.
206

CAPTULO XII

O crepsculo adensava-se. As lufadas de vento e chuva pouco ajudavam =a
visibilidade. Os cavalos marchavam pesadamente agora, porque durante o =
dia todo, Lizbeth havia forado bastante a caravana. Quando ela =avistou a
estrada que levava diretamente a Camfield, sentiu necessidade =compulsiva
de forar o passo novamente. Fustigando o cavalo, deixou os outros =para
trs, sem se importar com a chuva. Pensava no cu azul que ficara =to
distante e, em seu cansao, imaginou-se no convs do Santa =Perptua,
observando o mar rolando mansamente sob seus ps. Visualizou Rodney, =
sorrindo alegremente, abanando o chapu de plumas para a multido =que o
aclamava, os olhos brilhantes, a cabea jogada para trs, dono e =senhor
absoluto do mundo, naquele instante de glria.
A imagem desvaneceu-se para dar lugar a outra. Um Rodney diferente, =porm
aquele que ela mais amava, surgiu-lhe na frente. Simples, calmo, =feies
descontradas, como sempre ficava quando achava que ningum o =estava
observando. Rodney! Rodney! Para onde quer que Lizbeth olhasse, sua
imagem perseguia-a iniplacavelmente.
Percebeu que pouco sabia de seu passado. Rodney poderia ficar horas
falando sobre Francis Drake, mas rara vezes inclua-se nessas =aventuras.
Provavelmente, tivera muitas mulheres em sua vida... Esse pensamento
207
trazia-lhe pontadas de cime, quase intolerveis. Mulheres que
deviam ter sentido por ele exatamente o mesmo que ela sentia agora.
Pelo pouco que soubera, Rodney tivera uma infncia triste e =solitria.
Sua me morrera cedo, e o pai pouco ligava para ele. Brilhante =cientista,
o velho Hawkhurst aspirava ver o filho seguir-lhe as pegadas e, quando =
percebeu que Rodney tinha outros interesses, simplesmente passara a
ignor-lo. Desdenhado pela famlia, Rodney fugira e engajara-se na =
marinha, preferindo uma vida de rduo trabalho a receber migalhas de =
afeto.
Era tudo o que Lizbeth sabia. Na certa, as tristes lembranas de sua =
adolescncia impediam-no de falar muito sobre o passado. Mas Lizbeth =
conhecia a dor de perder a me cedo, e compreendia-o perfeitamente. =
Rodney! Rodney! O vento fustigava seus cabelos e sussurrava
incessantemente o nome em seu ouvido.
S mais meia milha, e estaria em Camfield. Mas antes, precisava ir a =
outro lugar. Esperou a caravana alcan-la e ordenou:
- Esperem-me aqui. Preciso fazer uma coisa, mas no devo demorar.
A chuva diminura bastante, e tmidos raios de sol poente =despontavam
entre as nuvens. Exaustos, os homens ficaram gratos de poderem descansar =
um pouco. Apesar da fome, e de saberem que estavam perto do castelo, =no
protestaram. Tinham adivinhado que estavam lidando com algum =importante,
a julgar pelos modos autoritrios do estranho moo.
Lizbeth puxou as rdeas para a direita e conduziu o cavalo pela =estrada
lamacenta e mal-cuidada que levava para a casa do Dr. Keen.
Construda em pedras cinzentas, e plantada no meio
208
de um bosque densamente arborizado, a casa em nada atraa a =ateno. Mais
do que nunca, Lizbeth achou-a sinistra e abandonada,  luz cansada do =fim
de dia. As janelas estavam fechadas e nenhuma rstia de luz aparecia =por
elas.
Desmontou em frente  porta descascada e bateu com o cabo do chicote, =
produzindo um som cavo. A casa parecia vazia. Esperou um pouco,
impaciente. Bateu novamente, com fora. A hera crescia =desordenadamente
na fachada da casa; uma grande poa de gua estagnada a seus =ps
emprestava-lhe um triste ar de abandono.
Lizbeth comeou a sentir-se ansiosa e preocupada. Um sbito =calafrio de
mau pressentimento percorreulhe desagradavelmente o corpo. Teria o Dr. =
Keen fugido? Ser que a casa estava vazia? Mas no, ela tinha =certeza que
no. Alguma coisa avisava-a que havia algum l dentro. As =janelas
estavam fechadas, as salas mergulhadas na escurido, mas algum =estava 
espreita. Sua velha capacidade de adivinhar f-la gritar, sem saber =por
qu.
- Elita! Elita!
A nica resposta que obteve foi o silvo do vento e o sussurrar da =hera.
Mas Lizbeth agora tinha certeza do que fazia.
- Elita, quero falar com voc! Elita! Desesperada, bateu novamente. =Ouviu
o rudo macio
de uma cremona girando cautelosamente. J estava por demais escuro =para
ela enxergar qualquer coisa, mas sentiu novo alento.
- Elita! Elita!
Desta vez obteve resposta. A janela de cima abriu-se alguns =milmetros e
a voz rouca de Elita fez-se ouvir.
- Que  que voc quer?
209
- Sou eu, Lizbeth. Quero falar com voc, deixe-me entrar.
Fez-se silncio absoluto e Lizbeth percebeu que Elita ia recusar-se =a
atend-la. Admirada consigo prpria ouviu a prpria voz =comandar
autoritariamente:
- Desa j, menina.  assunto srio e no estou aqui para =brincar de
esconde-esconde. Abra, no h ningum comigo.
-  verdade? No h mais ningum com voc?
- No costumo mentir, nem repetir. Desa de uma vez!
A janela fechou-se silenciosamente e, aps alguns minutos, Lizbeth =ouviu
passos furtivos descendo. A porta, que parecia trancada h muito =tempo,
abriu-se com um gemido quase fnebre. Contudo, Elita manteve-a
semifechada e murmurou por trs dela:
- Que quer?
Lizbeth firmou a vista e divisou um rosto plido e desfeito.
- Onde est Francis?
A outra nada respondeu, mas Lizbeth juraria que vira uma sombra de medo =
perpassar-lhe os olhos negros.
- Deixe-me entrar, Elita - falou, batendo o p com impacincia. - =No
podemos ficar conversando assim.
Tentou forar a porta, mas encontrou resistncia.
- V embora. Vim at aqui porque fiquei com medo de voc =acordar algum
com sua gritaria. V embora!
- Por que est agindo desse modo? Deixe-me entrar, vamos. Estou =gelada
at os ossos.
Finalmente a porta cedeu. Ambas ficaram em silncio por algum tempo, =na
escurido que exalava mofo e angstia.
Elita acendeu um toco de vela e ergueu-o. Lizbeth
210
recuou, assustada. A outra estava doente, sem sombra de dvida. Magra =e
emaciada, tinha os olhos brilhantes de febre. Suas mos tremiam tanto =que
a vela ameaava apagar-se a todo o minuto. Totalmente diferente da =extica
Elita que conhecera, e que havia seduzido Francis!
Seu mau pressentimento acentuou-se ao ver a expresso de verdadeiro =
pnico nos olhos encovados. A pesada atmosfera, quase irreal, =transmitia-
lhe medo. Lizbeth teve vontade de fugir correndo, e foi com =dificuldade
que conseguiu perguntar:
- Onde est Francis?
Elita comeou a tremer convulsivamente. Seus dentes entrechocavam-se, =
produzindo um rudo macabro. Lizbeth tirou-lhe a vela das mos e =
espevitou-a num velho castial quebrado. Impacientando-se com o =silncio
obstinado de Elita, voltou-se com deciso para ela. Agarrou-a pelo =ombro
e sacudiu-a:
- Responda, Elita! Onde est Francis?
- Est... morto - conseguiu murmurar a outra, num sopro de voz.
Embora j esperasse por isso, Lizbeth cambaleou e agarrou-se ao =corrimo.
- Quando... quando foi isso? O que aconteceu?
- Sh! Fale baixo, pelo amor de Deus!
- Ento responda s minhas perguntas. Fale, ou fao escarcu =agora mesmo!
- Francis foi com meu pai visitar um amigo em Norhampton. Havia =uma...
reunio l, mas eles descobriram tudo... os soldados =chegaram...
Elita cobriu o rosto com mos trmulas.
- Continue, continue! Essa reunio... era uma conspirao =contra a
Rainha, eu sei. E depois?
- Todos foram julgados e condenados  morte...
211
todos. Meu pai... deu um nome falso, e Francis imitou-o. Morreram
incgnitos...
- Foram enforcados! - Lizbeth mal pde pronunciar a palavra. Sua voz =
estava completamente estrangulada de horror.
- E esquartejados em seguida...
Os olhos negros tinham um brilho insano. Lizbeth fez um esforo =sobre-
humano para continuar.
- Quando... quando foi isso?
- H um ms. Fiquei escondida aqui desde ento... Mas preciso =sair.
Algum precisa me ajudar... tenho amigos que podem ajudar... e =levar-me
de volta  Espanha. L eu estarei a salvo... longe desses malvados =que
assassinaram meu paizinho... assassinaram, assassinaram!
Elita passou a soluar histericamente.
- Quem mais sabe disso tudo? Responda, Elita!
- Como posso saber? Talvez estejam brincando comigo de gato e rato! Pode =
ser que "eles" queiram me apanhar numa armadilha. Mas se pensarem que a =
casa est vazia, ho de acabar desistindo... No quero ser =enforcada...
- Voc disse que Francis deu um nome falso, antes de ser julgado. =Quem
sabia disso?
- Ningum... exceto os que estavam naquela reunio... Mas todos =
morreram...
- Todos?
- Dois conseguiram escapar, e vieram avisar-me. Esconderam-se na casa de =
um amigo aqui por perto e saram quando os guardas desistiram de =procur-
los. Vieram aqui, contaram tudo... e me deixaram sozinha. Implorei que =me
levassem junto, mas eles no quiseram... Foram para a Espanha... Eu =quero
ir para l tambm! Oh, meu Deus! Meu Deus!
212
Lizbeth ficou alheia ao sofrimento da outra. Francis no saa de =sua
cabea. A nvoa de indiferena que se apossara dela desde o =momento em
que deixara o Santa Perptua comeou a dissipar-se, diante da =magnitude
do que acabara de ouvir. O indolente e alegre Francis, que s queria =
deitar-se ao sol e escrever poemas, estava morto.
Morto, porque deixara-se persuadir por gente traioeira, que o =conduzira
 desgraa, O meigo irmo pagava agora a pena suprema, =reservada aos
traidores da ptria.
Virou-se para a porta e ps a mo no trinco. Nada mais havia para =fazer
ali.
- Por favor... ajude-me, Lizbeth!
O apelo saiu rouco, desesperado. Lizbeth sentiu um par de mos magras =
agarrarem-lhe os ombros.
- Ajude-me!
- No posso. E mesmo que pudesse, no o faria. Voc e sua =famlia...
mataram meu irmo.
Desvencilhou-se bruscamente e saiu, sem olhar para trs. Antes de =montar,
escutou o barulho do ferrolho fechando-se. Elita ficara s novamente, =
presa de remorso e solido.
A chuva recrudescera. Pensando no irmo, Lizbeth tomou o caminho
vagarosamente. Ambos tinham sido to unidos! Lembrou-se da promessa =que
fizera  me, em seu leito de morte. Falhara miseravelmente! =Francis
jazia num tmulo sem nome, amaldioado como traidor. Rememorou o =ar
contente com que ele se despedira dela naquela estalagem de Plymouth, e =
como ficara agradecido por ela tomar seu lugar. Francis fugira da
responsabilidade mais uma vez, como sempre fizera.
Era fraco de carter, mas Lizbeth adorava-o. Para ela, Francis era =como
um filho mimado; sempre o protegera.
213
Contudo, justamente na hora em que mais precisava da irm, ela
estava a milhas de distncia! No era sua culpa, mas ainda assim =no
conseguia deixar de sentir remorso. De algum modo, devia ter conseguido =
que Francis embarcasse no Gavio do Mar, como o pai ordenara. O que =
Francis encontrou acabou sendo muito pior que a viagem, que tanto temia. =
Ele devia ter muito medo da morte... Esse pensamento dava profunda
angstia a Lizbeth. Como ele devia ter sofrido de medo e =solido!
De repente, um pensamento confortou-a como um raio quente de sol. =Francis
no revelara seu nome, o que era uma prova de coragem. No mandara =avisar
o pai, o poderoso sir Gillingham, mesmo sabendo que este o salvaria =a
qualquer preo. Lizbeth sentiu-se mais confortada, Francis =morrera
corajosamente, agora tinha certeza. Tivera sido bravo o bastante para =
permanecer annimo e salvar a honra do pai. Mesmo  custa da =prpria
vida!
"Francis morreu como um bravo" repetiu-se Lizbeth, e os cascos do cavalo =
pareciam ecoar: Como um bravo, como um bravo...
Alcanou a pequena comitiva pouco depois, e tratou de esconder bem =fundo
sua tristeza. Esse seria um segredo s dela!
- S mais meia milha e estaremos em casa. Vamos!
Os homens, cansados e calados, limitaram-se a segui-la. Quando =atravessou
o grande porto de ferro, Lizbeth pensou que dentro de instantes =estaria
diante do pai e da madrasta. Eles pergutariam por Francis, e ela no =
sabia o que responderia. Seu crebro recusava-se a trabalhar, e os =
pensamentos atropelavam-se incoerentemente, como novelo de fios
emaranhados.
Francis estava morto. Repetiu-se mil vezes essa frase, sem acreditar. =
Enforcado como um traidor ordinrio!
Lizbeth sempre suspeitara do Dr. Keen. Muitos espanhis haviam =sido
presos por conspirao, pois eram contra o regime protestante da =Rainha.
De algum modo, porm, Dr. Keen conseguira escapar sempre, sem =levantar
muita suspeita. Lizbeth evocou seus cabelos pretos, sua testa curta
constantemente enrugada, seus olhos de verruma. Ele havia sido esperto, =
mas no o bastante, afinal. E arrastara Francis consigo.
De repente, viu-se diante do grande e familiar castelo. Ergueu a =cabea e
sorriu francamente para as inmeras guas-furtadas e janelas =iluminadas.
Parecia-lhe que o castelo abria os braos, para acolher quem nascera =e
vivera ali.
Ouviu latidos e passos apressados, e o pnico assaltou-a. Voltara =para
casa, mas voltara sozinha. O que diria, meu Deus? O que diria?
Angustiada, viu-se de sbito no meio de tiros, fumaa e sangue. =Viu-se
ajoelhada, com a cabea de Gadstone pesando em seu colo. Nesse =instante,
teve uma ideia que iluminou todo o seu ser.
Agora sabia o que fazer. Desmontou e entrou, de cabea erguida, um =brilho
de desafio nos olhos.
Os criados acorreram imediatamente, e os ces puseram-se a ladrar, =
abanando as caudas freneticamente. Logo em seguida sir Harry entrou no =
grande hall, seguido de Catherine.
- Minha filha! Que alvio- ver voc de novo!
Os grandes e possantes braos envolveram-na, enquanto ele depositava =dois
sonoros beijos no rosto cansado de Lizbeth.
- Menina m! - acudiu Catherine, sorridente. Devia ser castigada por =ter
fugido desse jeito...
214
215
No havia veneno em sua voz, e Lizbeth percebeu que nunca mais teria =medo
da madrasta. Subitamente, a casa pareceu-lhe vasta demais. Que =contraste
com a cabine do Santa Perptua!
- Onde est Francis? - perguntou sir Gillingham, os olhos postos na =
porta.
Chegara o momento. Jogando a cabea para trs, Lizbeth fechou os =olhos
para abri-los logo em seguida.
- Francis est morto, papai.
Pesado silncio seguiu-se. Ela sentiu os olhos fatigados do pai sobre =
ela.
- Morto...
- Morreu lutando contra os espanhis, em nossa ltima batalha. Foi =
corajoso e nobre at o fim. Voc ficaria orgulhoso dele, se visse =como
tudo aconteceu.
- J me sinto orgulhoso, minha criana. Vejo que fala com =sinceridade.
O pai falara baixinho, quase num sussurro. Surpresa, Lizbeth notou uma =
expresso diferente nele, algo que ainda no conhecia. Era quase =uma
expresso de alvio, mas por que seria? Perguntou-se nervosamente =se sir
Harry suspeitava de alguma coisa. Mas sustentou o olhar do pai, sem
piscar.
Sim, Francis morrera batalhando. Juraria, se preciso fosse, sobre uma =
bblia. E foraria Rodney a corroborar sua histria, a qualquer =preo.
Catherine enxugou duas lgrimas furtivas, que pareceram sinceras a =
Lizbeth. Afinal, sua madrasta no era megera nenhuma. Bastava no =
confundir as coisas. Catherine era sua madrasta, apenas. Jamais tomaria =o
lugar de sua me. Mas poderia, talvez, vir a ser uma boa amiga.
- Eu gostava de Francis, Lizbeth. Pode crer.
- Eu sei, Catherine.
216
- Sinto muito pelo que aconteceu. Muito, mesmo. Sir Gillingham pigarreou =
e assoou-se com estardalhao. Depois perguntou, de chofre:
- E como foi a viagem? Quais foram os resultados?
Aliviada com a mudana de assunto, Lizbeth atirou-se fundo na tarefa =de
contar a viagem. Falou dos tesouros que haviam capturado, do Santa
Perptua, do Caribe. Explicou que Rodney estava cuidando da carga e =que
viria a Camfield logo que tudo ficasse devidamente registrado.
Sir Gillingham batia palmas enquanto escutava, parecendo deliciado. De =
vez em quando, uma sombra triste passava pelos olhos enrugados, para =
sumir logo depois. Pedia interminveis detalhes da captura do Santa =
Perptua; perguntava sem cessar sobre as prolas encontradas no =lugre e
descia a mincias:
- O que vocs comiam? Como era a roupa dos espanhis? De que cor =eram as
prolas? De que tamanho? E as velas do Santa Perptua, de que =material
eram?
Lizbeth no se fez de rogada e falou horas a fio sobre as aventuras =que
vivera. Falar sobre Rodney era um blsamo para seu corao =ferido.
- Rodney disse que... Rodney ordenou isso e aquilo... Rodney
conquistou... Rodney, Rodney, Rodney!
Era bom falar seu nome tantas vezes, reviver os meses que passara a seu =
lado. Ao mesmo tempo, pensava em como seria difcil viver daqui para =a
frente, sem t-lo por perto.
"Eu o amo, papai", queria gritar. "Eu o amo! Se ele quisesse, eu =cruzaria
o mundo todo a seu lado, descala e vagabunda, mas feliz! S Deus =sabe
que eu seria capaz
217
de morrer por ele aqui e agora... No posso mais viver sem ele!"
Em vez disso, tinha de pronunciar o nome de Rodney calmamente, e cuidar =
para que seus olhos no a trassem.
Trouxeram vinho para Lizbeth, enquanto ela ainda contava histrias. =
Finalmente, Catherine interveio:
- Meu senhor, sua filha est suja e molhada de chuva. Daqui a pouco =
serviremos o jantar, mas antes creio que seria melhor ela trocar de =roupa
e tomar um bom banho.
S ento Lizbeth teve coragem de fazer uma pergunta que h =muito tempo
vinha-lhe queimando os lbios.
- Onde est Phillida?
- Phillida! - ecoou o pai, em tom de desdm.
- No compreendo porque os cus me castigaram com semelhante =filha.
Desertou vergonhosamente seu posto! Faz-se de doente, s para no =fazer o
que deve. A estas horas, sabe onde ela estaria? Em Whitehall!
- com a Rainha? - surpreendeu-se Lizbeth.
- Exatamente. Filha, eu estava zangado. No, para dizer a verdade, =estava
furioso com voc, por ter fugido com Francis. Mas estou pronto a =perdo-
la, por causa das belas novidades que me trouxe. Porm Phillida... =essa
eu no perdoo.
- Afinal, Catherine, voc pode me explicar o que aconteceu? Papai =no diz
coisa com coisa.
- Bem, eu mesma no sei explicar direito. Ela se queixa de dores, =vive
acamada. Chamei os melhores mdicos de Londres, mas nenhum soube =fazer
qualquer diagnstico. Para mim, ela est fingindo, Lizbeth. Chora =e no
obedece a seu pai de modo nenhum.
- Quem ouve, pensa que Phillida tem um monstro de pai! - rugiu sir
Gillingham, o rosto vermelho
218
como um peru. - Qualquer moa ficaria honradssima com o convite =da
Rainha, mas no a senhorita-deusa. Ah, no! Mente e pia =lamrias como um
passarinho molhado... agarra-se quela cama como se fosse uma =tbua de
salvao, a ingrata! Atira lama e desonra em nosso nome...
- Pelo amor dos cus, expliquem-se melhor! implorou Lizbeth, =comeando a
impacientar-se.
Mas o pai, em vez de responder, deu um tremendo tapa no brao da
poltrona. Seus olhos luziam de excitao.
- Por minha espada! J sei o que fazer. Lizbeth chegou,  isso! =Ela
tomar o lugar de Phillida, pronto! A carta da Rainha dizia "sua =filha",
sem mencionar nomes. Afinal, Lizbeth  minha filha, tanto quanto
Phillida... Alis, muito mais, at...
-  uma boa ideia, meu marido. Concordo com voc.
- Ento est resolvido. Catherine, amanh mesmo comece a pr =mos  obra.
A menina precisa ter vestidos bonitos, lindos; os mais esplendorosos da =
Europa, por So Jorge!
- Pela ltima vez, querem ter a bondade de se explicar? - gritou =Lizbeth,
exasperada. - Que histria maluca  essa, logo no dia em que =chego?
Sir Gillingham olhou-a com surpresa, enfurecido com os modos =autoritrios
da filha. Uma chama de orgulho, porm, iluminou seus olhos. Mais =calmo,
explicou:
- Minha criana, voc recebeu uma grande honra. Sua Majestade a =Rainha
escreveu-me, convidando minha filha para ser uma de suas damas de =honra.
- Dama... de honra... - balbuciou Lizbeth, atordoada.
ri
219
A notcia era to inesperada, que na hora ela no sabia dizer =se era boa
ou m.
- Em Whitehall, criana. E a tonta da Phillida diz que est fraca =demais
para a viagem... que nhenhenhm, qual!
- Eu vou subir e aproveito para falar com ela. com licena, papai. =
Correu para cima e abriu a porta espalhafatosamente, sentindo sbita =
saudade da meia-irm. Nem se lembrou de bater.
Duas velas iluminavam a grande cama, encimada por pesado dossel.
- Phillida, sou eu, Lizbeth. Voltei, irmzinha!
com um grito, Phillida soergueu-se e esticou os braos para Lizbeth, =
enquanto grossas lgrimas comearam a escorrer dos lindos olhos =azuis.
- Minha querida, que  que voc tem? Est doente mesmo?
- Que bom que voc voltou, Lizbeth! No sabe a falta que me fez =durante
todo esse tempo... Mas agora, preciso desesperadamente de sua ajuda. =No
quero ir a Whitehall!
- Tudo bem, no se aflija. Isso j est arranjado.
- Arranjado?
- Papai resolveu enviar-me em seu lugar. Simples, no?
Phillida sentou-se, completamente refeita.
- Minha doce, minha boa irm! Ah, estou-me sentindo feliz pela =primeira
vez, desde que voc partiu!
- Conte-me tudo, Phillida. Estou meio tonta com as novidades.
- Tente compreender, Lizbeth. Como posso ir a Whitehall, o prprio =reduto
do protestantismo, sentindo o que sinto?
220
- Quando sa daqui, voc tinha escrito a Mr. Andrews. Ele no =veio ajud-
la?
- No. Nem sequer respondeu  minha carta. Provavelmente foi =preso... Fui
obrigada a ficar aqui, esperando que voc voltasse logo. Como =rezei,
Lizbeth!
Lizbeth achou que ela estivera esperando, na realidade, a volta de
Rodney. Afagou os belos cabelos louros e murmurou:
- Rodney voltou com todas as glrias que voc pode imaginar. =Trouxe um
tesouro imenso, e est riqussimo.
- Quando  que ele vem a Camfield?
- Logo que arranjar todos os papis em Plymouth. Mas o que tem =voc?
Ficou to plida! Deite-se, Phillida.
A outra obedeceu, fechando os olhos. Silenciosamente, Lizbeth notou =que
ela era mais bonita ainda do que imaginara. "No  -toa que =Rodney se
apaixonou" pensou. "Phillida vai acabar casando com ele, queira ou =no
queira".
- Eu vou para Londres e ficarei em Whitehall. Nem sei o que acho disso =
tudo... Mas uma coisa sei. Voc no precisa se preocupar. Est =livre!
- No. No sei qual das duas coisas  pior. No posso ver-me =como dama de
honra, mas agora, pensando bem, talvez seja prefervel a... a...
- Rodney  uma pessoa maravilhosa, Phillida.  melhor decidir de =uma vez
seu casamento com ele. Estive na companhia dele esse tempo todo e =posso
assegurar-lhe que  um homem leal e correto. O melhor marido que =voc
poderia esperar!
Cada palavra que dizia era um punhal que enfiava em seu prprio =peito.
Afastou-se um pouco, para que a irm no percebesse sua =agitao
interior, e esperou.
221
- E Francis, onde est? Est mais maduro agora?
- Oua, Phillida... Francis morreu.
- O... qu!
- Foi corajoso, irmzinha. Foi em nossa ltima batalha contra os =
espanhis...
E Lizbeth descreveu a morte de Gadstone novamente, trocando-o por
Francis. Phillida ouviu em silncio, deixando as lgrimas correrem =
livremente. Quando Lizbeth terminou o comovido relato, enxugou os =olhos.
- Que sua alma descanse ao lado dos justos, pela misericrdia de =Deus.
Deve ter sido duro para voc, assistir a tudo, sem poder fazer =nada.
- Sim, foi.
A resposta saiu seca e curta. Lizbeth levantou-se, cansada de tanto =falar
em Francis. Sua luta interna causa-lhe dor e tristeza.
- Preciso trocar de roupa e tomar banho.
- Estou muito feliz com sua volta, maninha. Mas, de certa forma, ela =
tambm piora as coisas, porque me aproxima mais de... de...
Talvez devido  extrema exausto em que se encontrava, Lizbeth =sentiu-se
subitamente irritada com as lgrimas e chiliques de Phillida. Ora, =ela
prpria chorava por dentro, por causa de Rodney e de Francis, e
controlava-se perfeitamente. E a outra, sonhando com a fria solido =de
uma austera cela de convento... Ainda por cima, catlico.
- J vou indo, Phillida. Papai est  minha espera. Quando =entrou em seu
quarto, Lizbeth suspirou
aliviada ao encontrar Nanna. Ainda assim, o cansao no a deixou =sorrir
como desejaria. Muito ao contrrio, ao ver o rosto bondoso da velha =
criada, pendurou-se em seu pescoo e chorou perdidamente, como =choraria
222
no colo da me. Nanna afagava-lhe os cabelos com ternura, sem nada =dizer
ou perguntar.
Quando os soluos comearam a espaar-se, a boa mulher falou =meigamente:
- Pronto, querida... est tudo bem!  o excitamento da volta... Se =bem
que voc bem merecia um belo castigo, sabia? Escapar daquele jeito... =E
depois mandar um recado simples e curto, desses de cortar o =corao da
gente. Um mensageiro chegou aqui e disse: "Lady Lizbeth avisa que =vai
junto com sir Francis". Ora, ora, pensa que a lua  feita de queijo, =meu
diabrete?
- Quem mais ficou preocupado? - perguntou Lizbeth, mais consolada.
Afinal, no era to desprezada por ali, como imaginara.
- Todo o mundo, ora esta! Sir Harry ps-se a esbravejar como touro =
bravio. Milady chorava e tentava consolar o marido, enquanto lady
Phillida ficou branca como um lenol com a notcia. Vai ver que = por
isso que caiu de cama... Mas aquela moa  fechada como uma ostra, =a
gente nunca sabe o que se passa dentro daquela cabecinha to bonita. =
Agora, sente-se aqui. Deixe-me ajud-la a tirar essas botas. U... =p!
Diacho, como a menina est sujinha, hem? E por que est usando a =roupa de
Francis? Tem vestidos to bonitos
- Ora, eu... sinto-me melhor assim, quando estou a bordo.  isso. =
Engraado...
- O que foi?
- Voc  a primeira pessoa que repara que estou com as roupas de =Francis.
Nem meu ai falou nada...
- Ele l ia perceber alguma coisa? Voc est toda marrom de =lama, nem d
para ver nada... Conte-me de sua viagem, ande. Estou curiosa como gralha =
velha.
223
- Gralhas velhas so curiosas? - sorriu Lizbeth.
- Bem, velhas, no sei. Disse gralha velha porque eu sou velha.
- Ento, gralhas so curiosas?
-  o que dizem, por causa do modo como costumam espiar dos galhos. =
Esticam o pescocinho, abrem o bico, como se quisessem escutar o que a =
gente fala.  exatamente como me sinto agora.
- Por onde quer que eu comece?
- Por sir Francis. Meu menino est bem? Por que no veio com a =menina?
Lizbeth suspirou. Sua tarefa estava longe de ter sido cumprida.
Delicadamente, fez com que Nanna parasse o trabalho e, acariciando a =mo
rude e calosa, contoulhe mais uma vez a morte de Gadstone. A velha aia =
chorou amargamente, sentada no cho, a cabea grisalha repousada =no colo
de Lizbeth. " duro manter uma mentira", pensava esta. "Contar a =primeira
vez, at que  fcil. Mas sustentar a histria..."
Agoniada, pensou na multido de amigos e parentes que iriam pedir-lhe =
para repetir a histria de Francis, uma, dez, mil vezes. A imagem =
fictcia do irmo-her persegui-la-ia para o resto da vida. =Teve vontade
de chorar com Nanna, mas de pura exausto. Nem sabia mais h =quanto tempo
no repousava a cabea num bom travesseiro. Agora, parecia que =todo o seu
corpo erguia-se em revolta, reclamando e exigindo descanso, vingando-se =
maldosamente do pouco-caso com que fora tratado.
- Ah, Nanna, como eu gostaria de uma bela cama, com lenis =branquinhos e
cheirando a malva, como voc sempre fazia...
- Pois v deitar-se, criana.
- No posso, hoje ser impossvel. Acho que papai
224
jamais me perdoaria se eu no descesse para jantar, eles devem =ter
encomendado pratos especiais para mim.
- Ah, isso  verdade. Lombo de cora defumado com sementes de =alecrim, 
o que temos hoje. Eu sei, porque ajudei na cozinha... a pobre Mildred =
est-se descabelando por l!
- Alm do mais, papai quer ouvir mais histrias da viagem.
- Mas assim voc no vai dormir antes da meianoite. Sabe bem como =ele
gosta de comer tarde, de ficar bebendo e conversando...
- Eu sei, Nanna. Mas  o mnimo que posso fazer. Afinal, nem me =
repreendeu por eu ter ido com Rod... s" Hawkhurst.
- Bem, seu banho est quentinho. Vamos l, garotada. Fora!
Enquanto Nanna massageava suavemente suas costas com uma esponja =embebida
em sndalo, Lizbeth pensou em Elita. Por mais que fizesse, no =conseguia
sentir pena da moa. Lizbeth venerava a Rainha, tanto quanto o =pai,
Rodney, ou qualquer outra pessoa verdadeiramente inglesa. A Rainha
personificava a prpria Inglaterra. Traidores como Dr. Keen e Elita =s
serviam para destruir tudo o que a ptria adotiva tinha de mais =valioso
para lhes dar. Cuspiam no prato em que comiam, afinal de contas.
Terminado o banho, Lizbeth sentiu-se revigorada. Olhou com ternura para =
Nanna, sua querida Nanna. Ela era rolia, bochechuda e distrada. =Devia
ter sido uma moa bonita e vaidosa, a julgar pelos olhos ainda =lmpidos.
Se no trazia cicatrizes na pele, de forma visvel, era no fundo =de si
mesma, em profundezas que o olho humano no podia penetrar, que elas =se
escondiam.
225
E deviam ser muitas, porque Nanna recusava-se a falar de sua
infncia.
Deixou-se vestir docilmente. Nanna esmerou-se em mil preparos, mas =acabou
dando-se por satisfeita.
Quando Lizbeth desceu a escadaria, teve a impresso de que era outra =
pessoa. Seu vestido de veludo era verde, cuja cauda farfalhava =suavemente
sobre as tbuas enceradas. Era to estranho sentir-se mulher =novamente,
ser acariciada por sedas... Sobretudo, o grande decote pareceu-lhe
simplesmente indecente, acostumada que estava com as altas golas
franzidas, que Nanna chamava de "rufos". Todos reclamaram do corte de =
cabelo, mas Lizbeth achara desculpa muito razovel: piolhos. De =qualquer
modo, os dedos calosos de Nanna haviam-se transformado em dedos de fada, =
pois conseguiram fazer um penteado perfeito em Lizbeth, entremeado de =
prolas.
- Lizbeth, suas sardas esto exageradamente escuras - comentou lady =
Catherine, estudando-a com olhos crticos. -  preciso usar =plen de
copo-de:leite com azeite de amndoas...
- Sim, Catherine. Pareo um ovo de tico-tico...
- Pela manh, passe creme de pepinos amassados com benjoim.
- Que maada, minha senhora! - reclamou sir Harry, batendo o p. - =Vamos
ter uma aula de cosmticos agora?
- Mas a menina no pode ir para Whitehall parecendo um... rapazinho =
campons, senhor meu marido. Estou pensando no bem de Lizbeth.
- Est bem, est bem, faa amanh seus preparados, mas =no  preciso dar
tanto detalhe.
- Eu s queria...
- Acabo de falar com Phillida - interrompeu Lizbeth,
226
com suavidade. - Ela concorda com a troca, mas aviso que no =posso
partir antes que Rodney venha nos visitar. Ele prometeu vir logo, de =
qualquer modo.
- Passou meses e meses com ele, e ainda quer v-lo. No enjoou da =cara de
Hawkhurst? - fez sir Harry, galhofeiro.
com o canto dos olhos, Lizbeth percebeu desconfiana no rosto de lady =
Catherine. Respondeu com frieza:
- No tem nada que ver uma coisa com outra, papai. Tenho comigo =alguns
apontamentos, que ele me pediu para guardar e entregar no fim da viagem. =
com a correria, esqueci-os completamente. Eu poderia dar a voc, mas =de
nada adiantaria. H anotaes que preciso explicar =pessoalmente. Por
isso, devo esperar por Rodney antes de partir para Londres.
- Deixe, meu senhor. J avisamos a Rainha, de qualquer modo, que =nossa
filha est indisposta. Mais dois ou trs dias no faro =diferena.
- Bem, isso  verdade. Ento, pode esperar Hawkhurst, criana. =Mas tenha
tudo preparado para sair no dia seguinte.
- timo, assim teremos tempo de preparar mais uma leva de vestidos - =
completou Catherine, esfregando as mos.
- Era esse ento seu interesse em que Lizbeth ficasse! - A gargalhada =de
sir Harry soava como trovo. - Vocs, mulheres, s pensam =nessas coisas.
Muito bem, desde que Lizbeth esteja a caminho logo que Hawkhurst =chegar.
- Obrigada, papai.
Seu corao estava leve como borboleta, agora. Poderia falar com =Rodney
sobre Francis, e sua morte seria motivo de orgulho para a famlia. =Para
ser bem honesta consigo mesma, Lizbeth foi obrigada a admitir
227
que tambm estava contente porque veria Rodney. Esse simples =pensamento
trazia-lhe calafrios gostosos. Desde que chegara, no conseguira =tirar
Rodney da cabea. Sentia sua falta como nunca imaginara poder sentir; =seu
corpo ansiava pelo dele, ainda que fosse de longe, apenas. =Infantilmente,
convencera-se de que as saudades diminuiriam quando chegasse em casa, e =
agora pagava as penas do inferno, tamanha era a fora de sua =paixo. Era
ainda pior do que quando estava ao lado de Rodney.
Imaginara que em Camfield estaria a salvo, pois tinha o regao da =famlia
para se consolar. Mas no encontrara sossego em casa, nem mesmo ao =lado
de Nanna. Seu amor, sabia agora, era parte indivisvel de seu "eu"; =teria
de aprender a dormir, respirar e comer junto com ele.
Ao sentar-se e falar sobre Rodney, Lizbeth no sabia se odiava ou =amava a
situao. Era uma espcie de felicidade dolorosa, o sentimento =que
inundava sua alma, algo impossvel de descrever.
Como esperava, sir Harry logo entrou no assunto. Ela desatou a contar =
mais e mais histrias, sem se importar com a cronologia. Descrevia o =que
lhe vinha  cabea, saltando meses para a frente e para trs. =As horas
passavam, e ela nem se dava conta; no se sentia mais cansada, s =
tristemente feliz de poder falar sobre Rodney, sobre o mundo em que
vivera naqueles meses, agora to distantes. Falou de Dom Miguel, das =
Canrias, dos peixinhos que mais pareciam jias vivas. Contou =sobre a
fuga espetacular do espanhol, mas omitiu a maioria dos detalhes mais =
ntimos. Preferiu no contar que fora a causa da fuga de Dom =Miguel, pois
seu pai jamais entenderia suas razes.
228
Tambm no contou que Rodney acusara-a de estar apaixonada pelo =
prisioneiro. Reviveu na memria a fria incontida de Rodney, seus =beijos
doloridos... Interrompeu-se por uns minutos, sem perceber. Assustada, =
perguntou-se se o pai ou a astuciosa Catherine no tinham percebido =
alguns pontos contraditrios em sua narrao, algumas pausas, =algumas
falhas que ela no conseguia disfarar muito bem.
Mas ambos pareciam em transe, bebendo cada palavra da filha, como
crianas ouvindo um belo conto de fadas. Os olhos de sir Harry =brilhavam,
excitados. Catherine no se cansava de indagar sobre as jias, as =sedas,
as pratas.
Depois de muito tempo, Lizbeth disfarou um bocejo discreto.
- Gostaria de ir dormir agora, papai.
- Sim, criana, j so quase duas da manh. Por mim, ficaria =at o dia
clarear, mas vejo bem que est cansada. Estou orgulhoso e feliz com =sua
volta. Tanto quanto se fosse Francis.
Lizbeth julgou ter visto novamente a estranha expresso no rosto do =pai,
mas seu cansao impediu-a de examinar melhor o assunto.
Levantou-se, fez uma reverncia, e dentro de pouco tempo estava =no
santurio de seu querido quarto, onde Nanna ainda a esperava.
Atirou-se com volpia entre os lenis, deliciada com sua =maciez. Porm,
quando Nanna soprou a vela e fechou a porta, o sono fugiu
perversamente..
A imagem de Rodney alternava-se com a de Elita e de Francis, num
carrossel sem fim. Francis estava morto, morto, morto! Seu irmo, de =quem
prometera cuidar com desvelo materno. Francis, enforcado e =esquartejado.
Francis traidor...
229

CAPTULO XIII

O Santa Perptua j estava ancorado h algumas horas, quando =Rodney
percebeu que Lizbeth no estava a bordo.
Durante o dia, ele supervisionara os servios de atracamento, =recebera
inmeros oficiais, contara sua histria dzias de vezes, =apertara a mo
de milhares. Finalmente a batida solene do gongo de bronze chamou-o para =
jantar. Rodney desceu, achando que iria encontrar Lizbeth. Recusara
vrios convites para comer em terra, pensando que seria bom poder =
conversar um pouco com sua passageira. Pouco se importara com as finas =
iguarias que certamente lhe ofereceriam; o porco salgado seria o
bastante.
Enquanto se dirigia para a sala de jantar, viu que estava algo =deprimido.
Esta seria sua ltima refeio a bordo do Santa Perptua. =Acabara
gostando muito desse navio, apesar dos estranhos adornos e do gosto algo =
duvidoso de sua decorao. A Rainha, provavelmente, mant-lo-ia =em sua
armada, apenas como curiosidade. Rodney nunca mais navegaria no Santa =
Perptua, o que o deixava meio sentimental. Pensou em Lizbeth e achou =que
ela certamente sentia a mesma coisa.
A mesa estava posta para uma pessoa apenas.
- Hapley! - chamou, surpreso.
- Sim, senhor.
230
Onde est L... sir Gillingham? Desembarcou h muito tempo, =capito.
Desembarcou? Mas... para onde diabos
foi
ele?
- No sei, capito. Nem se despediu de ningum. S me deu um =abrao,
porque eu estava perto. E me deu uma moeda de ouro. Menino bom e =esperto,
aquele!
Sem saber por qu, Rodney sentiu uma raiva imensa apossar-se dele. =
Sentou-se e comeou a tamborilar na mesa, num gesto que faria Lizbeth =
sorrir. Ento, aquela mal-educada se fora sem um adeus, um sorriso, =um
nada!
Mal tinham conversado pela manh; nem sequer haviam discutido o que =
diriam a sir Harry. Rodney decidiu que no valia a pena aborrecer-se =por
isso e deu de ombros.
- Que se rale, a feiticeira - disse, em voz alta.
Mas uma inexplicvel sensao de solido substituiu =instantaneamente a
raiva. Bem, afinal passara com ela meses a fio, e acostumara-se a comer =a
seu lado. Nada mais natural que sentisse falta da pequena companheira. =
Empunhou o garfo e tratou de comer, mas o rosto de Lizbeth no =saa
facilmente de sua cabea. Ouvia o som cristalino de sua risada
contagiante, revia os cachos rebeldes que ela costumava soprar
inutilmente da testa, os olhos verdes, mais verdes que as esmeraldas de =
Dom Miguel.
Empurrou o prato, impaciente. Pretendia conversar ainda com Lizbeth, =
combinar com ela o que contariam em Camfield. Planejara contar-lhe os =
rasgados elogios que ouvira durante o dia, as dificuldades que =encontrara
para contentar todo mundo na partilha... Havia tanta coisa para =contar!
231
Esvaziou a taa, sentindo-se irritado e impaciente. Devia ser por =causa
do Santa Perptua; de fato, a ideia de separar-se do navio deixava-o =
infeliz. Na certa, sentiria a mesma coisa a cada viagem que fizesse, mas =
esta era especial, porque fora sua primeira experincia. No se =
esqueceria facilmente dela.
Lembrou-se da emoo que sentira ao pisar pela primeira vez no =Santa
Perptua, ao captur-lo nas barbas do inimigo. Havia muita coisa =para
lembrar... A maciez do leme, as velas enfunadas, a escapada da baa. =O
momento em que avistou, na cerrao da madrugada, o Gavio do =Mar, que
vinha a seu encontro. Lizbeth estava na proa, acenando alegremente, =cheia
de orgulho pelo feito dele... Pensando bem, Lizbeth era uma jovem bem =
bonita!
Naquele dia, ela tinha os olhos brilhantes como estrelas. Estava =contente
com o qu ele tinha conseguido, e cumprimentara-o efusivamente pela =
conquista.
Sentiu um aperto no peito quando se lembrou quando a beijara na cabine. =
Por que diabos perdera a cabea daquele jeito? As estrelas que =costumavam
brilhar nos olhos de Lizbeth tinham sumido, naquele dia. Seu belo rosto =
estava desfeito de espanto e desapontamento. Ainda podia at senti-la =
debatendo-se inutilmente entre seus braos... Ela implorara para que =a
soltasse, mas fora em vo. Lembrou-se que dera um enfurecido =pontap num
tamborete de carvalho, esse mesmo onde agora repousava os ps.
Mas por que lembrava-se dessas coisas? Desde aquele dia, Lizbeth passara =
a ter medo dele. Contudo, no tivera medo ao auxiliar Dom Miguel. Sem =
hesitar, enganara o vigia, e depois enfrentara-o, a diabinha... =Irritado,
Rodney deu outro pontap no tamborete, praguejando.
232
- Maldito espanhol!
Tinha sido corts demais com ele, decidiu. Devia t-lo posto a =ferros!
Entretanto, Dom Miguel sabia ser boa companhia. Houve momentos at em =que
Rodney se esquecera de sua nacionalidade. Mas neste preciso momento, =
Rodney odiava Dom Miguel. Ora, o homem tivera a audcia de tomar =Lizbeth
nos braos!
- Como diabos no enfiei minha espada naquele peito emproado? -
perguntou-se, andando de l para c. Era o que ele merecia...
Estava bvio que o espanhol se apaixonara por Lizbeth. Ficava todo =babado
ao lado dela, e no se dava ao trabalho de esconder seus sentimentos, =nem
por decncia.
, decididamente, odiava-o ainda. Quantas vezes sofreara a vontade de =
desafi-lo para um duelo, de acorrent-lo, de escond-lo num =lugar onde
Lizbeth no pudesse ir. Teve at ganas de atir-lo ao mar, =quando
passaram por uma regio infestada de tubares.
Curiosamente, esse dio parecia aumentar agora. Rodney pilhou-se =pensando
que s sossegaria com a notcia de que Dom Miguel estaria morto. =Revia-o
conversando com Lizbeth, rindo e cochichando, e de repente viu-se
golpeando a parede com os punhos. Parou, surpreendido.
Como um raio, a verdade fulminou-o. Amava Lizbeth!
Desabou na cadeira, atordoado com a descoberta. Agora sabia porque =sentia
tanta raiva e sede de vingana. No havia como negar, =apaixonara-se, ele
prprio, por Lizbeth.
Correu para sua cabine, enfiou a cabea na tina de
233
gua fresca, tratando de pr em ordem os pensamentos. Sim, amava =Lizbeth.
No tinha desconfiado disso at perceber que a ausncia dela =causara-lhe
tristeza. Havia-se acostumado de tal maneira com sua companhia, que
julgara que a teria para sempre. At agora, Lizbeth fora como um =objeto
facilmente alcanvel; com sua partida, tudo viera  tona, como =furnculo
doloroso.
Agora entendia porque ficava to alegre de cada vez que capturava um =
tesouro; no era pela carga em si, era para ver a expresso de =orgulho e
admirao com que Lizbeth sempre o presenteava. Como fora cego! =Tudo o
que fazia: o lao da gravata, as ordens que dava, as abordagens que =
planejava, tudo era por conta daqueles olhos verdes... Era pensando em =
Lizbeth que ele agia. E isso, desde o primeiro dia... no restava =dvida,
desde o dia em que a beijara entre lilases perfumados.
Lizbeth entrara no navio como rapaz. Como mulher, entrara fundo no
corao de Rodney. De mansinho, assim como quem no quer nada, =tomara
conta de seu corpo e de sua alma. Viu-se irremediavelmente preso =quela
inglesinha de mostarda e pimenta.
A viso de Lizbeth nos braos de Dom Miguel, naquele dia, =despertara nele
um dos sentimentos mais velhos do mundo. Cime! Era duro admitir, mas =
Rodney no era homem de fugir a responsabilidades. Simples e =transparente
cime! Humildemente, reconheceu que agira como insensato. Atirara =poeira
em seus prprios olhos, para no enxergar a verdade.
Veio-lhe imensa vontade de atirar-se a seus ps e declarar seu amor. =Uma
onda de ternura, para ele at ento desconhecida, apossou-se de =seu peito
e f-lo arquejar.
234
- Lizbeth! - falou, muito baixinho.
Ah, como desejava abra-la, ench-la de beijos... A ideia de =passar suas
mos pelo corpo dela deixou-o prontamente excitado. Queria =possu-la como
mulher, ser dono daquele par de seios que adivinhava belos. Queria =t-la
na cama, faz-la gemer de gozo...
Mas ele estava noivo de Phillida. Noivo de uma quimera, de uma bela =deusa
de porcelana, que nada mais derpertava nele. Phillida, que fitava o =mundo
com suas pupilas claras e distantes, frias como a gua do Tamisa. =Como
fora precipitado ao pedi-la em casamento!
No entanto, quando seu padrinho sugerira essa unio, tudo parecera =
perfeito. Phillida era linda, fcil de amar. Agora, no havia como =voltar
atrs.
O apito do Santa Perptua cortou os ares, como triste lamento. Era =sinal
de que havia visitas importantes a bordo.
Rodney forou-se a levantar, arrumou os cabelos e preparou-se para =
afastar Lizbeth da cabea. Mas suas botas pareciam de chumbo, ao =subir a
escada. Toda a glria que sentira naquela manh, ao chegar em =Plymouth,
havia-se dissolvido como bolha de sabo. Era como se o sol tivesse =
deixado o mundo. Em seu lugar, Rodney s via cinzenta neblina, =preldio
de intolervel solido.
Em Camfield, Lizbeth sentia os efeitos da interminvel espera. =Deixava-se
levar ao sabor dos caprichos da madrasta, que escolhia balandraus de =
cetim, corpetes de seda, coifas do mais puro linho. Docilmente, Lizbeth =
experimentava tudo, indiferente ao vvido excitamento de Catherine. =Para
ela, bastava-lhe viver do passado. Enquanto as costureiras borboleteavam =
a seu
235
redor, agarrava-se s lembranas. Ouvia os queixumes de Phillida =
quietamente, e aceitava impassvel as exploses do pai.
Contudo, no sabia lamuriar-se e chorar pelos cantos, como a irm. =Por
dentro, vibrava com a intensidade do amor impossvel que abrigava no =
corao; sabia que viveria alimentada por ele, e gostava disso. =Certa
noite, empenhou-se em persuadir Phillida a levantar-se e descer. Mesmo =
plida, semi-histrica e chorosa, a irm continuava linda como =um lrio.
Seus olhos intensamente azuis contrastavam com a transparncia =difana do
rosto, e possuam um brilho espiritual, quase mstico. "Sim, =Phillida 
linda, mais fresca que uma flor", pensou, enquanto ajudava a irm a =
sentar-se ao lado da lareira. "E Rodney vai ficar orgulhoso da =noiva..."
Sentou-se ao lado dela e apanhou um livro. Desde a noite em que chegara, =
jamais fizera qualquer pergunta sobre os Keen. Como estaria Elita agora? =
Poderia estar morrendo de fome e inanio, trancada naquele =casaro
sombrio. No, talvez no. Ela mencionara amigos; certamente, eles =tinham
vindo busc-la. Lizbeth no conseguia sentir pena da moa. =Queria, a
qualquer preo, salvar a reputao de Francis.
Rodney iria ajud-la, disso tinha certeza. Mas tardava a chegar, e =sir
Harry tinha recomeado a pression-la para partir. Receava que a =Rainha
j tivesse convidado outra moa para o lugar vago em Whitehall. =Seria
difcil dom-lo por muito tempo mais.
Naquela noite, porm, Rodney chegou. J estavam deixando a mesa, =quando o
criado veio avisar:
- O senhor Hawkhurst est na biblioteca, esperando por Sua =Excelncia.
Todos acorreram ao encontro de Rodney. Lizbeth,
236
ao v-lo, sentiu uma dor pungente trespassar-lhe o peito. Tinha-se =
esquecido de como ele era bonito... Ficou mais atrs, observando-o, =
enquanto ele cumprimentava polidamente Catherine, abraava sir Harry =e
beijava a mo de Phillida.
- Lizbeth! Pequena Lizbeth, j se esqueceu de mim?
Rodney avanava para ela sorridente, de mos estendidas. No =foi difcil
sorrir, porque estava feliz de v-lo; mas assustou-se com o =corao, que
batia como um tambor, to alto que juraria que todos estavam ouvindo. =Riu
alto, embaraada.
- Claro que no, como poderia? Eu... - apertou significativamente a =mo
de Rodney - contei a todos a histria de Francis. Contei como ele =morreu
a bordo do Santa Perptua, naquela ltima batalha. Contei que meu =irmo
lutou com coragem at o fim, mas tenho medo que achem que eu estava =
exagerando. Por isso gostaria de que voc contasse a histria a =eles
tambm.
Rodney pescou tudo no ar, para seu alvio. Sem um segundo de =hesitao,
ele se virou para sir Harry:
- Posso assegurar-lhe milorde, que Lizbeth no exagerou. Tudo o que =ela
disse  pouco, perto do que Francis fez. Ao mesmo tempo, desejo
expressar-lhe meus sinceros psames pela perda de seu filho.
- Fico orgulhoso de que tenha sido de maneira to honrosa. Mas vamos =
deixar as coisas tristes de lado. No quero que nossa aflio =pessoal
estrague a alegria que deve estar sentindo. Soube que voc voltou =
vitorioso, Hawkhurst...
Desafogada e leve, Lizbeth soltou um suspiro. Trouxeram vinho e queijo, =
enquanto Rodney tagarelava animadamente com sir Harry.
237
Phillida ouvia, interessada. Havia cor em seu rosto agora, e os =lbios
frequentemente abriam-se para sorrir, coisa que h muito tempo no =
acontecia. Lizbeth sentiu uma pontada de cime ao pensar: "Ela h =de
aprender a am-lo. E falta pouco para isso!"
Em meio a risos e conversas, Rodney de repente bateu com a mo na =testa.
- Que esquecimento o meu! Preciso pagar o cocheiro que me trouxe... o =
coitado deve estar exausto. O pior  que ele deve voltar a Londres =amanh
cedinho. Se me der licena.
Quando ele saiu, Lizbeth aproveitou para anunciar:
- Bem, agora que Rodney voltou, amanh mesmo irei a Londres.
- Bravo, criana!
- Ainda bem que j est tudo arrumado - interveio lady Catherine. =- Voc
j entregou seus apontamentos para Rodney?
- Eu... ainda no. vou entreg-los agora mesmo. E depois vou-me =deitar,
porque terei de acordar cedo amanh.
-  bom. Quero minha filha muito bonita para o grande dia. Imagine, =minha
Lizbeth, dama de honra da Rainha...
Lizbeth tratou de escapar antes de Rodney voltasse. Encontrou-o no =grande
saguo da escada. Falou baixinho e rpido:
- Francis morreu. No tenho tempo de explicar agora mas, de qualquer =
modo, obrigado por ter compreendido.
- Foi um prazer, Lizbeth.
Ela levantou os olhos, e o sorriso morreu-lhe nos lbios. Durante um =
longo instante, entrefitaram-se. Era como se estivessem a bordo do Santa =
Perptua...
238
Lizbeth perdeu a noo de tempo e espao, perdida de paixo. =Ele
aproximou o rosto ainda mais, fazendo-a fechar os olhos, inebriada de =
felicidade. Entreabriu os lbios, ofegante.
- Pequena Liz...
- Hawkhurst! Onde est voc? - o vozeiro de sir Harry =f-los estremecer.
- Volte para c, meu rapaz. A est muito frio!
Sir Gillingham apareceu na porta, com uma taa de vinho na =mo.
- J vou indo, sir Gillingham. Lizbeth...
- Eu estava falando com ele sobre aqueles apontamentos, papai. J =os
entreguei a ele.
- Ora esta! Por que a? Venham para o p do fogo!
Mas Lizbeth j subia as escadas.
- Ele j tem tudo, no  preciso mais dar explicao =nenhuma. Boa-noite,
papai. Boa-noite, Rodney...
Sem esperar resposta, galgou rapidamente os ltimos lances, em busca =do
refgio do quarto. Deixou-se despir por Nanna e logo depois fingia =que
adormecia. Quando ficou s, sentou-se numa cadeira em frente  =janela,
mergulhada em pensamentos tristes. H pouco, tivera a impresso de =que
Rodney iria beij-la... Mas isso era loucura. Ele estava apaixonado =por
Phillida!
Afinal de contas, ir para Whitehall seria uma boa soluo. Ficaria =longe
de Rodney e conheceria muita gente nova. Teria com o que se ocupar!
O grande relgio soou vrias vezes, antes que ela pudesse cochilar =um
pouco. Acordou entanguida de frio, pois adormecera na poltrona sem
perceber. O dia j clareara, mas o tempo continuava enfarruscado =e
chuvoso. Arrumou-se e desceu, com a morte na alma.
Sir Harry, excitado com a partida da filha, j a
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esperava. Beijou-a ruidosamente e entregou-lhe uma bolsa cheia de moedas =
de ouro.
- Se precisar mais,  s avisar.
- Obrigada, papai.
- Tenha juzo e comporte-se. A Rainha  exigente.
Lizbeth despediu-se dos criados e finalmente montou. Sentia-se algo
ridcula dentro daqueles suntuosos trajes de montaria, mas Catherine =
assegurara-lhe que era a ltima moda. O petulante chapeuzinho =ostentava
uma pluma que quase batia no ombro.
- Onde vai, Lizbeth?
Era Rodney, que descera apressadamente.
- A Londres.
- Londres! Mas... fazer o qu?
- Ela vai ser dama de honra do palcio, meu rapaz - respondeu sir =Harry.
- No  que ela est bonita de verdade?
- Muito - volveu Rodney, com ar desapontado.
- Eu... no sabia de nada. Gostaria de falar com voc antes, =Lizbeth,
Ontem mal tive tempo de conversar.
- Agora no posso, Rodney. Tudo j est pronto, e os criados =esto
esperando.
- Por favor, Lizbeth...
Mas ela j estava longe, forando o cavalo a galopar. Fustigava =com raiva
o animal, enquanto lgrimas quentes escorriam de seus olhos, =cegando-a.
Lizbeth gostava de Londres. Amava o Tamisa, o intenso e constante
burburinho, as lojas cheias de curiosidades. Como esperava, sentiu novo =
alento ao penetrar nas ruelas tortuosas, ouvindo o prego de =vendedores,
cujas roupas coloridas enfeitavam o cinzento das casas. Mulheres vendiam =
tortas, limpadores
240
de chamin anunciavam cantando seus servios. Esse era o costume, =em
Londres: todos cantavam, oferecendo seus produtos. E cada um tinha sua =
msica caracterstica; as ruas pareciam em festa eterna, uma babel =
colorida e alegre.
Carregadores misturavam-se com graves mercadores; cartolas sucediam-se a =
bons; elegantes calas listradas, e aventais salpicados de =farinha.
Mulheres erguiam cestos,  medida que Lizbeth passava:
- Belas mas, milady!
- Compre meu pescado, para levar a Sua Excelncia, o senhor seu =pai...
- Castanhas frescas, nozes!
- Fsforos... compre meus fsforos, por favor... Lizbeth sorria, =sem nada
responder. Mas Nanna,
montada logo atrs, vituperava e praguejava.
- Que amolao! Esse pessoal no d trgua... Ai, meu =rico cantinho em
Camfield...
- Est arrependida de ter vindo, Nanna?
- No, minha menina, no estou. Mas essa gente...
-  gente alegre, deixe.
Nanna bufou, resmungou, mas acabou silenciando. Lizbeth estava feliz por =
ela ter vindo. A princpio, Catherine no queria deixar, mas =Lizbeth
bateu o p.
- Sem Nanna, no vou. Sou capaz de armar a maior confuso aqui em =casa.
Papai pode fazer o que quiser comigo, mas sem Nanna eu no vou.
Agora, com a boa mulher a seu lado, Lizbeth estava quase esquecida de =
suas atribulaes. Os cavalos caminhavam devagar, abrindo caminho =nas
ruas apinhadas.
Finalmente, transpuseram os imponentes portes de Whitehall. A =majestosa
entrada inspirou um pouco de medo e reverncia no corao de =Lizbeth. Sem
saber
241
por qu, teve vontade de fazer meia-volta e tornar a Camfield. L, =pelo
menos, no era uma ilustre desconhecida.
- Nanna... estou com medo.
- Bobagem, menina. Voc ser a favorita, vai ver.
Dois elegantes criados, de librs luzidias, j as esperavam. =Conduziram-
nas entre galerias imensas, jardins que pareciam ter saltado de um livro =
de gravuras, labirintos infindveis de corredores, camarins e escadas =
atapetadas.
O quarto de Lizbeth, situado no fim de uma ala, era luxuoso e bem
mobiliado, mas o que a encantou foi a vista que a janela lhe oferecia. =O
Tamisa corria preguiosamente ao longo de um tapete verde, pontilhado =de
flores. Pequenas embarcaes deslizavam mansamente entre cisnes e =garas.
- Que beleza! Nanna!
- S podia ser, Lizbeth. Afinal, estamos no palcio da Rainha!
- Estou to contente por voc ter vindo! Catherine at que foi =gentil
comigo.
- Do jeito como voc insistiu, ela nada podia fazer. Mas que ficou =
irritada por eu ter vindo, ah, isso ficou!
- Olhe, aqueles homens vendem po para dar aos cisnes... Ai, que =vontade
de ir at l!
- Agora no pode ser.  preciso arrumar as coisas, trocar de =roupa.
- Veja, Nanna, que flor esquisita  aquela ali?
- No tenho tempo para paisagens, menina. J viu a quantidade de =malas
que tenho para desfazer? Lady Catherine exagerou, eu acho. A h =roupa
para um batalho de aafatas, no uma s.
242
- Nanna! - Lizbeth riu gostosamente - Aafata  uma palavra antiga =
demais, eu j disse. Alm do mais,  feia. No gosto de ser =chamada de
aafata... soa ridculo!
- Pois, para mim, dama de honra  que  feio e ridculo. Ora, a =menina 
uma rica aafatinha... A boa mulher falava e trabalhava o mesmo =tempo.
No sei onde  que eu estava com a cabea, quando concordei em =vir...
dama de honra, pois sim... aafata  que ... aafata, =pronto,  assim
que aprendi...
Lizbeth riu alto e pendurou-se no pescoo de Nanna.
-  assim que gosto de voc, minha Nanna... deliciosamente =rabugenta!
Algum tempo depois, Lizbeth, vestida com apuro, aguardava o momento de =
comparecer ao salo. Nanna cantarolava no outro quarto, e a tarde =tingia
o Tamisa de vermelho. A lembrana de Rodney assaltou-a, como febre =ter.
Ia e vinha, ia e vinha, sem dar trgua para respirar.
Agora ele devia estar ao lado de Phillida, talvez beijando-a... A
excitao da chegada dissolveu-se em cinzas. Todas as moas da =Inglaterra
sonhavam com a honra que Lizbeth estava recebendo. Todas queriam ser =
damas de honra no palcio, mas poucas eram as escolhidas.
Talvez, dentro de poucas horas, Lizbeth ver-se-ia diante da pessoa mais =
importante do mundo: Gloriana, Elizabeth, a Rainha. Fora agraciada com a =
honra de poder v-la constantemente, compartilhar sua mesa, =acompanh-la.
Mas toda essa pompa, toda essa glria, para ela pouco valia. Porque =tudo
o que Lizbeth queria era o luxo dos braos de Rodney, a riqueza de =seus
beijos e a glria de ser sua mulher.
243

CAPTULO XIV

Os aplausos vibrantes da multido tornaram-se ensurdecedores. =Bandeiras e
lenos agitavam-se freneticamente no ar, enquanto o squito =prosseguia
lentamente. Sua Majestade a Rainha voltava a Whitehall, depois da
cerimnia na Catedral de St. Paul.
Lizbeth, entre as damas de honra, sentia-se perdida no meio de tanta =
gente importante.
- Voc viu o Duque de Essex? Meu Deus, que pedao de mau =caminho... -
murmurou-lhe lady Mary, que se tornara sua amiga.
- Shh! Podem ouvir...
- Que me importa! Quero mais  conquistar esse homem... mesmo sendo o =
favorito "dela"...
- Mary! - ralhou Lizbeth, sentindo-se desconfortvel. Todos sabiam da =
ligao do belo Duque de Essex com a Rainha, mas ningum =comentava
abertamente, muito menos em pblico.
- Ora, isso no  segredo para ningum. Todo mundo sabe que ele =e a
Rainha...
- Mary! Lorde Brunel est de olho em ns duas.
- Aquele peixe velho? timo. O babaca no faz mais que olhar, nem =tem
mais idade para outra coisa.
Lizbeth sorriu discretamente, por trs do leque. Desde que chegara ao =
palcio, lady Mary passara a encher seu tempo de alegria, espantando =toda
e qualquer preocupao. Era uma jovem petulante e travessa,
244
sempre com uma observao ferina na ponta da lngua.
- Veja, Lizbeth, o Duque est olhando para mim... Ai, meu Deus, que =
garbo, que elegncia! Esse homem ainda h de ser meu, um dia!
- Por mim, acho sir Walter Raleigh mais bonito
- disse Lizbeth, provocando-a.
- Nunca!  um almofadinho refinado, nada mais. O cortejo j =chegara ao
palcio, onde haveria um
banquete de comemorao pela vitria contra a armada espanhola. =Em
ruidosa alegria, as moas sentaram-se nos lugares reservados
especialmente para a corte particular da Rainha.
- Ei, Lizbeth, e voc? J se apaixonou por algum daqui? - =perguntou lady
Mary, enquanto se sentava.
- No - respondeu, com vivacidade exagerada.
- Bobagem. Todas as damas de honra tm um "caso". Logo voc =ter o seu.
Lizbeth calou-se. Nenhum daqueles homens, por elegantes e refinados que =
fossem, chegava aos ps de Rodney! Mas lady Mary jamais saberia de =seu
segredo. Ningum poderia saber, nem Nanna.
Os menestris iniciaram suas baladas e o banquete comeou a ser =servido.
A Rainha, esplendorosa num riqussimo vestido branco recamado com =ouro e
prolas, distribua sorrisos e cumprimentos. Agora que Lizbeth =conhecia-a
de perto, concordava plenamente com os outros. Era uma mulher
extraordinria, nica, cujo segredo consistia em ser altiva e =meiga ao
mesmo tempo. Poder e seduo mesclavam-se de tal sorte, que seria =
impossvel determinar onde acabava a mulher, onde comeava a =soberana.
Conhecendo-a, era fcil entender como conseguia manejar com =percia as
rdeas do imenso reinado. Lizbeth lembrava-se frequentemente
245
do discurso que Rodney proferira antes de capturar o Santa
Perptua. Era verdade tudo o que ele dissera. A Rainha era... =Gloriana.
De repente, fez-se silncio na sala, os menestris calaram-se, =enquanto
murmrios percorriam as mesas. Sir Francis Welsingham, velho amigo da =
Rainha, aproximou-se dela e falou, depois de profunda reverncia:
- Majestade, peo-vos permisso para apresentarvos vosso mais novo =
conquistador, homem ainda novo, mas digno e leal sdito de Vossa
Majestade. Rodney Hawkhurst!
Lizbeth estremeceu ao ouvir o nome. Teve vontade de fugir para bem longe =
dali, sem saber por qu. Rodney, o seu Rodney, estava ali... na =corte, a
seu lado. E ela no poderia ir falar com ele! A Rainha no =permitia
qualquer quebra do rgido protocolo.
Quando ele entrou, o silncio fez-se mais pesado ainda. Trajado com =
elegncia e sobriedade, parecia mil vezes mais bonito do que nunca =aos
olhos apaixonados de Lizbeth. Rodney caminhava com desenvoltura, como se =
sempre tivesse pisado o cho do palcio. Postou-se diante da =Rainha e
curvou-se respeitosamente. Seus olhos cintilavam. Lizbeth sabia que
aquele era um momento de extrema importncia para ele.
- Que homem lindo! - sussurrou lady Mary. Quem  ele?
- Eu... - balbuciou Lizbeth, sem saber o que dizer.
-  um corsrio, menina! - interveio lady Rose, uma lourinha =irrequieta e
tagarela. - Corre por a que ele andou fazendo poucas e boas no mar. =
Capturou um navio espanhol cheinho de ouro...
- Um corsrio! - suspirou outra, mastigando um
246
confeito de amndoas. - Sempre tive vontade de conhecer um...
- Ento v falar com ele, ande!  a sua oportunidade!
- Est louca? Olhe como a Rainha conversa com ele... Deve ser um =homem
importante, hem... Nossa Rainha est toda entretida na =conversa...
- O Duque de Essex que se cuide, seno... As risadas espoucaram, =alegres.
- Ei, ele est dando um presente para a Rainha! O que ser?
Lizbeth mal ousava olhar, receando que as astutas amiguinhas =descobrissem
sua agitao. Mas, quando ouviu falar no presente, arriscou-se a =esticar
o pescoo.
De fato, Rodney acabava de entregar uma pequena caixa esmaltada  =Rainha.
Esta abriu-a e sorriu, satisfeita.
No era preciso mais nada. Lizbeth tinha certeza: Rodney acabava de =
entregar  soberana as seis prolas encontradas no lugre. Sem =dvida, no
havia presente mais adequado para Gloriana!
- E a conversa continua! - murmurou lady Rose.
- Como cochicham, os dois!
- Ei, olhem! Ele est apontando para c!
- A Rainha ri! E tambm olha para ns... Que ser?
- Ora,  fcil deduzir! Ele est pedindo a primeira dana =para uma de
ns... Espero que seja eu!
- S se for por cima de meu cadver!  comigo que ele vai =danar!
- Shh! A Rainha pediu silncio! Pediu a espada de sir Burlough...
Lizbeth, que se mantivera calada o tempo todo, ergueu vivamente a =cabea.
S havia uma explicao
247
para a Rainha ter pedido a espada de seu ConselheiroMor. Quase soltou um =
gritinho de alegria, ao ver Rodney ajoelhar-se diante da Rainha. Esta se =
levantou e sagrou-o Cavaleiro do Reino, tocando-lhe o ombro com a =espada.
Uma salva de palmas estrugiu, saudando o novo Par do Reino.
Sir Rodney Hawkhurst! Lizbeth mal podia conterse de orgulho. Rodney, o =
seu Rodney, encontrara afinal a recompensa bem merecida.
Mas ele j se inclinava para a Rainha e retomava a conversa com ela. =
Pareciam animados e gesticulavam bastante, provocando grande curiosidade =
entre as damas de honra, que continuavam a especular sobre o "belo
corsrio".
Algum tempo depois, a Rainha levantou-se. Imediatamente, as damas de =
honra deixaram seus lugares e rodearam-na, como de costume. Era hora de =
acompanhar a soberana a seus aposentos.
- Velha bruxa! - murmurou lady Mary. - Estava to gostoso aqui...
- Nem ficou para a primeira dana!
- Shh...
Lizbeth escondeu o rosto atrs do leque, ao passar por Rodney. Mas =seus
olhares cruzaram-se por breves instantes. Instantes mgicos, =iluminados,
que a fizeram derreter como se estivesse vizinha a um braseiro. Contudo, =
Rodney pareceu nem sequer conHecla. Passou por ela e seguiu adiante, =sem
dar sinal de vida.
com o corao em frangalhos, Lizbeth disps-se a acompanhar o =cortejo.
Rodney fingira no a conhecer! Seus ps arrastavam-se =automaticamente no
tapete macio. Forava-se a sorrir, enquanto por dentro chorava
sentidamente. Por que teria ele agido assim?
248
O cortejo atravessou o grande ptio, rumo aos aposentos da Rainha. =
Grandes rvores seculares circundavam a alia por onde as jovens =seguiam,
poucos passos atrs da soberana. Lizbeth fechava o squito, =mergulhada em
tristezas.
Sbito, alguma coisa pesada abateu-se sobre ela. Lizbeth deu um grito =
estrangulado, que foi prontamente abafado. Algum cobriu sua =cabea com
um saco pesado e imobilizou-a, conquanto ela lutasse ferozmente para =
soltar-se. Aterrada, Lizbeth viu-se carregada como um fardo para longe, =
enquanto ouvia os gritos agudos e histricos das colegas. Num =timo, foi
atirada no lombo de um cavalo, que imediatamente ps-se a =galopar.
Estava sendo raptada! "No pode ser, estou sonhando! Ajudai-me, =Senhor!"
Algum deu um comando seco, e o cavalo deteve-se. Novamente, =mos
possantes agarraram-na e puseram-na de p. Lizbeth surpreendeu-se. =Onde
quer que estivesse, no podia ser muito longe de Whitehall. Tanto =melhor,
trataria de localizar-se logo que possvel.
Algum livrou-a do incmodo saco preto e tirou-lhe a venda dos =olhos. A
primeira coisa que Lizbeth viu foi um par de olhos brilhantes... e
ternos.
- Rodney! Mas o qu...
- Shh, minha pequena Liz... - fez ele, beijando-a suavemente na testa. - =
Desculpe pelo susto. Eu tinha que fazer isso... Eu te amo, eu te =amo...
Entre surpresa e maravilhada, Lizbeth deixou-se acariciar e beijar, =mesmo
sem nada entender. Rodney estava ali, a seu lado, era tudo o que lhe =
interessava. E dizia-lhe coisas bonitas e ternas...
Fechou os olhos, entregando-se  volpia das carcias.
249
- Rodney - suspirou baixinho.
Ele a olhou com uma doura at ento desconhecida para ela.
- Voc agora  minha, Lizbeth. Minha, para sempre!
Lizbeth viu a cabea de Rodney inclinar-se para ela, sentiu os =lbios do
rapaz tocarem os seus, entreabri-los, incendi-los com um beijo como =
nunca sonhara existir. Dir-se-ia que um braseiro, aceso por Rodney, se =
propagava por todo o seu corpo. Havia neles uma necessidade devoradora, =
uma atrao apaixonada, que os arrebatava para um mesmo =turbilho.
Lizbeth desprendeu-se como pde, inteiriando-se, procurando =reagrupar
suas defesas.
- Rodney, eu... No, por favor.
- Fique tranquila, minha pequena Liz, j descobri o que queria. =Voc me
ama! O fogo est em voc, agora. De meu corao, onde ardia, =ele se
passou para o seu. E s se extinguira com nossas vidas.
- Rodney, pelo amor de Deus, eu... no entendo nada.
- Vai entender. Por ora, temos muito pouco tempo. H uma pessoa =esperando
por voc.
- Onde? - perguntou ela, percorrendo a rua com olhos ansiosos.
Como resposta, ele apenas sorriu e apontou para a esquina, onde uma
carruagem fechada parecia discretamente  espera de algum.
Lizbeth deixou-se conduzir at o veculo, procurando pr em =ordem seus
pensamentos. A alegria e o xtase de momentos atrs agora =transformavam-
se em pnico. Acabara de beijar Rodney, deixara-o saber de seu amor =por
ele... E ele estava noivo de sua irm!
250
Uma onda de vergonha assaltou-a. Entregara-se como louca a seu futuro =
cunhado!
Nada conseguia encaixar-se naquele aparente quebra-cabeas. Por que =
Rodney a tinha raptado? Por que a beijara assim, estando noivo de sua =
irm? Por que...
- Lizbeth! - ouviu, por trs da cortina cerrada da carruagem.
Ela titubeou. Essa voz...
Rodney abriu a portinhola e f-la entrar, seguindo-a depois.
- Phillida! Mas... o que quer dizer tudo isso? A irm beijou-a
ternamente.
- Minha querida maninha! Que bom encontr-la de novo, Lizbeth!
Mas esta tinha uma camada de gelo cobrindo-lhe o corao. Rodney e =
Phillida estavam para fugir juntos, era isso! No sabia mais o que =
pensar. Aqueles beijos, o que significariam? Certamente no haviam =sido
beijos de cunhado!
Talvez Rodney s quisesse test-la pra ver se ela o amava. =Talvez
quisesse brincar com seus sentimentos, s para se envaidecer... =Lizbeth
quase sufocava de vergonha, e no achava foras para falar.
- Eu precisava v-la antes de partir, pequena Liz. Rodney conseguiu =
traz-la... Estou to feliz!
- Partir? - balbuciou Lizbeth.
- Sim, maninha, partir.  tudo to maravilhoso e inesperado que =mal posso
acreditar que seja verdade.
- Para onde... vocs querem ir?
- Ns? No, querida, s eu vou. Rodney arranjou tudo para mim. =Lizbeth,
ele  perfeito! Exatamente como voc me disse outro dia.
- , posso ver que voc est encantada...
251
- Parto para a Frana, mana. Agora! vou para Havre, onde j me =esperam
num convento.
- Cus! Convento...
- Notre Dame de Consolation.
Lizbeth sentia-se totalmente abobalhada. Tentava coordenar os
pensamentos, mas estes fugiam no minuto em que comeavam a =formar-se.
Phillida continuou, presa de excitao:
- Rodney arranjou tudo, at mesmo... meu dote. Ligeira =hesitao
acompanhou a frase, e Phillida
baixou os olhos. Lizbeth adivinhou que o dote fora mais do que =generoso.
- Mas como  que ele conseguiu? Ser que vo aceitar voc, =uma inglesa,
nesse convento francs?
Rodney, que escutava a conversa com um sorriso indulgente, =interps:
- No foi to difcil. Phillida ser muito bem recebida, =posso garantir,
j que minha irm  superiora nesse convento.
- Sua irm... freira? E catlica?
- Ela ... muito mais velha do que eu - replicou ele meio sem =graa, como
se isso explicasse alguma coisa.
Lizbeth riu, pela primeira vez, fitando-o diretamente.
- No deixa de ser engraado... Eu escondia de voc que minha =irm era
catlica. E voc tambm escondia de mim a mesma coisa!
Phillida pousou a mo em seu brao.
- Lizbeth, voc me falou to bem de Rodney, elogiou-o tanto, que =resolvi
criar coragem e contar tudo a ele. Pois bem, foi a melhor coisa que me =
aconteceu na vida. No s liberou-me do noivado, como ainda me =ajudou a
partir para o Havre... Mais tarde, com calma, ele lhe contar como me =
tirou de casa sem despertar
252
as suspeitas de Catherine. Mas agora, minha querida, preciso =apressar-
me. No sei como poderei agradecer a Rodney por tudo o que ele me =fez!
- Partindo imediatamente, Phillida - interveio ele prontamente. -
Desculpe, mas o tempo  curto. Sua escolta acaba de chegar para
acompanh-la at o cais.
De fato, meia dzia de cavaleiros elegantemente uniformizados
aproximavam-se. Rodney fez as ltimas recomendaes enquanto as =duas
irms se despediam comovidamente.
- At um dia, maninha. Talvez nunca mais nos vejamos, Lizbeth, mas =parto
feliz. Nunca se esquea disso!
-  s o que interessa, Phillida. Se voc est feliz, eu =tambm estou.
Phillida inclinou-se e falou baixinho:
- Quero que vocs sejam to felizes quanto eu. Sei que se amam =muito;
percebi-o logo que voc chegou a Camfield. Rezarei dia e noite pelos =
dois!
Lizbeth no conseguiu articular uma resposta. Limitou-se a =abra-la com
fora, sentindo imensa vontade de chorar.
- Vamos, meninas, nada de choro. O navio no pode esperar mais!
Lizbeth apeou da carruagem e, com o corao apertado, acompanhou-a =com
vista at ela sumir. Rodney envolveu seus ombros meigamente.
-  um final feliz, para quem teve vida to atribulada como sua =irm.
- Mas... afinal, como conseguiu realizar essas... essas faanhas?
- Fcil. Dei as prolas para a Rainha, conversei com ela...
- A Rainha?
253
Rodney riu alto.
- Afinal, eu lhe raptei a dama de honra mais bonita e enviei Phillida a =
um convento catlico... Acha que ela toleraria isso de um homem =qualquer?
- Ento... ela sabe de tudo? Sabe que estou aqui?
-  claro que sim. Combinamos tudo direitinho! No fosse isso, eu =jamais
conseguiria furar o esquema de segurana do palcio, bobinha. A =Rainha
deu instrues aos guardas, combinou hora e lugar... Que mulher =
extraordinria!
- Conte-me como foi. Estou to curiosa!
- Bem, eu disse a ela que estava apaixonado por voc, mas no =sabia como
fazer para tir-la do palcio. Primeiro, voc sabe, as damas de =honra s
podem se casar depois de terem servido um ano no palcio. Segundo, =sir
Harry esperava que eu me casasse com Phillida. Naturalmente, ele no =sabe
que a filha mais velha est prestes a tomar o vu de freira... =Para ele,
Phillida ainda  minha noiva. Vai ser um golpe duro para ele.
- Temos de avis-lo, Rodney.
- No, a Rainha se encarregar disso. Ela sabe manejar os homens =muito
bem... Est claro que no aprova a fuga de Phillida, mas concedeu =em
atender a um pedido especial meu.
- Ento era isso que vocs conversavam durante o banquete...
- Precisamente.
- Por que fingiu que no me conhecia?
- Para dar mais veracidade  histria. Senti que voc tinha =ficado
confusa, mas nada podia fazer de momento. Agora eu posso...
Tomou-a nos braos e comeou a beij-la com ternura.
254
- Ainda no compreendi tudo, Rodney... Por favor, conte um pouco =mais.
Ele se afastou um pouco, sem soltar sua mo.
- Curiosa! Est bem, vou contar mais. Como eu dizia, nossa Rainha =
comprometeu-se a aplacar a fria de seu pai. Depois, sugeriu-me que =
encenasse essa pequena farsa de seu rapto... Ela se divertiu com a =ideia!
Era de ver como ficou animada com os detalhes
- Mas por que fazer assim? Muito mais simples seria tirar-me do =palcio
sob qualquer pretexto.
- No, ela no podia abrir exceo e deixar-nos casar. Desse =modo, tudo
ficou mais fcil. Os mexericos j devem estar correndo por Londres =toda.
A estas alturas, minha Lizbeth, voc est com sua honra =manchada... que
s poder ser lavada com nosso casamento. Foi uma ideia genial da =Rainha!
- Papai talvez no goste. Eu mesma no sei se gosto...
- Vamos ver se voc gosta ou no.
E sorrindo, inclinou-se para ela. Lizbeth sentiu-se enfraquecer.
Respirava nele o cheiro das peles que o protegiam do frio, o odor
reencontrado de couro e mbar que nunca esquecera. Ondas vertiginosas =
apossaram-se de seu sangue, capazes de derrubar em instantes os =frgeis
diques que erguera.
Quando a boca de Rodney forou a sua, ela no pde deixar de =gemer. As
mos vidas e atrevidas de Rodney comearam a percorrer-lhe o =corpo, a
abrir-lhe o corpete, a afastar os panos, as sedas...
- Rodney, no... no aqui.
O sangue comeou a pulsar forte no corpo dela, batendo como =pssaro
enlouquecido. Cada toque despertava-lhe
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sensaes desconhecidas. Cada beijo traava caminhos =ardentes
sobre a pele fremente de Lizbeth. Ouviram-se, ento, distintamente, =
passos que se aproximavam. Era um mendigo. Ambos endireitaram-se
rapidamente, ainda atordoados de paixo e desejo.
- Uma esmola, pelo amor de Deus.
Rodney entregou duas moedas de ouro ao velho, que esbugalhou os =olhos.
- Deus lhe pague, meu senhor... Que seja muito feliz com sua linda
mulher! Deus lhe pague mil vezes...
A alegria jorrou no corao de Lizbeth, como gua fresca da =fonte. Ela,
mulher de Rodney! Algo embaraados, ambos caram na risada.
- Desculpe, pequena Liz. Perdi a cabea...
- Eu... acho que tambm perdi, Rodney.
- Est feliz?
- Muito.
- Eu te amo. Desde que voc deixou o Santa Perptua, no tive =um s
momento de sossego. No sabia que estava apaixonado por voc, =minha
feiticeira!
- Eu tambm te amo...
Ele depositou um beijo cheio de ternas promessas no rosto ainda =afogueado
de Lizbeth.
- Voc vai para a casa de meus tios, minha bela. So dois velhotes =
simpticos, vai ver. Eles esto  sua espera.
- Seus... tios?
- Bem, na verdade, no. Voc vai ficar em casa de meu padrinho, =szr
Francis Walsingham.
- O Conselheiro-Mor?
- Esse mesmo. Lembra-se? Foi ele que me apresentou a sir Harry.
Engraado... - Rodney abriu numa risada gostosa. - Meu padrinho =queria
que eu
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me casasse com a filha de sir Harry! Acabei obedecendo-lhe, como bom
menino que sou! Lizbeth riu tambm, deliciada.
- Liz, minha Liz, como amo essa risada! Parece msica... Sabe que ela =me
fez muita falta nestes dias?
- Rodney, eu mal acredito. Voc me ama?
- Demais, pequena. Estou totalmente apaixonado! De novo beijaram-se sob =o
manto complacente da
noite.
- Minha querida, voc ento vai agora para a casa de sir Francis =
Walsingham. L encontrar carinho e conforto.
- Por que l?
- Para no haver muito falatrio. Meu padrinho se encarregou de =explicar
tudo a sir Harry, mas com a condio de voc ficar sob a guarda =dele o
tempo todo. Assim, seu pai no ter de que se queixar.
- Quanto tempo devo ficar com ele?
- Alguns dias, querida, at nosso casamento.
- Casamento! J?
Ele riu de novo, brincando com os dedos de Lizbeth.
- Como, j? Para mim  uma eternidade!
- Mas eu... preciso preparar tudo, o enxoval...
- Nada disso. A Rainha j est cuidando da festa. Ela faz =questo de ser
sua madrinha!
- A Rainha! Meu Deus, Rodney, eu... j no sei mais o que =dizer!
 - O casamento ser na capela real, Lizbeth! Sir Francis Drake =ser meu
padrinho. Mal posso esperar, minha querida... Voc vai ser minha! =Minha,
como sonhei tantas vezes!
- Eu tambm sonhei, Rodney. Muitas vezes! Mas achava que voc... =gostava
de Phillida.
- Era o que eu pensava. Mas isso j passou, meu
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amor!  voc a mulher de minha vida... Ningum mais!
Os beijos sucediam-se, carinhosos, ternos. Lizbeth pisava em nuvens  =
macias e seu corao cantava.
- Rodney, eu acho que deveramos avisar papai.
- Sossegue, meu amor. A Rainha j enviou um mensageiro a =Camfield.
- Catherine  que no vai gostar. O casamento devia ser em =Camfield. Ela
adora organizar essas festas!
- Bem, ela pode ficar um pouco enciumada. Mas depois h de se =consolar.
Afinal,  uma honra ver a enteada casar na capela real, tendo a =Rainha
por madrinha.
- E Nanna! Meu Deus, ela deve estar aflita!
- No est, minha querida. A Rainha...
- j falou com ela - completou Lizbeth, rindo. - Parece tudo um =sonho...
Rodney, eu no quero acordar!
- Voc est acordada, pequena Liz - tornou ele, acariciando seu =pescoo.
- Mas agora, acho que  melhor irmos. Sir Francis deve estar =preocupado.
- Espere. Voc no me contou tudo ainda!
- H muito tempo para conversarmos, meu amor. Dizendo isso, Rodney =saltou
agilmente para a sela.
- Venha, pequena Lizbeth. A vida nos espera! com firmeza, puxou-a =para
cima, fazendo-a montar
 sua frente. Envolveu-a nos braos, de modo a poder segurar as =rdeas, e
sussurrou-lhe ao ouvido:
- Vamos ser felizes, feiticeira.
Depois esporeou o cavalo, que saiu a galope, rumo  felicidade.
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Fim
